A entrevista concedida por Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL à Presidência da República, à TV Globo serviu para mostrar que o filho mais velho de Jair Bolsonaro não consegue fazer campanha sem colocar seu adversário como demônio a ser enfrentado.
Em diversas perguntas, Flávio fugiu do tema e culpou Lula. Isso aconteceu, por exemplo, quando falou sobre ser vítima de Fake News divulgadas pelo PT — comportamento pelo qual o bolsonarismo é conhecido.
Esse mesmo comportamento foi usado por Flávio para tentar justificar o patrocínio de R$ 134 milhões pago por Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse.
Flávio disse apenas que o pedido a Daniel Vorcaro se tratou de um negócio privado e que não sabia dos crimes do banqueiro. O senador preferiu destacar o áudio em que Vorcaro diz ter pago R$ 30 milhões para o filme de Lula.
O candidato do PL destacou que esse dinheiro foi obtido com ajuda de João Vaccari Neto, petista conhecido por ter sido condenado na Lava Jato. Porém, Flávio não mencionou a relação de Ciro Nogueira, classificado por ele como "vice dos sonhos", com Vorcaro nem o histórico de Valdemar Costa Neto, presidente do PL preso no Mensalão e investigado na Lava Jato.
Flávio repetiu a estratégia de fugir da pergunta e culpar Lula quando foi instigado a explicar como vai cumprir a promessa de melhorar em R$ 200 bilhões as contas do governo do Brasil.
O filho mais velho de Jair Bolsonaro disse contar com R$ 100 bilhões em royalties de petróleo que só será extraído pela Petrobras na Marque Equatorial do Amapá a partir de 2033.
O senador afirmou ainda que vai "securitizar" 30 mil imóveis da União e R$ 3 trilhões de dívidas a serem pagas ao Brasil, cortar 10 ministérios e combater a corrupção e a má gestão das estatais.
Mas Flávio não detalhou como levará a cabo suas propostas. Preferiu dizer que Lula quebrou o Brasil ao gastar mais do que o governo arrecada, inclusive com projetos eleitoreiros apresentados às vésperas do primeiro turno.
Faltou Flávio dizer que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, fez a mesma coisa que Lula em 2022 — e mesmo assim perdeu para Lula nos dois turnos daquele pleito.
Ao ser questionado sobre eventuais interferências no trabalho da Polícia Federal (PF), Flávio se recusou a aceitar a gravação em que seu pai, enquanto presidente da República, assume que vai mexer na corporação para proteger sua família. Preferiu dizer que foi Lula quem aparelhou a PF.
Vale lembrar que Jair Bolsonaro mudou o superintendente da PF no RJ, estado onde ele e sua família têm força política, e forçou a saída de Sergio Moro, à época ministro da Justiça badalado por sua atuação na Lava Jato.
De direita, mas pró-povo
Flávio Bolsonaro prometeu ainda que manterá os mesmos moldes do reajuste do salário mínimo, das aposentadorias e benefícios do INSS. Ambos são calculados com base na inflação.
O candidato do PL também se comprometeu a manter o piso da educação, que baliza investimentos e salários, e a garantir vagas em creches (públicas ou privadas) — mesmo que o tema seja de competência municipal.
Flávio Bolsonaro também se explicou sobre sua mudança de voto na discussão sobre o fim da Escala 6x1. Flávio disse que deixou de ser contra a aprovação do projeto após ouvir muitos trabalhadores, mas ponderou que vai lutar por um modelo de contratação mais maleável quanto ao horário.
Filho do pai
Apesar de afirmar que será um presidente independente da figura do pai, mesmo tendo sido escolhido por ele para disputar a Presidência da República, Flávio repetiu por diversas vezes o nome de Jair Bolsonaro e citou o ex-presidente como referência.
Flávio prometeu ainda que não buscará reeleição e que sua família não tentará impor uma dinastia sucessória sanguínea na Presidência. Sobre o Supremo Tribunal Federal, o senador se comprometeu com o impeachment de Alexandre de Moraes.
O candidato do PL acusou — com certa razão — o ministro de ilegalidades no processo. Uma delas é o fato de Moraes ser alvo dos crimes e mesmo assim julgar quem planejou ou executou os delitos.
Além da promessa de vingança contra Moraes, Flávio jogou outro ministro aos leões: Kassio Nunes Marques, que foi indicado para o Supremo por Jair Bolsonaro.
Questionado se Nunes Marques deveria ser expulso do STF por suas relações com o Master e Vorcaro, o senador afirmou que a punição deve valer para todos que descumprirem as leis.
Soberania?
Flávio Bolsonaro também destacou que irá valorizar as Forças Armadas por entender que cabe a elas fiscalizar as fronteiras e garantir, assim, a soberania do Brasil.
O candidato do PL só não disse que seu pai, quando presidiu o Brasil, garantiu aumento só aos oficiais das Forças Armadas, mantendo os mesmo salários para a base da pirâmide do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
O senador também não mencionou o nome de Donald Trump nem suas viagens aos EUA para pedir tarifaço contra o Brasil. Mas também não foi questionado sobre o assunto.

