O mundo está mudando, ou como Rafael Moredo, internacionalista e Coordenador de Políticas Públicas do Livres, explica, ele tem retornado ao “fluxo normal”. Isso porque os Estados Unidos, nos últimos anos estabelecido como praticamente uma hegemonia global, vem perdendo a influência em diversas regiões.
Isso não é um movimento à toa e tampouco significa, na prática, uma derrota norte-americana, mas trata-se de uma mudança de mindset, assim como de foco, diante de um cenário que traz novos desafios e exige definir prioridades.
Pensando nisso, o especialista conversou com exclusividade ao O Brasilianista a fim de responder as principais dúvidas sobre o assunto e entender como essa reconfiguração afeta tanto a geopolítica quanto o Brasil.
Quem serão as potências dominantes diante do fim da hegemonia norte-americana, e qual a zona de influência de cada uma?
Os Estados Unidos exerceram por muito tempo esse papel de polícia global, em um mundo que era classificado como unipolar, ou seja, uma potência apenas. Só que se você pegar a história da humanidade aí dos tempos contemporâneos, isso acaba sendo uma anomalia. Na maior parte do tempo, nós tivemos múltiplas potências do mundo.
Somente nesse período depois do colapso da União Soviética, final dos anos 80/começo dos anos 90, até mais ou menos ali 2008, em que vivemos em um mundo unipolar, tendo os Estados Unidos praticamente como hegemonia.
Por isso, agora não é bem um colapso americano, é mais uma reconfiguração para algo parecido com o que a gente tinha antes da Guerra Fria, com múltiplas grandes potências, cada uma com a sua esfera de influência.
Observa-se, hoje, três grandes pólos consolidados:
– Estados Unidos, que vai exercendo essa sua influência na região do continente americano;
– China, que vem crescendo e exercendo sua influência na região da Ásia e Pacífico;
– Rússia, que está passando por uma tentativa de reconsolidação, com foco no leste europeu.
O que explica esse movimento de regionalização do poder? Por que os EUA estão redefinindo suas prioridades estratégicas?
Existe essa parte natural de um pouco do que foi a história, como mencionei, mas também tem a coisa de que para o americano manter esse papel ali de única potência estava sendo muito custoso, tanto eleitoral quanto financeiramente.
É caro estar em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo, vigiando tudo o que acontece, exercendo mesmo esse papel de polícia global. Então, a própria população americana ficou cansada de ver situações como o que aconteceu no Iraque e no Afeganistão, gerou um trauma.
Outro ponto que influenciou foi a ascensão de rivais, como a China, o que tornou mais caro manter essa essa ordem global, principalmente depois da crise econômica de 2008.
Depois do episódio de 11 de setembro, a preocupação com segurança interna também aumentou. Hoje, há maior foco na proteção de fronteiras e na questão da imigração, deixando um pouco de lado essa presença firme internacional, como era visto no passado.
O que esperar do maior foco dos EUA nas Américas? Quais devem ser os impactos?
Na América Latina, especialmente no Brasil, a gente tem um lado muito bom e um lado mais negativo.
Essa atenção americana é uma oportunidade, porque isso pode acabar virando mais investimentos, mais acordos comerciais aqui dentro da região e também uma pressão que os Estados Unidos exerce por reformas institucionais dos países latino-americanos,em prol de reformar as instituições, de ter instituições mais sólidas.
Mas do outro lado, esse esse excesso de atenção aqui acaba dificultando alinhamentos do Brasil e de outros países latino-americanos com outras potências, como a China e a Rússia, já que os Estados Unidos ficam mais recosos e menos tolerantes a outras interferências.
Assim, por um lado pode ser benéfico, mas por outro existe um risco. O Brasil precisa manter essa autonomia estratégica, sem pagar esse preço diplomático da disputa entre EUA e China.
Pode acontecer no Brasil o que aconteceu na Venezuela?
Quando a gente fala de Donald Trump, é sempre uma incógnita. Mas eu não vejo isso acontecer, porque a situação da Venezuela é bastante diferente.
Maduro fez diversas provocações, tinha a questão do petróleo. O Brasil surge como a principal esfera de influência dentro da América do Sul, cultiva boas relações históricas, tem acordos comerciais com os EUA, além de uma aproximação com a China, dificultando uma intervenção. A União Europeia também repudiaria.
O que se espera com esse maior foco da China na Ásia? Quais devem ser os impactos?
A China sempre teve a Ásia como prioridade, mas tem buscando crescer e influenciar mais locais no mundo. Para eles, o principal foco é Taiwan, onde há uma disputa histórica desde a revolução comunista.
Mas também acho que uma intervenção militar da China em Taiwan seria bem custosa no momento. O que a China tenta fazer é impedir que os americanos tomem conta de lá.
Além disso, há um interesse dos chineses no mar do sul da China/sudeste asiático, região estratégica de alto fluxo, onde reivindicam influência em vários territórios, o que engloba disputas com Vietnã, Filipinas e Malásia.
Se a China resolver, de fato, focar mais na Ásia, ela pode parar de priorizar outras regiões como a América Latina e África, abrindo mão de investir tanto assim em obras de infraestrutura, mas acredito que na parte comercial eles vão continuar comprando produtos brasileiros. Existe uma dependência de alguns deles, como carne, não acho que vão nos abandonar assim.
O que se espera com esse maior foco da Rússia no leste europeu? Quais devem ser os impactos?
A Rússia é meio superestimada nesse novo arranjo. Ela tem capacidade nuclear, isso é fato, tem grandes recursos energéticos, mas o principal motivo para estar nessa lista é o peso histórico, em ter sido a potência da União Soviética durante toda a Guerra Fria.
A Rússia tem uma base econômica muito frágil, uma indústria que está sobrecarregada, principalmente agora com as sanções econômicas do resto do mundo, além das consequências da guerra na Ucrânia, que também expôs limitações militares estratégicas.
O maior impacto é visto na Europa, onde países que viviam sob proteção da OTAN se viram obrigados a gastar mais em defesa e reduzir a sua dependência energética da Rússia.
Assim, é uma incógnita também o que vai acontecer na situação da Rússia. Hoje, a gente vê as principais potências mesmo sendo os Estados Unidos e a China.
A União Europeia está perdendo espaço nessa disputa entre gigantes? Por que isso acontece? Qual a dificuldade do bloco em transformar seu peso econômico em “poder”?
A União Europeia é muito peculiar, porque engloba 27 países, cada um deles com seus interesses. Então, por mais que a UE atue como um governo único, cada um desses 27 países tem um governo, muitas vezes partido diferentes, objetivos diferentes, culturas e histórias diferentes.
A maioria dos órgãos da União Europeia exigem ampla maioria ou unanimidade dos países, o que torna muito difícil concordar em uma agenda política externa comum. Isso cria uma dificuldade em agir.
Porém, para outras medidas mais simples, a União Europeia é exemplo e consegue aprovar no Parlamento regulamentações que exigem uma maioria simples do Parlamento. O grupo é referência em modelos que acabam sendo replicados por outros países.
Portanto, a União Europeia acaba sendo muito boa nessa expansão da sua influência regulatória, principalmente, mas não muito boa em respostas rápidas às crises geopolíticas.
Estamos caminhando para um mundo dividido em grandes zonas de influência? Quais serão elas?
Sim, tudo indica que estamos caminhando para esse mundo, com algumas ressalvas, já que o cenário é diferente daquele na Guerra Fria.
Hoje o mundo está muito mais integrado, principalmente com as redes sociais, inteligência artificial… A gente depende muito mais uns dos outros, então, as potências vão exercer as suas influências, mas não igual na época da Guerra Fria, onde havia completamente um rompimento com o outro lado.
É o caso do Brasil, em que dialogamos ao mesmo tempo com os Estados Unidos e a China, sendo influenciado pelos dois. O que a gente deve observar é que os países menores e emergentes devem ter uma ordem de prioridade de influência preferencial que cada potência vai exercer.
Na América Latina muito provavelmente vai ter os Estados Unidos como o primeiro influenciador, aí na sequência a China. Isso deve se repetir em vários países.
As grandes zonas de influência devem ser as que já mencionei: EUA na América; China na Ásia e Rússia no leste europeu.
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