O movimento das ações de inteligência artificial (IA) deu um susto nas empresas durante esta semana. Até a última quinta-feira (05), uma enorme onda de vendas eliminou trilhões de dólares do valor de mercado das companhias de tecnologia listadas na Bolsa americana.
Por outro lado, nesta sexta-feira (06), os papéis voltaram a subir após dados mais recentes sobre o emprego nos Estados Unidos contribuírem para um cenário misto nos mercados americanos no início do pregão.
Antes disso, entretando, os investidores vinham vendendo ações de empresas de tecnologia, em parte devido a preocupações de que a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato significaria um desenvolvimento mais lento da inteligência artificial.
Além disso, empresas intimamente ligadas ao desenvolvimento de inteligência artificial já sofriam fortes quedas nos mercados de ações, particularmente as fabricantes de chips e semicondutores.
O grande questionamento agora é como o cenário de desenvolvimento de IA pode influenciar os mercados e se esse fenômeno seria o ínício de uma bolha prestes a estourar.
A bolha de IA incha
O Brasilianista já mostrou como grandes empresas de tecnologia ampliam a construção de centros de dados, compram chips de alto desempenho e assumem compromissos financeiros de longo prazo para atender a uma demanda cuja rentabilidade ainda é objeto de debate.
Uma análise da Reuters, baseada em estimativas da LSEG, apontou que Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle podem gastar mais com investimentos em infraestrutura do que gerarão em fluxo de caixa livre até 2027.
As big techs também aumentaram suas dívidas “ocultas” para um valor estimado de US$ 1,65 trilhão (R$ 8,37 trilhões) somente no último trimestre, ao mesmo tempo em que os investimentos em IA sobem exponencialmente.
Um estudo do Nikkei Asia mostrou que esse montante já é maior do que a dívida registrada nos balanços das companhias de tecnologia dos Estados Unidos, de US$ 1,35 trilhão (R$ 6,85 trilhões). Esse fator preocupa os investidores, visto que não conseguem ter uma avaliação de risco completa. A pesquisa analisou demonstrações financeiras recentes e outros documentos da Alphabet (Google), Microsoft, Amazon, Meta e Oracle.
Como esses investimentos cresceram significativamente além dos valores usuais reportados pelas companhias, uma parcela crescente dos gastos é financiada por meio de empréstimos.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) indicou, em um relatório publicado em março deste ano, que os mercados de títulos corporativos têm sido a principal fonte de financiamento para os “hiperescaladores” — como chamam as big techs que apostam em IA.
As emissões brutas ultrapassaram US$ 100 bilhões em 2025 e a maior parte das emissões foi de longo prazo, com vencimentos superiores a cinco anos, garantindo financiamento para expansões plurianuais. No entanto, os spreads dos Credit Default Swaps (CDS) aumentaram, especialmente para as empresas com classificações de crédito mais baixas, refletindo tanto o volume de oferta quanto as incertezas em torno do retorno dos projetos.
A maior preocupação do momento está relacionada com o risco de projetos de data centers perderem fôlego e de uma eventual frustração com a IA se espalhar pelo mercado.
O investimento em IA está baseado no retorno sobre compras de GPUs e pagamentos por serviços de nuvem, mas a demanda ainda não pode ser completamente medida. Esse ciclo aumenta o risco de superinvestimento em data centers.
Caso haja mudança no mercado e a tecnologia de IA não seja mais útil, as big techs podem acumular uma série de dívidas.
Bolha de expectativas, não de tecnologia
Para os analistas ouvidos por O Brasilianista, há excessos, mas isso não significa que a IA seja uma bolha como um todo.
Para o analista da Axia Investing Felipe Sant’Anna, a inteligência artificial “veio para ficar”. Ele compara o momento ao da chegada da internet e dos computadores, que também geraram desconfiança, e à bolha das pontocom no início dos anos 2000, quando o mercado buscou precificar algo milagroso.
Segundo Sant’Anna, é possível que o mercado passe, em algum momento, por uma acomodação desses ativos, sem saber se ainda neste ano ou no próximo.
Ele avalia que há investidores aportando recursos sem entender como as empresas funcionam, e que muitas não vão entregar o resultado esperado. Por isso, nem todas as companhias podem ser colocadas dentro da suposta bolha.
"Fabricantes de chips, semicondutores, hardware e software, que estão de fato revolucionando a tecnologia, tendem a continuar subindo na bolsa. Haverá um afunilamento semelhante ao ocorrido nos criptoativos desde 2021 e o mesmo deve ocorrer com papéis e pequenas empresas de IA que não entregarem o que prometem" avalia.
O analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima, afirma que existe uma bolha de expectativas em parte do setor, já que muitas empresas são avaliadas com base em lucros que ainda precisam se concretizar, enquanto investimentos e dívidas crescem rapidamente.
"A forte queda de quinta-feira mostrou como essas ações estão vulneráveis a qualquer mudança nas expectativas. Novas correções podem ocorrer no curto prazo, principalmente entre empresas menos lucrativas e mais endividadas", analisa Lima.
O que o mercado precifica?
Segundo Lima, o mercado não questiona o potencial da IA, mas quanto dinheiro ainda será necessário para transformá-lo em lucro.
Durante muito tempo, bastava anunciar investimentos na área para atrair investidores. Agora, o mercado exige resultados concretos.
"As preocupações envolvem o aumento do endividamento, os custos de infraestrutura, os juros elevados e a possibilidade de maior fiscalização sobre os centros de dados após as eleições americanas", explica.
Para o analista, a recuperação desta sexta-feira é, por ora, uma reação às perdas anteriores, e não uma solução para esses riscos. Ele afirma que o mercado entra em uma fase de maior seletividade, em que crescimento sem rentabilidade terá cada vez menos espaço.
Sant’Anna, por sua vez, vê nas quedas recentes uma realização de lucros. Ele cita que as eleições de meio de mandato levantaram um novo discurso sobre regulação de IA e redes sociais, o que faz o mercado mergulhar, mas que ao longo dos dias ele se recupera, porque muitas empresas seguem entregando resultado positivo.
Ainda assim, os especialistas consideram mais interessante para os investidores priorizar empresas com lucros consistentes, geração de caixa e endividamento controlado, em vez de apostar excessivamente no crescimento futuro da IA. Isso não significa abandonar o setor de tecnologia, mas selecionar companhias capazes de transformar inovação em rentabilidade.
Siga O Brasilianista nas redes sociais

