Justiça

Assista ao vídeo de investigados por fraudes no INSS discutindo sobre esconder dinheiro

Gravações mostram empresários falando sobre “volta aos negócios” e os ganhos obtidos com associações investigadas pela PF

fraudes no INSS
As imagens foram feitas 29 dias depois da primeira fase da Operação Sem Desconto Foto: reprodução

Empresários investigados no esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foram gravados discutindo formas de proteger dinheiro e patrimônio e uma possível “volta aos negócios” depois de entrarem na mira da Polícia Federal.

As imagens, obtidas pelo Estadão, foram registradas em 22 de maio de 2025 por câmeras de segurança instaladas em um imóvel de Anderson Cordeiro Vasconcelos, em Alphaville, na Grande São Paulo.

A gravação ocorreu 29 dias depois da deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto, em 23 de abril daquele ano.

Ao longo de cerca de 30 minutos de vídeo, Anderson conversa com Igor Dias Delecrode, outro empresário posteriormente atingido pelas investigações.

Os dois são relacionados ao grupo apelidado de “Golden Boys”, formado por empresários ligados a quatro associações que realizaram descontos diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.

Em um dos trechos, Delecrode reclama dos efeitos de bloqueios judiciais sobre seus recursos e comenta que havia solicitado o resgate de aplicações.

“Vou pôr tudo em dólar digital, tudo, tudo”, afirma o empresário durante a conversa.

Em outro momento, ele comenta a rentabilidade dos negócios mantidos pelo grupo. “O que a gente ganhava nem multinacional ganha”, diz Delecrode.

As conversas também passam por imóveis, veículos, associações administradas pelos investigados e possibilidades de novos investimentos.

Anderson Cordeiro Vasconcelos, Igor Dias Delecrode, Felipe Macedo Gomes e Américo Monte Júnior são ligados à AASAP, Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e ANDAPP.

As quatro entidades são investigadas por cobranças realizadas diretamente nos pagamentos de beneficiários do INSS e movimentaram mais de R$ 700 milhões em mensalidades.

Grupo na mira da PF

Em maio de 2026, a PF e a Controladoria-Geral da União deflagraram uma nova fase da Operação Sem Desconto.

Foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão e oito medidas cautelares em São Paulo, Pernambuco, Paraíba e Distrito Federal. Igor Delecrode, Anderson Cordeiro e outros empresários ligados às entidades estavam entre os alvos.

O Brasilianista mostrou que essa etapa também buscava aprofundar suspeitas de ocultação patrimonial.

As apurações analisavam o uso de empresas e movimentações financeiras para esconder recursos que teriam origem nos descontos aplicados aos benefícios previdenciários.

O caso é parte de uma investigação mais ampla iniciada em abril de 2025. A Operação Sem Desconto apura cobranças de mensalidades associativas realizadas sem autorização válida de aposentados e pensionistas.

As investigações encontraram indícios de autorizações falsificadas, assinaturas contestadas pelos próprios beneficiários e gravações utilizadas para simular consentimento.

Algumas das entidades investigadas também não apresentavam estrutura compatível com os serviços que afirmavam oferecer aos associados.

Em julho, O Brasilianista revelou que a PF concluiu o primeiro inquérito da operação e indiciou 48 pessoas em uma das frentes da apuração.

Entre elas estavam ex-presidentes do INSS, antigos dirigentes, empresários e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

A investigação estimou que as irregularidades possam ter causado prejuízo superior a R$ 6 bilhões aos beneficiários.

Os advogados de Anderson, Igor e Felipe afirmaram que desconhecem “a existência, a autenticidade e a integridade” das gravações.

A defesa acrescentou que os bens dos clientes estão bloqueados e que eles permanecem à disposição das autoridades. Em relação às imagens, sustentou ainda que, caso existam, teriam sido obtidas de forma ilegal.

Empresários também citaram Onyx Lorenzoni

As gravações reveladas pelo Estadão acrescentam uma conexão política às conversas dos empresários.

Segundo o jornal, o ex-ministro do Trabalho e Previdência Onyx Lorenzoni foi citado quando os investigados falaram sobre a viabilização da Amar Brasil Clube de Benefícios, uma das entidades ligadas ao grupo.

A associação solicitou ao INSS, em março de 2022, um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) que permitiria descontos diretamente nos benefícios previdenciários.

Naquele momento, Onyx ainda comandava a pasta. O acordo foi firmado em agosto, quando ele já havia deixado o ministério.

Felipe Macedo Gomes, então presidente da Amar Brasil, fez uma contribuição de R$ 60 mil à campanha de Onyx ao governo do Rio Grande do Sul em 2022.

Em depoimento à CPMI do INSS, o ex-ministro confirmou o recebimento, afirmou que a contribuição seguiu a legislação eleitoral e disse não conhecer o empresário.

Onyx também negou conhecer Anderson Cordeiro, Igor Delecrode e Américo Monte, outros integrantes do grupo investigado.

O Brasilianista permanece aberto à manifestação de todas as pessoas e instituições citadas nesta reportagem. Os canais de comunicação do portal estão à disposição para esclarecimentos, posicionamentos, contestações ou informações adicionais.

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