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Economia

Os investimentos para manter no radar até o segundo turno

Em três semanas, cada pesquisa eleitoral deve mexer com bolsa, dólar e juros

Investimentos
Para a maioria das pessoas, o caminho é manter a reserva de emergência em pós-fixados (Foto: Magnific)

O mercado deu uma resposta bastante clara sobre as eleições de 2026. O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, e o primeiro pregão foi de forte reprecificação dos ativos brasileiros.

O Ibovespa chegou a superar os 209 mil pontos, o dólar caiu mais de 4%, para abaixo de R$ 5, e os juros futuros recuaram de maneira relevante.

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Para especialistas, no entanto, é importante separar preço de fundamento. O mercado não está comemorando uma eleição concluída, mas precificando uma probabilidade.

"O que entrou no preço foi principalmente a percepção de maior probabilidade de ajuste fiscal, redução de gastos e uma agenda econômica mais liberal em um eventual governo Flávio Bolsonaro, somada a um Congresso mais à direita", avalia Vitor Delduque, analista de investimentos, Co-founder e CRO do Rise Finance.

Na economia real, nada mudou da última sexta-feira (02) para esta segunda (05). Quem já estava na bolsa brasileira, principalmente empresas mais sensíveis a juros, como varejo, construção e companhias endividadas, acordou com a carteira valorizada. O mesmo vale para quem carrega títulos prefixados e IPCA+ de prazo longo, que ganham valor quando o mercado passa a projetar juros menores lá na frente. Quem estava posicionado em dólar perdeu em reais.

Segundo Isabel Abreu, economista e consultora financeira, para quem ainda não investe ou está montando carteira, a renda fixa segue pagando muito bem: a Selic está em 13,75% e, na sexta, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava inflação mais 7,62% ao ano. E o dólar abaixo de R$ 5 abre uma janela para quem tem viagem, curso ou compromisso em moeda estrangeira, e também para o empresário que tem custo ou dívida em dólar.

O que fazer com os investimentos?

São três semanas até o segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro. Até lá, os especialistas revelam que cada pesquisa vai mexer com bolsa, dólar e juros.

"Não é momento para aposta concentrada. Para a maioria das pessoas, o caminho é manter a reserva de emergência em pós-fixados, que rendem bem e não oscilam com o noticiário, e fazer aportes em partes, sem tentar acertar o melhor dia. Quem quer aumentar a exposição a risco pode fazer isso aos poucos", afirma a economista.

Depois do segundo turno, o que passa a valer é o que o eleito disser e fizer: equipe econômica, regra fiscal, relação com o Congresso. Se vier um plano crível de ajuste das contas, juros longos e bolsa têm espaço para continuar melhorando. Se vier frustração, parte dessa alta é devolvida, seja quem for o vencedor.

"Vale lembrar que em 2022 a bolsa também disparou no dia seguinte ao primeiro turno e o desfecho da eleição foi outro", alerta Abreu.

No curto prazo, atenção redobrada para os ativos que mais reagem à eleição: ações de estatais, varejo e empresas alavancadas, títulos públicos longos e o próprio dólar. São os que mais sobem quando o humor melhora e os que mais caem se o cenário virar. Quem tem prefixado ou IPCA+ longo precisa lembrar que a oscilação aparece no extrato antes do vencimento, para cima e para baixo.

 No longo prazo, entretanto, Delduque, da Rise Finance, entende que uma carteira diversificada entre renda fixa, Bolsa, ativos internacionais traz oportunidades mais interessantes fora do tradicional.

"Gosto da dolarização de parte do patrimônio, da exposição a ativos globais e, principalmente, do crescimento dos ativos digitais e das estruturas de finanças descentralizadas, o DeFi. Hoje já existem estruturas em blockchain capazes de gerar renda por meio de crédito, provisão de liquidez e ativos do mundo real tokenizados. Isso permite ao investidor acessar mercados globais, operar em dólar e diversificar sua exposição para além do risco Brasil", explica o analista do mercado financeiro.

A criptomoeda Bitcoin também ganha relevância nesse contexto como ativo escasso e descorrelacionado da política monetária de um país específico.

"Não significa abandonar a renda fixa brasileira, que continua oferecendo taxas muito atraentes, mas começar a entender que diversificação hoje não é simplesmente escolher entre ações e títulos brasileiros. É também diversificar moeda, jurisdição e infraestrutura financeira", diz o especialista.

Eleições acontecem a cada quatro anos, mas o patrimônio normalmente é construído durante décadas. Ou seja, no longo prazo, as eleições pesam menos do que no momento imediato. Para Delduque, um dos maiores erros do investidor é permitir que sua preferência política vire estratégia de investimento.

O momento das moedas digitais

Ativos que ganham força em um momento político delicado são as moedas digitais, também conhecidas como criptomoedas.

No cenário atual, o "Trumpismo" — a influência do governo de Donald Trump sob o Brasil e América Latina — pode ajudar esse movimento, especialmente se o brasileiro importar a agenda econômica pró-cripto que o presidente dos Estados Unidos implementou.

"Trump transformou ativos digitais em política de Estado. Em 2025, os Estados Unidos criaram oficialmente uma Reserva Estratégica de Bitcoin, e o governo americano passou a tratar o Bitcoin como ativo estratégico e reserva de valor. A administração Trump também adotou uma política explícita de estímulo à indústria de ativos digitais e proteção à autocustódia. No Brasil, uma agenda semelhante poderia acelerar tokenização, stablecoins, custódia institucional, fundos onchain e integração entre mercado financeiro tradicional e blockchain. Mas não significa ausência de regulação", revela Delduque. 

Uma agenda inspirada nessa, no Brasil, passaria por três caminhos: tributação e regulação mais amigáveis, maior integração dos criptoativos com bancos e fundos, e a discussão de uma reserva soberana.

"Já existe projeto na Câmara que prevê destinar até 5% das reservas internacionais à compra de bitcoin, embora Banco Central e Fazenda tenham se mostrado resistentes à ideia. Só que nenhum dos dois candidatos chegou ao segundo turno com posição formal sobre o tema. E o preço do bitcoin depende muito mais de liquidez global e do que acontece nos Estados Unidos do que da eleição brasileira. Para o investidor pessoa física, continua sendo um ativo de altíssima volatilidade, que cabe em uma fatia pequena da carteira e com dinheiro que não tem data para ser usado", reforça Abreu.

"Novo ouro"

O ouro é um dos ativos mais seguros do mundo. Os EUA, assim como o resto do mundo, ficam de olho no preço do metal para lastrear boa parte dos investimentos. Porém, com o avanço das criptomoedas, as moedas digitais podem se tornar tão relevantes quanto o ouro.

Porém, os especialistas reiteram que o aumento do fluxo dessas moedas não altera o controle do Estado na política monetária.

"O ouro foi reserva de valor por séculos e os bancos centrais nunca deixaram de controlar a moeda por causa disso. Guardar valor é uma função, servir de moeda no dia a dia é outra. Enquanto salários, impostos, contratos e dívidas forem em reais, é o Banco Central que define o custo do dinheiro no Brasil. Um bitcoin 'novo ouro' concorreria com o próprio ouro e com títulos como proteção de patrimônio, não com o real no caixa do supermercado", afirma a economista.

O ponto de atenção real para a política monetária são as stablecoins atreladas ao dólar, que já respondem pela maior parte do volume de cripto no país. Isso porque permitem uma dolarização digital, por fora do câmbio tradicional, e por isso o Banco Central passou a regular essas operações.

"Um país perde o controle da moeda quando ela perde credibilidade, por descontrole fiscal e inflação alta. A fuga para cripto ou para o dólar costuma vir depois disso", alerta Abreu.

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