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Economia

Entenda o que levou a Marabraz a pedir recuperação judicial

Varejista de móveis e eletrodomésticos atribui dificuldades aos juros elevados e a disputas familiares

Entenda o que levou a Marabraz a pedir recuperação judicial

O Grupo Marabraz protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo com aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas, em mais um caso de deterioração financeira entre empresas do varejo brasileiro.

A solicitação foi apresentada em caráter de urgência à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Como mostrou O Brasilianista o pedido ocorreu no mesmo fim de semana em que a Casas Bahia também recorreu à Justiça para reorganizar seu passivo.

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Segundo a petição, a crise da Marabraz resulta da combinação entre juros elevados, retração do consumo e disputas societárias e familiares.

A companhia afirma que os conflitos afetaram a estrutura de garantias utilizada historicamente pela família para captar recursos no mercado financeiro, principalmente imóveis.

Com a redução dessas garantias, o grupo passou a enfrentar dificuldades para renovar linhas de crédito e contratar novos financiamentos.

Ao mesmo tempo, a queda no consumo e o aumento da inadimplência pressionaram ainda mais uma operação dependente de crédito e capital de giro.

Como a Marabraz cresceu e chegou à crise?

A história da Marabraz começou em 1952, quando o imigrante libanês Abdul Fares iniciou um negócio como mascate em São Paulo. Vinte anos depois, em 1972, ele abriu a primeira loja física da família, chamada Credi-Fares.

Após a morte de Abdul Fares, em 1986, os familiares deram ao negócio o nome Marabraz. A rede passou então por um período de expansão e chegou a ter 135 lojas distribuídas pela Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e interior do Estado.

O crescimento da empresa, entretanto, ocorreu paralelamente a disputas dentro da família. Com o passar dos anos, os conflitos deixaram de envolver apenas a gestão do negócio e chegaram ao patrimônio imobiliário utilizado pelo grupo como garantia para operações financeiras.

Segundo a petição apresentada à Justiça, disputas entre integrantes da família afetaram o controle de sociedades que concentravam esses imóveis.

Como consequência, a Marabraz perdeu parte das garantias que utilizava para obter crédito e passou a enfrentar dificuldades para renovar financiamentos.

A situação financeira se agravou com fatores externos ao conflito familiar. Juros elevados, retração do consumo, aumento da inadimplência e maior dificuldade de acesso ao crédito pressionaram o caixa da companhia e contribuíram para o pedido de recuperação judicial.

Entenda quem é quem na família Fares

A disputa familiar envolve diferentes gerações e núcleos da família que construiu a Marabraz. Nasser Fares e Jamel Fares pertencem à geração ligada aos antigos controladores da empresa, enquanto seus filhos aparecem entre os herdeiros envolvidos nas disputas mais recentes.

Abdul Fares, filho de Jamel Fares, faz parte da geração seguinte da família. Em 2024, ele entrou em conflito judicial com o próprio pai.

Najla Fares, filha de Nasser Fares, aparece em outro conflito. Em 2025, ela apresentou denúncias contra o próprio pai por supostas violências psicológicas, patrimoniais e morais e pediu uma medida protetiva.

Os relatos incluem alegações de monitoramento, instalação de câmeras em um apartamento e uso de um rastreador em seu veículo.

As denúncias de Najla passaram a ser apuradas em um inquérito policial. Em fevereiro de 2025, a Justiça concedeu a medida protetiva solicitada pela filha. Nasser negou as acusações e classificou os relatos como “mentirosos e oportunistas”.

Disputa pelo patrimônio coloca pais e herdeiros em lados opostos

Além dos conflitos individuais, existe uma disputa societária envolvendo a LP Administradora de Bens, holding que reúne parte relevante do patrimônio imobiliário da família Fares.

Em 2011, as cotas da holding foram transferidas para filhos e demais descendentes dos integrantes da família. Anos depois, Nasser e Jamel passaram a questionar a operação e entraram na Justiça para tentar recuperar o controle da empresa.

Os dois alegam que a transferência teria funcionado como uma forma de blindagem patrimonial diante de um passivo fiscal. A disputa é relevante para a crise da Marabraz porque os imóveis administrados pela holding estavam entre os ativos utilizados historicamente como garantia para obtenção de crédito.

O processo também envolve acusações sobre a utilização do patrimônio familiar. Os advogados de Nasser afirmam que seis herdeiros gastaram R$ 78,8 milhões em despesas pessoais em menos de três anos.

A defesa dos herdeiros contesta essa versão e sustenta que a holding continua sendo administrada de forma adequada. Os representantes também argumentam que o padrão de vida dos descendentes é compatível com o patrimônio da família.

As dificuldades da Marabraz também passaram a aparecer na relação da empresa com trabalhadores e fornecedores. No fim de 2025, comerciários realizaram uma manifestação no centro de distribuição da rede por causa de atrasos no pagamento de salários.

Marabraz entra na lista de empresas que buscam reestruturar dívidas

O pedido ocorre em um momento de maior pressão sobre empresas brasileiras. Segundo dados citados pelo O Brasilianista, foram registrados 194 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, conforme levantamento da Serasa Experian.

A recuperação judicial permite que empresas em crise negociem suas dívidas sob supervisão da Justiça e apresentem um plano aos credores. O mecanismo busca preservar a atividade econômica e evitar que uma dificuldade financeira evolua diretamente para a falência.

A Marabraz passa a integrar esse cenário ao lado de companhias que adotaram diferentes estratégias para reorganizar seus passivos.

A Casas Bahia, por exemplo, protocolou no domingo (16) um pedido de recuperação judicial depois de registrar R$ 10,1 bilhões de prejuízo contábil no segundo trimestre e acumular R$ 17,322 bilhões em créditos sujeitos ao processo.

Além disso, outras empresas recorreram à recuperação extrajudicial, como a Raízen, que busca renegociar suas obrigações sem seguir inicialmente o mesmo procedimento judicial. A diferença está na forma de negociação e no grau de participação da Justiça em cada modalidade.

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