Sem conseguir se unir em torno de um nome para disputar a presidência da Câmara dos Deputados, o grupo de Rodrigo Maia se vê cada vez mais pressionado a apresentar seu candidato, para evitar baixas. Nesta semana, Maia foi surpreendido com a notícia de que seu rival na disputa, Arthur Lira (PP-AL), conseguiu atrair o apoio do Republicanos, que desistiu da candidatura de Marcos Pereira em prol do deputado progressista.

Na semana anterior, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), que também era pré-candidato, já havia desistido da própria candidatura em apoio a Arthur Lira. Ramos tinha bom diálogo tanto com Maia como com Lira e tomou o posicionamento por conta de pressão do próprio partido, que é aliado do líder do Centrão.

“Na medida que o tempo vai passando, a candidatura do Lira vai ganhando mais adesão porque ele pode antecipar acordos e negociações. Enquanto isso, o grupo de Rodrigo Maia ainda debate internamente em busca de uma alternativa consensual”, avalia o cientista político e vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha. “Dependendo de quando anunciar seu candidato, Maia pode acabar perdendo o timing – acordos já estarão fechados e promessas já estarão feitas”, pondera.

Atualmente, o grupo de Maia tem dois principais pré-candidatos: Baleia Rossi (MDB-SP) e Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).

Para Noronha, a cada possível aliado de Maia que acaba sendo cooptado por Lira, mais o atual presidente da Câmara se torna dependente da esquerda para eleger um sucessor. O problema é que o apoio em massa da esquerda, que Maia vem tentando construir, também não é uma certeza.

Esquerda dividida

Apesar de, oficialmente, ser contra candidatos apoiados por Bolsonaro, a esquerda na Câmara se encontra dividida em três grupos: aqueles que apoiam uma aliança com Maia (a depender do candidato apresentado), aqueles que apoiam a apresentação de um candidato de esquerda e, ainda, aqueles que devem votar em Arthur Lira.

A existência dessa última parcela pode acabar reduzindo a efetividade de uma futura aliança de Maia com a oposição e tem mobilizado as lideranças partidárias, que lutam para manter a coesão entre os partidos desse campo político, mas também para evitar a dissidência dentro das próprias legendas.

É o exemplo do PSB, partido em que cerca de metade dos deputados declarou voto no candidato progressista. A intenção foi barrada pelo presidente da sigla, Carlos Siqueira, que vetou apoio a Arthur Lira e já declarou que o partido deve se aliar a Maia. Mas a ameaça de divisão continua: como o voto é secreto, há risco de que a decisão do diretório nacional não seja suficiente para convencer os deputados.

O líder do partido na Câmara, Alessandro Molon, está tendo que se desdobrar entre conversas com os dissidentes como forma de tentar juntar novamente as duas partes do partido que acabaram em times diferentes no cabo-de-guerra pela presidência da Câmara.

“O Lira tem muitas relações na casa. Está em campanha há 2 anos, desde a última eleição. É natural que tenha influência”, avaliou a deputada Perpétua Almeida, líder do PCdoB na Câmara.

Movimento semelhante acontece dentro do PT, em que alguns deputados foram cortejados por Arthur Lira. Foi isso que levou à orientação do diretório nacional, na noite de quarta-feira (16), de que o partido é contra qualquer candidato que tenha relação com o presidente Jair Bolsonaro.

A opção apresentada para tentar unir a esquerda é a apresentação de um candidato desse espectro. O que, na avaliação de Cristiano Noronha, não teria grande potencial de alterar o resultado.

“O lançamento de um candidato pela esquerda só postergaria a decisão para o segundo turno. A oposição não teria votos suficientes nem para derrotar Lira nem para derrotar Maia”, pontua.