Duas das tradicionais varejistas brasileiras chegaram ao mesmo ponto por caminhos diferentes. Casas Bahia e Marabraz recorreram à recuperação judicial, em meio a dificuldades de caixa, restrição de crédito e problemas específicos de cada negócio.
Enquanto a Casas Bahia enfrentou uma deterioração operacional que culminou em milhares de demissões e no fechamento de centenas de lojas, a Marabraz teve a estrutura de financiamento afetada por uma longa disputa societária dentro da família controladora.
Os pedidos ocorreram praticamente ao mesmo tempo e expuseram a pressão que o varejo enfrenta diante de juros elevados, consumo mais fraco e maior cautela dos credores.
No caso da Casas Bahia, a empresa busca reorganizar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Já a Marabraz entrou na Justiça com um passivo de aproximadamente R$ 140 milhões.
Casas Bahia chegou à recuperação após tentativa frustrada de financiamento
Nos bastidores, a decisão da Casas Bahia foi tomada em poucos dias. A companhia começou a estruturar a estratégia na terça-feira, dia 11, depois que uma tentativa de obter um empréstimo-ponte com bancos não avançou.
A varejista buscava uma operação de aproximadamente R$ 1 bilhão para reforçar o capital de giro. Antes disso, uma captação internacional negociada com o UBS também havia fracassado. A operação tinha um investidor âncora, mas perdeu viabilidade diante da piora das condições do mercado global.
Com menos alternativas de financiamento, a companhia passou a negociar prazos maiores com fornecedores e trabalhava com estoques abaixo da média do setor.
Ao mesmo tempo, os bancos exigiam garantias adicionais para liberar novos recursos, o que dificultou ainda mais a obtenção de liquidez.
O cenário também envolvia cerca de R$ 2 bilhões em depósitos judiciais. Desse total, a companhia pediu à Justiça a liberação imediata de aproximadamente R$ 750 milhões referentes a depósitos recursais de processos trabalhistas. A expectativa era utilizar esses recursos para aliviar a pressão sobre o caixa.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões agravou a pressão sobre a varejista
A situação financeira ficou ainda mais delicada após a Casas Bahia registrar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026.
O resultado foi fortemente influenciado por efeitos contábeis não recorrentes de R$ 9,1 bilhões, que não representaram saída de caixa no período.
Sem esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões. Entre os principais impactos esteve uma baixa de R$ 5,7 bilhões relacionada a impostos diferidos.
Além disso, as despesas com vendas cresceram 17%, chegando a R$ 1,8 bilhão, enquanto a receita líquida avançou 1,6%, para quase R$ 7 bilhões.
A empresa vinha tentando reorganizar as contas desde 2023. Entretanto, a combinação entre crédito mais restritivo, juros elevados, consumo enfraquecido e o fracasso da captação internacional acelerou a necessidade de novas medidas.
Por isso, a recuperação judicial veio acompanhada de uma ampla redução da estrutura. A Casas Bahia informou o fechamento de 298 lojas, cerca de 30% de seu parque, além da demissão de aproximadamente 3 mil funcionários, o equivalente a 9,9% da força de trabalho registrada no documento apresentado à Justiça.
Cortes atingem trabalhadores e provocam reação sindical
As demissões também abriram uma nova frente de tensão. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo informou que pretende recorrer à Justiça para tentar anular a demissão em massa de cerca de 2 mil trabalhadores inicialmente desligados. A entidade sustenta que a Constituição exige negociação prévia com sindicatos nesse tipo de situação.
O sindicato também afirmou que não recebeu comunicação prévia sobre os cortes. A entidade pretende negociar alternativas, benefícios adicionais e a situação de trabalhadores considerados mais vulneráveis, incluindo gestantes.
Casas Bahia já trabalha com cenário mais difícil em 2027
A direção da companhia também não espera uma melhora rápida do ambiente econômico. Em entrevista a analistas, Renato Horta Franklin, CEO (diretor-presidente) do Grupo Casas Bahia afirmou que a empresa trabalha com uma perspectiva mais negativa para 2027. “Consideramos que 2027 será pior que 2026”, disse Franklin.
Segundo o executivo, o endividamento deve continuar pressionando o consumidor, enquanto algumas medidas que sustentaram o consumo neste ano podem gerar novos passivos no futuro. A empresa, por isso, decidiu concentrar os fechamentos em uma única etapa.
A estratégia prevê ainda uma mudança no comércio digital. Franklin afirmou que a Casas Bahia pretende priorizar margens de lucro e reduzir vendas que não sejam rentáveis. Nesse contexto, os marketplaces devem funcionar como parte da estratégia de ajuste da operação online.
Marabraz chegou à Justiça por uma crise diferente
Na Marabraz, a origem da crise apresenta outra característica. A empresa também sofreu com juros elevados, retração do consumo e aumento da inadimplência.
No entanto, a disputa societária dentro da família controladora teve papel central na deterioração financeira.
Como mostrou O Brasilianista, durante décadas, a varejista contou com uma estrutura patrimonial que utilizava imóveis da família Fares como garantia para operações de crédito.
Embora esses imóveis não fizessem parte diretamente do patrimônio da Marabraz, eles ajudavam a sustentar financiamentos contratados pela empresa.
O problema surgiu quando a disputa pelo controle da LP Administradora de Bens, holding que concentra parte do patrimônio imobiliário da família, alterou essa estrutura.
Com a ruptura entre os integrantes da família, os administradores da Marabraz deixaram de controlar sociedades que possuíam os imóveis utilizados historicamente como garantias.
Como consequência, os bancos passaram a exigir novas garantias, reduzir limites e aumentar o custo das operações. Em alguns casos, as instituições deixaram de renovar linhas importantes para o capital de giro.
A batalha entre os Fares afetou a estrutura financeira
A disputa remonta a 2011, quando os irmãos Jamel, Nasser e Adiel Fares transferiram suas cotas da LP Administradora para os respectivos filhos.
Nasser passou sua participação para a filha única, Najla Fares. Jamel transferiu sua parte para os filhos Karine, Abdul e Sumaya. Já Adiel destinou sua participação aos filhos Nader e Raquel.
Anos depois, Nasser e Jamel passaram a contestar a transferência e tentaram recuperar o controle da holding. Segundo a documentação apresentada no processo, eles sustentam que a operação ocorreu sem pagamento e teria relação com uma estratégia de proteção patrimonial diante de um passivo fiscal.
A disputa acabou atingindo diretamente a estrutura de crédito da Marabraz. Recursos que anteriormente eram reinvestidos na compra de imóveis deixaram de cumprir essa função, reduzindo a base de ativos que dava segurança às instituições financeiras.
A empresa passou, então, a precisar de mais capital de giro justamente quando encontrava maior dificuldade para conseguir crédito.
O resultado foi um ciclo de deterioração financeira, menos garantias reduziram o acesso a recursos, a falta de liquidez aumentou o risco percebido pelos bancos e o risco maior tornou o crédito ainda mais caro e restrito.
Duas recuperações, problemas diferentes e um mesmo desafio
Apesar de chegarem à recuperação judicial por motivos distintos, Casas Bahia e Marabraz enfrentam um problema comum, precisam reorganizar suas finanças em um ambiente no qual o crédito ficou mais difícil e caro.
Na Casas Bahia, a crise combina prejuízo bilionário, queda de liquidez, fracasso de captação, fechamento de lojas e demissões. Já na Marabraz, a ruptura societária e familiar comprometeu uma estrutura de garantias que sustentava o financiamento da operação há anos.
Os casos também mostram que a recuperação judicial não representa apenas uma negociação entre empresa e bancos. Na Casas Bahia, a medida já produz efeitos sobre trabalhadores, fornecedores e parceiros comerciais.
A companhia informou à Justiça que contratos com fornecedores e instituições financeiras possuem cláusulas que poderiam antecipar o vencimento de dívidas.
Hisense Gorenje do Brasil, Lenovo, FIDC Bio-Stars e o fundo imobiliário FII-RL HSI Logística já haviam enviado notificações relacionadas ao vencimento antecipado de obrigações.
Além disso, contratos com cláusulas de inadimplência cruzada poderiam tornar exigíveis mais de R$ 10 bilhões em obrigações.
Esse mecanismo poderia pressionar ainda mais o caixa. A própria Casas Bahia alertou no pedido judicial que a exigência imediata desses valores teria potencial para comprometer parcela relevante do fluxo mensal de entradas da companhia.
Agora, as duas empresas precisam apresentar seus planos e negociar com credores para tentar preservar as operações. No caso da Casas Bahia, o grupo terá 60 dias para apresentar uma versão do plano, enquanto fornecedores e seguradoras de crédito terão papel importante na aprovação.

