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Justiça

Corrupção em São Paulo vira problema para campanha de Tarcísio

Ex-número 3 da Fazenda paulista foi preso sob suspeita de receber R$ 4,5 milhões em esquema que favorecia empresas na liberação de créditos de ICMS

Tarcísio de Freitas
André Weiss comandou a Diretoria Executiva da Administração Tributária até maio de 2026 Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A prisão de um ex-integrante da cúpula da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo acrescentou um novo problema à campanha de reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) prendeu nesta quinta-feira (3) André Weiss, ex-diretor-geral da Diretoria Executiva da Administração Tributária (Deat), considerado o número três da estrutura da Fazenda paulista até deixar o cargo, em maio deste ano.

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Weiss é investigado por suspeita de integrar uma organização criminosa que cobrava propina para interferir na análise, no ressarcimento e na liberação de créditos tributários de grandes empresas.

A nova ofensiva faz parte da Operação Ícaro, investigação sobre corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionada principalmente a procedimentos envolvendo o ICMS.

Também foi preso o advogado João André Buttini de Moraes, apontado pelo Ministério Público como uma das principais figuras do núcleo privado do esquema. A operação ainda cumpriu buscas em 47 endereços em São Paulo e Mato Grosso do Sul.

R$ 4,5 milhões

A inclusão de Weiss na investigação ganhou força a partir da colaboração premiada do auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como PP.

Segundo o relato apresentado aos investigadores, Buttini teria repassado aproximadamente R$ 13,6 milhões ao então delegado regional tributário entre 2021 e agosto de 2025.

Parte do dinheiro teria sido posteriormente distribuída a outros integrantes da estrutura.

Weiss teria recebido aproximadamente R$ 4,5 milhões em espécie, de acordo com a investigação.

Os pagamentos teriam ocorrido em parcelas e, segundo os investigadores, parte do dinheiro circulava fisicamente entre os envolvidos, inclusive em entregas realizadas com mochilas.

O Ministério Público apura agora se a atuação de Weiss foi além do suposto recebimento dos valores e envolveu decisões administrativas capazes de beneficiar empresas dentro da Secretaria da Fazenda.

Fura-fila fiscal

O mecanismo investigado funcionaria como uma espécie de fura-fila dos créditos de ICMS.

Empresas possuem direito, em determinadas situações, a pedir ao Estado a restituição de tributos ou o reconhecimento de créditos acumulados.

Esses procedimentos podem envolver grandes valores e permanecer durante longos períodos em análise administrativa.

Segundo o MPSP, integrantes do esquema cobrariam das empresas para acelerar, destravar ou favorecer esses processos.

Buttini, na hipótese dos investigadores, captava clientes privados, negociava honorários e organizava os valores que seriam destinados ao núcleo formado por servidores públicos.

O grupo chegaria a cobrar propinas correspondentes a até 10% do valor dos créditos liberados, segundo informações da investigação.

Áudio gravado

Outro elemento usado pelo Ministério Público é a gravação de uma reunião realizada em julho de 2023 entre integrantes da administração tributária.

O arquivo foi encontrado no celular do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, um dos principais personagens investigados pela Operação Ícaro, e posteriormente submetido a perícia.

Na conversa, Weiss teria utilizado a palavra “rateio” ao discutir valores relacionados aos procedimentos tributários e participado de conversas sobre maneiras de justificar dinheiro em espécie.

Em outro momento, o então servidor teria mencionado a possibilidade de adquirir uma sauna como forma de criar uma atividade capaz de explicar a circulação de recursos em dinheiro vivo, segundo a interpretação apresentada pelo Ministério Público.

As declarações integram o conjunto de elementos reunidos pelos investigadores e ainda serão submetidas ao contraditório das defesas.

Cúpula da Fazenda

O peso político do episódio está relacionado à posição ocupada por Weiss.

Ele passou por diferentes funções dentro da administração tributária paulista, incluindo os cargos de delegado regional tributário, diretor de fiscalização e coordenador da fiscalização.

Em novembro de 2023, já durante o governo Tarcísio, chegou ao comando da Diretoria Executiva da Administração Tributária, uma das principais posições da Secretaria da Fazenda. Permaneceu na função até maio de 2026.

A investigação aponta pagamentos suspeitos entre 2021 e agosto de 2025, período que começa antes da atual administração estadual, mas avança por mais de dois anos do governo Tarcísio.

Esse recorte é importante porque as suspeitas não nasceram exclusivamente durante a atual gestão, embora parte dos fatos investigados tenha ocorrido enquanto Weiss ocupava posições de comando na estrutura estadual.

Problema eleitoral

A prisão ocorre a pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições e atinge diretamente uma área central da administração de Tarcísio.

O governador disputa a reeleição em São Paulo e lidera atualmente os cenários eleitorais testados no estado.

Pesquisa Atlas/Estadão divulgada nesta quinta-feira mostra Tarcísio à frente tanto nas simulações de primeiro quanto de segundo turno.

O caso, porém, fornece aos adversários um episódio de corrupção envolvendo um servidor que permaneceu até poucos meses atrás entre os principais responsáveis pela administração tributária paulista.

Até o momento, não há indicação de que Tarcísio tenha participado das irregularidades investigadas ou tivesse conhecimento dos pagamentos atribuídos a Weiss.

O impacto sobre sua campanha decorre da posição ocupada pelo ex-dirigente dentro do governo e do fato de parte das condutas sob investigação ter ocorrido durante a atual gestão.

Operação Ícaro

A prisão de Weiss é um novo desdobramento de uma investigação que já havia atingido servidores públicos, empresários e grandes companhias.

A Operação Ícaro foi deflagrada originalmente em agosto de 2025 e passou a investigar uma estrutura montada para interferir em procedimentos tributários dentro da Fazenda paulista.

Entre as empresas citadas em diferentes fases estão Ultrafarma e Fast Shop, além de outras companhias do varejo que tiveram processos fiscais analisados pelos investigadores.

A apuração já alcança aproximadamente 40 auditores fiscais, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira.

O Ministério Público divide a organização investigada em dois grandes grupos: um núcleo privado, composto por advogados e operadores responsáveis por captar empresas e organizar pagamentos, e um núcleo público, formado por servidores capazes de interferir nos processos administrativos.

Weiss é apontado pelos investigadores como uma das figuras de comando desse segundo núcleo.

Resposta do governo

A Secretaria da Fazenda afirma colaborar com o Ministério Público e informou que medidas administrativas vêm sendo adotadas desde que as suspeitas começaram a ser identificadas.

A pasta já afastou e puniu servidores relacionados às diferentes frentes da investigação e afirma ter aplicado penalidades fiscais que ultrapassam R$ 3 bilhões às empresas alcançadas pelos procedimentos internos.

As medidas administrativas, entretanto, não encerram a apuração criminal sobre a atuação dos agentes públicos.

A investigação tenta agora identificar a dimensão completa dos pagamentos, quais procedimentos foram manipulados, quais empresas receberam tratamento indevido e quanto dinheiro efetivamente circulou entre o núcleo privado e servidores da Fazenda.

A prisão de Weiss é cautelar e não representa condenação. As suspeitas ainda dependem do avanço das investigações e, eventualmente, de denúncia e julgamento pelo Judiciário.

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