O apoio de parcela da população às operações policiais no Rio de Janeiro revela um paradoxo perverso: a falência da segurança pública cotidiana empurra o Estado para operações espetaculares e episódicas, enquanto a sociedade, exausta pelo medo, passa a aceitar a violência extrema como substituto para a ausência de políticas permanentes de proteção.
Não se trata de sadismo popular, mas de desespero institucionalizado. Quando o Estado abandona a presença diária em territórios inteiros — deixando milhões sob o jugo de facções e milícias —, as “expedições” policiais ocasionais tornam-se o único momento em que a população vislumbra alguma ação governamental. É a síndrome do Estado ausente-presente: invisível no cotidiano, espetacular na exceção.
A naturalização de mortes em operações — sejam 20, 50 ou 100 — sinaliza a erosão perigosa do pacto civilizatório. Pesquisas do Datafolha e do Instituto Sou da Paz mostram que 50% dos brasileiros apoiam a máxima “bandido bom é bandido morto” — reflexo direto da sensação de abandono pelo poder público. Quando a justiça não funciona, a vingança ganha legitimidade social. Quando a proteção diária inexiste, o confronto armado vira espetáculo de eficiência.
O Estado brasileiro opera em ciclo autodestrutivo: ausente na prevenção, falho na investigação, moroso na justiça, opta por operações de força que geram mortes, trauma coletivo e ocupação temporária. Dias depois, o vazio é reocupado pelo crime. Dados do ISP-RJ mostram que 73% dos territórios “pacificados” em operações anteriores voltaram ao controle do tráfico em menos de seis meses. É o Estado Sísifo: condenado a repetir eternamente o mesmo esforço inútil.
A facção moderna adiciona elemento perturbador: a pedagogia do terror. Vídeos de tortura, execuções transmitidas, corpos expostos — o crime organizado descobriu que a crueldade performática é tão lucrativa quanto o tráfico. É o narcoterrorismo tropical: menos ideologia, mais espetáculo; menos política, mais dominação pelo medo.
O resultado é um país partido em três: elites blindadas em seus enclaves; população refém nos territórios conflagrados; e uma classe média que aplaude operações policiais na TV enquanto teme sair de casa. Não é colapso total — as instituições ainda funcionam precariamente —, mas é deterioração acelerada do tecido social.
A reversão desse quadro exige reconhecer a contradição central: operações episódicas não substituem política de segurança. Precisamos de presença permanente do Estado, investigação sistemática, justiça célere e a coragem de admitir que aplaudir mortes — mesmo de criminosos — comprova que, na ausência da civilização, prevalece a barbárie.


