**Texto por Wagner de Moraes
Eu converso praticamente todos os dias com empresários, investidores e instituições financeiras. E, sinceramente, o Brasil que aparece nessas conversas não parece o mesmo Brasil retratado por alguns indicadores.
Temos desemprego de apenas 5,3%, um dos menores níveis da nossa história. Ótimo. Mas, ao mesmo tempo, batemos recorde de recuperações judiciais em 2025 e já temos mais de 9 milhões de empresas inadimplentes.
Então eu me pergunto: o que está acontecendo?
Quando abrimos um pouco mais os números, a fotografia começa a mudar. Temos cerca de 103 milhões de brasileiros ocupados, mas outros 66 milhões estão fora da força de trabalho. O Bolsa Família alcança aproximadamente 50 milhões de pessoas e o INSS paga cerca de 24,5 milhões de aposentadorias.
Claro que esses números não podem ser simplesmente somados. Há muita sobreposição e milhões de beneficiários trabalham. Mas existe uma particularidade importante: quem não trabalha e não procura emprego não é considerado desempregado.
Por isso, comemorar isoladamente uma taxa de desemprego de 5,3% pode esconder uma discussão muito maior sobre produtividade, renda e capacidade de crescimento do país. E aí chegamos ao ponto que mais me preocupa: quem vai financiar essa conta?
A dívida bruta já está em 82,5% do PIB e pode chegar perto de 86,5% em 2027. Temos juros de 14% ao ano e continuamos tentando fechar as contas públicas muito mais pelo aumento da arrecadação do que pelo controle estrutural das despesas.
Não tenho nenhuma dúvida sobre a importância das políticas sociais. Elas são necessárias. O que não acredito ser sustentável é ampliar permanentemente gastos e transferências sem que produtividade, investimento e geração de riqueza avancem na mesma velocidade.
Porque existe uma consequência!
Um Estado cada vez mais endividado disputa recursos com o setor privado, aumenta a percepção de risco e ajuda a manter o custo do dinheiro elevado. Juros altos comprimem empresas, investimentos e consumo. Empresas mais frágeis investem menos, contratam menos e, no limite, algumas simplesmente não conseguem continuar.
É exatamente essa realidade que tenho visto chegar cada vez mais às mesas de negociação.
Por isso, talvez a discussão não seja apenas quando os juros vão cair. A pergunta anterior deveria ser: o que estamos fazendo para criar as condições para que eles possam cair de forma sustentável?
Não existe política social duradoura sem crescimento. Não existe crescimento consistente sem investimento. E não existe investimento de longo prazo sem confiança na traetória fiscal.
Wagner de Moraes é economista com 30 anos de experiência, especialista em mercado financeiro, macroeconomia, geopolítica aplicada à economia e transformação financeira corporativa. É fundador e CEO da A&S Partners, atuando especialmente na criação de plataformas financeiras autônomas para grandes grupos, M&A e reestruturação financeira. Ao longo de sua carreira, foi executivo em grandes empresas do varejo nacional, liderando projetos de reestruturação, governança, crédito e inovação em serviços financeiros.
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