O calendário eleitoral estabelece uma campanha oficial relativamente curta. Em 2026, a propaganda foi autorizada a partir de 16 de agosto, e o primeiro turno será realizado em 4 de outubro.
Na economia, porém, a eleição pode começar muito antes. Pesquisas, pré-candidaturas, definição de alianças, declarações sobre impostos, gastos públicos, privatizações e regulação ajudam empresas e investidores a construir expectativas sobre o governo seguinte meses antes da abertura formal das urnas.
Quando esse período se prolonga e a disputa permanece polarizada, decisões econômicas também podem entrar em compasso de espera.
Para Alessandra Cavalcante de Oliveira, professora de Economia da Universidade Anhembi Morumbi, o principal canal de transmissão desse ambiente é a incerteza.
Isso não significa que empresas simplesmente parem de investir durante uma eleição.
O efeito aparece principalmente sobre decisões que podem ser postergadas sem comprometer imediatamente a operação.
“Parte das empresas pode adiar decisões de investimento e de contratação até ter mais previsibilidade”, avalia a economista.
Esperar para investir
Construir uma fábrica, abrir uma unidade ou ampliar uma linha de produção exige apostar hoje em um cenário que pode levar anos para produzir retorno.
Antes de colocar dinheiro em um projeto, empresas procuram estimar fatores que dependem diretamente ou indiretamente das decisões do próximo governo.
“O empresário procura formar alguma expectativa sobre a demanda, o custo do crédito, os impostos, a taxa de câmbio e as regras que afetarão seu setor”, detalha a professora.
Quanto maior a diferença entre os programas econômicos apresentados pelos candidatos, mais difícil pode ser antecipar essas condições.
“Em uma eleição muito disputada, principalmente quando os candidatos apresentam propostas econômicas bastante diferentes, torna-se mais difícil antecipar esse ambiente”, observa Oliveira.
Nesse cenário, não investir imediatamente pode representar menos uma desistência do que uma tentativa de obter informação adicional.
“O adiamento não significa que a economia necessariamente vai parar durante o período eleitoral, mas algumas decisões que podem esperar acabam sendo postergadas até que o cenário fique mais claro”, pondera a especialista.
Emprego espera
Uma empresa que planejava aumentar sua produção provavelmente precisaria ampliar também o número de funcionários. Se o investimento principal é suspenso, parte dessas vagas pode demorar mais para aparecer.
“Se uma empresa estava planejando expandir sua produção, mas resolve esperar para realizar o investimento, provavelmente também adiará parte das novas contratações”, relaciona Oliveira.
O resultado eleitoral, sozinho, também não elimina toda a incerteza.
Empresas passam a observar a formação do governo, os nomes escolhidos para áreas econômicas e os primeiros sinais sobre temas como contas públicas, tributação e regulação.
“Depois da eleição, à medida que ficam mais claros a equipe econômica, as prioridades e os primeiros sinais da política fiscal, tributária e regulatória, parte dessas decisões pode ser retomada”, projeta a professora.
Pesquisas eleitorais
Uma nova pesquisa pode alterar a percepção sobre quem possui maior probabilidade de chegar ao governo. Investidores então tentam estimar quais políticas esse candidato adotaria e como elas afetariam empresas, contas públicas, inflação e crescimento.
“Quando uma pesquisa altera de maneira relevante a probabilidade de vitória de determinado candidato, investidores procuram antecipar quais políticas econômicas poderão ser adotadas pelo próximo governo”, contextualiza a economista.
Esse ajuste pode chegar ao dólar, à Bolsa e aos juros antes de qualquer mudança concreta na política econômica.
Mas nem toda pesquisa produz uma reação.
“O mercado não reage simplesmente porque um candidato subiu ou caiu nas pesquisas”, ressalva Oliveira.
O elemento decisivo é a diferença entre o resultado divulgado e aquilo que já estava incorporado às expectativas.
“Se uma pesquisa apenas confirma um cenário amplamente previsto, o efeito tende a ser pequeno, porque essa informação já estava incorporada aos preços”, esclarece a professora.
É a surpresa que costuma ampliar o movimento.
“Quanto maior a surpresa eleitoral, maior tende a ser a reação”, resume Oliveira.
Setores expostos
Os setores mais dependentes de decisões do Estado tendem a acompanhar as eleições com maior atenção.
“Os setores que costumam ser mais sensíveis são os regulados e de infraestrutura, como energia elétrica, petróleo e gás, saneamento, telecomunicações, rodovias e transportes”, enumera a especialista.
Nessas áreas, uma eleição pode resultar em mudanças que atingem diretamente contratos e projeções de longo prazo.
“São atividades nas quais decisões sobre tarifas, concessões, contratos, regras ambientais e investimentos públicos têm grande importância”, destaca Oliveira.
Empresas estatais ocupam uma posição ainda mais diretamente ligada à troca de governo.
Uma nova administração pode modificar comando, estratégia de investimento, política de preços e prioridades corporativas.
“A relação com a eleição é ainda mais direta, porque uma mudança de governo pode alterar a administração da empresa e suas estratégias”, assinala a professora.
Projetos longos
Construção civil, infraestrutura e segmentos industriais também ficam mais expostos porque dependem de grande volume de capital e prazos extensos.
“Imagine uma empresa decidindo hoje construir uma fábrica que começará a gerar retorno daqui a cinco ou dez anos”, exemplifica Oliveira.
Uma decisão dessa dimensão exige estimativas que ultrapassam o mandato seguinte.
“Ela precisa ter alguma confiança sobre juros, impostos, crescimento da economia e regras que estarão vigentes no futuro”, argumenta a economista.
Quando essa confiança diminui, esperar pode parecer financeiramente mais seguro.
“Se a eleição aumenta muito a incerteza, existe um incentivo maior para esperar”, adverte a professora.
Consumo adiado
O custo de uma campanha prolongada pode chegar também às famílias. Automóveis, imóveis, móveis e eletrodomésticos possuem uma característica em comum: são compras que normalmente podem ser adiadas.
“São compras que as famílias conseguem esperar e que muitas vezes dependem de financiamento”, lembra Oliveira.
Se o ambiente político vem acompanhado de piora na confiança, juros altos ou temor sobre a renda futura, parte dos consumidores pode decidir manter o dinheiro parado.
“O consumidor pode simplesmente decidir esperar”, sintetiza a especialista.
A lógica muda quando entram em cena produtos considerados essenciais.
“Uma família pode adiar a compra de um carro, mas dificilmente deixará de comprar alimentos ou medicamentos por causa da eleição”, compara Oliveira.
Mesmo esses setores, porém, podem sentir efeitos indiretos caso a turbulência política produza movimentos relevantes sobre câmbio, inflação, juros ou renda.
Custo mensurável
A incerteza política não aparece no Produto Interno Bruto (PIB) com uma etiqueta identificando quanto uma eleição custou. Isso não significa que o impacto não possa ser observado.
“Existe, sim, um custo econômico da incerteza e ele pode ser mensurado”, afirma a professora.
O efeito começa em decisões individuais. Uma companhia posterga máquinas. Outra adia uma unidade. Uma família deixa o imóvel para o ano seguinte. Outra espera para trocar o carro.
Quando o comportamento se espalha, os indicadores começam a registrar essa cautela.
“Quando muitas empresas e famílias fazem isso ao mesmo tempo, o efeito deixa de ser apenas uma percepção de insegurança e começa a aparecer nos indicadores de investimento, consumo, emprego e atividade econômica”, enfatiza Oliveira.
Quanto custa?
Determinar um valor exato para uma “eleição permanente”, contudo, é muito mais difícil.
A economia continua sendo afetada simultaneamente por juros, inflação, cenário externo, contas públicas, crédito, commodities e decisões de empresas e consumidores.
O próprio Banco Central tem destacado em 2026 um ambiente de incerteza e volatilidade também provocado por conflitos internacionais e pela política econômica de outras nações, o que impede atribuir movimentos domésticos exclusivamente ao calendário eleitoral.
“Dificilmente esse impacto pode ser isolado perfeitamente de tudo o que está acontecendo simultaneamente na economia”, reconhece a economista.
Mais importante do que a simples existência de incerteza é o período pelo qual ela permanece.
“O tamanho do impacto depende da intensidade e, sobretudo, da duração da incerteza”, conclui Oliveira.
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