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Política

Os detalhes da carta que Flávio não conta

Senador desconhece fatos históricos e mistura informações sobre perseguição política com figuras que lideraram revoluções e o combate à repressão

Os detalhes da carta que Flávio não conta
Carta agradece a Donald Trump e Javier Milei pela acolhida após a saída do país (Joédson Alves/Agência Brasil)

A carta de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o autodeclara como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. O político, que deixou o país sem conversar com a sua base, fez com que parlamentares alinhados precisassem compilar as informações sobre o que estava acontecendo.

O anúncio precisou ser ajustado, uma vez que o político publicou o documento duas vezes.

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Na mensagem, Flávio agradeceu aos presidentes Javier Milei, da Argentina, e Donald Trump, dos Estados Unidos, pela acolhida na fuga e pela recepção de sua família em solo americano para se refugiar.

O que se coloca em dúvida são as informações incluídas nas comparações históricas e as afirmações sobre perseguição política. O Brasilianista analisou cada ponto mencionado no documento, constatando incoerências em relação aos fatos históricos.

"Brazil"

Na primeira versão divulgada da carta, é utilizado o brasão oficial acompanhado da inscrição "Estados Unidos do Brazil", grafado com Z, e com a data de 15 de novembro de 1889.

A primeira versão da carta não se encontra mais disponível com o antigo brasão, que foi substituído pelo brasão de 1889 (Reprodução / Redes sociais @flaviobolsonaro)

O nome "Estados Unidos do Brasil" foi adotado com a Proclamação da República e formalizado pela Constituição de 1891, vigorando até 1967, quando passou a ser utilizada a nomenclatura "República Federativa do Brasil".

Charles de Gaulle

Flávio tenta legitimar a sua saída do Brasil comparando o seu caso a episódios históricos mundiais e nacionais.

A carta menciona que Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres após ser condenado pelo regime de Vichy.

A contestação histórica reside no fato de que De Gaulle não se exilou por ter perdido uma eleição democrática ou por ter contestado o resultado das urnas.

O militar francês deslocou-se para a Inglaterra a fim de liderar a resistência contra a invasão da Alemanha nazista e contra o governo colaboracionista de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial.

Rui Barbosa

Outra comparação feita no texto refere-se ao jurista Rui Barbosa, afirmando que ele se exilou para enfrentar o poder do ex-presidente Marechal Floriano Peixoto.

Barbosa foi, na verdade, um dos articuladores da Proclamação da República no Brasil e combateu os abusos para defender o Estado Democrático de Direito e as instituições civis, sem jamais contestar o sistema eleitoral.

Ele esteve na linha de frente contra o autoritarismo da "República da Espada" (1889-1894), período em que o país foi governado por militares do Exército após a queda da Monarquia. O governo de Floriano Peixoto estendeu-se de 1891 a 1894.

José Martí

A carta cita ainda o líder cubano José Martí, mencionando que ele organizou a independência de Cuba enquanto estava em Nova York.

Martí, contudo, organizou no século XIX a revolução de independência de Cuba contra a metrópole da época, o Império Espanhol.

Dados eleitorais

Flávio Bolsonaro dirige-se na carta aos "60 milhões" de eleitores, número que não reflete a apuração oficial. Segundo os dados da Justiça Eleitoral, o candidato somou 59.826.041 votos (48,21%), enquanto Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 64,2 milhões de votos (51,79%).

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia obtido 56.104.503 votos (47,03% dos válidos).

Donald Trump

Flávio Bolsonaro classifica o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um "grande defensor da liberdade de expressão".

Antes de ser reeleito, no entanto, Trump foi formalmente acusado pelo Congresso norte-americano e pelo Departamento de Justiça por quatro crimes ligados à invasão do Capitólio, processo que não foi concluído formalmente antes de sua nova posse.

O episódio ficou marcado pela não aceitação do resultado das urnas por parte de Trump. O procurador Jack Smith apresentou denúncias formais no Departamento de Justiça (DOJ), em agosto de 2023, pela tentativa de reverter o pleito que elegeu Joe Biden. Ao retornar ao poder em 2025, Trump concedeu perdão presidencial a cerca de 1,5 mil acusados de participar do ataque.

Trump também é conhecido pelo histórico de embates com veículos de imprensa. O republicano chegou a proibir profissionais de emissoras como a CNN EUA de acessarem dependências da Casa Branca, sob a alegação de veicularem reportagens inverídicas. O ato levou redes de televisão a reestruturarem coberturas conjuntas no pool de imprensa, do qual participava também a Fox News.

Além de cancelar credenciais de jornalistas críticos, Trump tentou, por meio do uso de intimações do Departamento de Justiça, obter registros telefônicos de repórteres do The New York Times para identificar fontes de reportagens sobre a segurança do avião presidencial.

Investigação e citações

Além de criticar as instituições e associar ministros a uma "organização criminosa" e a atos de corrupção, Flávio omite a informação de que ele próprio já foi investigado a pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), em apurações sobre esquemas de "rachadinha" e lavagem de dinheiro no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). As apurações foram interrompidas após os inquéritos serem arquivados.

Mais recentemente, o senador tornou-se alvo de questionamentos sobre a sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, após a solicitação de recursos milionários para financiar um filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A Polícia Federal passou a buscar provas sobre o uso de fundos privados, investigando a estrutura do Haven Gate e a forma como os repasses eram efetuados por meio da empresa Entre Investimentos e Participações. As apurações buscam esclarecer se os valores, mediados pelo advogado Paulo Calixto, que atuou na defesa de imigração de Eduardo Bolsonaro, foram acessados pelo ex-deputado e irmão do senador.

Leia a carta na íntegra

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