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Geopolítica

Saiba quem foi Ratko Mladić, genocida conhecido como o “Açougueiro da Bósnia”

Comandante sérvio-bósnio morreu nesta quinta-feira (27), aos 83 anos

Ratko Mladic
Forças comandadas por Mladic participaram do cerco de Sarajevo Foto: creative commons

Ratko Mladic, ex-general sérvio-bósnio e ex-comandante do Exército da República Sérvia da Bósnia, morreu nesta quinta-feira (27), aos 83 anos, enquanto estava sob custódia em Haia.

Responsabilizado pelo assassinato de cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos em Srebrenica, em 1995, ele havia sido capturado em maio de 2011, depois de permanecer quase 16 anos foragido. 

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A morte foi anunciada pela mídia estatal sérvia, enquanto Mladic cumpria prisão perpétua por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

De oficial iugoslavo a comandante sérvio-bósnio

Nascido em 12 de março de 1943, na aldeia de Bozanovici, Ratko Mladic cresceu em uma região marcada pelos conflitos da Segunda Guerra Mundial.

O pai, Neda Mladic, integrava a resistência partidária comunista e morreu quando o filho ainda era criança, enquanto sua mãe criou sozinha Ratko e os outros dois filhos da família.

Mladic trabalhou como metalúrgico na juventude antes de seguir carreira militar e ingressar no Exército Popular Iugoslavo.

Durante as décadas seguintes, avançou na hierarquia das Forças Armadas e passou a ocupar posições de comando em um período no qual a Iugoslávia ainda reunia diferentes grupos étnicos, religiosos e nacionais sob o mesmo Estado.

A situação mudou durante a fragmentação da Iugoslávia no início da década de 1990.

Slobodan Milosevic, então presidente nacionalista da Sérvia, defendia a ampliação do território controlado pelos sérvios, enquanto Mladic assumiu o comando militar das forças sérvio-bósnias e Radovan Karadzic exercia a principal liderança política dos sérvios da Bósnia.

Srebrenica concentrou a principal condenação

A Guerra da Bósnia ocorreu entre 1992 e 1995 e deixou cerca de 100 mil mortos, além de provocar o deslocamento de milhões de pessoas.

Mladic respondeu a 11 acusações relacionadas a genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra e foi considerado culpado em dez delas pelo tribunal internacional responsável pelos processos relativos ao conflito.

O episódio central de sua condenação ocorreu em julho de 1995, quando forças sérvio-bósnias tomaram Srebrenica, cidade que havia sido declarada área protegida pelas Nações Unidas (ONU).

Cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios foram separados de mulheres e crianças, levados para diferentes locais e executados pelas tropas.

Depois dos assassinatos, corpos foram enterrados em valas comuns e parte dos restos mortais foi posteriormente retirada e transferida para outros pontos.

A movimentação dificultou a identificação das vítimas e integrou os elementos analisados pelas investigações internacionais sobre a tentativa de ocultar provas dos crimes cometidos na região.

Sarajevo ficou quase quatro anos sob cerco

Mladic também foi responsabilizado por crimes relacionados ao cerco de Sarajevo, iniciado em 1992 depois da declaração de independência da Bósnia-Herzegovina.

Durante quase quatro anos, posições sérvio-bósnias instaladas nas montanhas ao redor da capital bombardearam áreas urbanas e utilizaram franco-atiradores contra pessoas que circulavam pela cidade.

Milhares de civis morreram durante o período, incluindo crianças, enquanto moradores precisavam atravessar ruas expostas aos disparos para realizar atividades cotidianas.

O cerco tornou Sarajevo um dos principais símbolos da Guerra da Bósnia e integrou o conjunto de crimes analisados no processo internacional contra o antigo comandante militar.

Décadas depois, surgiram novas investigações sobre um episódio conhecido como “Sarajevo Safari” ou “turismo de franco-atiradores”.

Promotores italianos apuram alegações de que italianos ricos e outros estrangeiros pagavam integrantes das forças sérvio-bósnias para acessar posições nas montanhas e atirar contra civis durante o cerco.

A investigação teve origem em uma denúncia apresentada pelo jornalista Ezio Gavazzeni e ganhou repercussão depois do documentário Sarajevo Safari, de 2022.

As acusações tratam a participação de integrantes da elite econômica europeia e de outros estrangeiros como uma hipótese sob investigação, e não como fato judicialmente comprovado.

Julgamento terminou com prisão perpétua

O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) havia denunciado Mladic em 1995 por genocídio e crimes de guerra relacionados a Srebrenica e Sarajevo.

Apesar da acusação internacional, ele permaneceu durante anos protegido por uma rede de aliados e chegou a circular publicamente na Sérvia antes de passar definitivamente à clandestinidade.

A situação mudou depois da queda de Milosevic do poder, em 2000, e do aumento da pressão internacional sobre o governo sérvio.

A captura de Mladic passou a ser tratada como um dos obstáculos políticos nas negociações de aproximação da Sérvia com a União Europeia, enquanto autoridades continuavam procurando o antigo comandante.

Ele foi localizado em 26 de maio de 2011 na casa de um primo, em uma área rural ao norte de Belgrado, encerrando quase 16 anos de fuga.

Mladic foi posteriormente transferido para Haia, onde passou a responder formalmente às acusações relacionadas às operações conduzidas pelas forças sérvio-bósnias durante a guerra.

Condenação foi mantida após recurso

O julgamento terminou em 2017 com a condenação de Mladic à prisão perpétua por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Entre os crimes considerados pelo tribunal estavam as execuções em Srebrenica, a perseguição de populações não sérvias e as operações realizadas durante o cerco de Sarajevo.

Mladic rejeitou as acusações durante o processo e teve confrontos com magistrados em diferentes sessões.

A defesa apresentou recurso contra a sentença, mas a condenação foi mantida em 2021, encerrando a principal etapa judicial do processo e confirmando a pena de prisão perpétua.

Nos últimos anos, familiares e autoridades sérvias solicitaram sua libertação por razões humanitárias em razão do agravamento de seus problemas de saúde, mas os pedidos não foram aceitos.

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