Investigação da Polícia Federal (PF) colocou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) como peça central de um esquema de desvio de emendas parlamentares que abasteceram até o filme Dark Horse, que contará a história de Jair Bolsonaro.
As informações da PF foram listadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na decisão que autorizou busca e apreensão contra Frias e outros investigados nesta quinta-feira (10).
A ordem de Dino também retirou da Polícia Civil de São Paulo, chefiada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), aliado dos Bolsonaro, a investigação sobre o caso.
A mudança de investigadores no caso foi feita sob o argumento de que o envolvimento de parlamentares federais atrai a competência da PF e do STF sobre a apuração.
Como começou
O caso começou a partir de auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) em termos de fomento celebrados entre ministérios do Governo Federal e duas Organizações da Sociedade Civil (OSCs): o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura.
Ao todo, Mário Frias destinou R$ 2 milhões por meio das emendas individuais. Paralelamente, o Instituto Conhecer Brasil mantinha um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo.
O contrato foi firmado com a gestão Ricardo Nunes (MDB) para a instalação de pontos de wi-fi público em regiões periféricas. Nunes é aliado de Tarcísio de Freitas e orbita a zona de influência da família Bolsonaro.
Go Up
o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura são presididas por Karina Ferreira da Gama, apontada pelos investigadores como peça importante no repasse dos recursos. Segundo a PF, Gama é próxima de Frias e sócia de empresas do grupo Go Up Entertainment, responsável pela gestão de Dark Horse.
Dados obtidos pela PF junto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostraram que a produtora recebeu repasses financeiros do ecossistema de empresas e pessoas ligadas a projetos custeados com emendas do deputado.
Segundo a Polícia Federal, esses repasses financeiros indicam possível confusão patrimonial e canalização de verba pública para a produção do longa-metragem.
Relações cruzadas
A investigação da PF mostrou que o ecossistema liderado por Karina Gama movimentou uma extensa rede de fornecedores e prestadores de serviços.
A lista inclui a Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas Ltda., que faturou R$ 457,8 mil; a Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros Ltda. (controlada por Dayvid Moreira Medeiros) e a Editora e Distribuidora de Livros HD Cultural Ltda., que receberam R$ 400 mil.
Há também o Instituto Super Poder Educacional Ltda. (Super Leitores), que recebeu R$ 300 mil, enquanto a Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. recebeu mais de R$ 8,5 milhões do Instituto Conhecer Brasil.
Outras empresas e pessoas físicas figuram na teia de repasses ou cotações do grupo, como a Go Up Entertainment LLC, GO7 Assessoria, Mecla Editorial Ltda., NTT Brasil Ltda. (administrada por Heric Fabiano Dias, responsável por repasses à produtora de Dark Horse), RVZ Consultoria Ltda. (que repassou cerca de R$ 3,4 milhões à MTS Assessoria) e a Cometa Livraria.
A PF identificou que verbas contratadas pelo Instituto Conhecer Brasil foram direcionadas para a LF&P Consulting Apoio Administrativo Ltda., pertencente a Fábio Lago Meirelles, e para a Aguilera Martinez Sociedade Individual de Advocacia, de Diego Aguilera Martinez.
Ambas as firmas pertencem a advogados que defendem Mário Frias em ações judiciais. A Estratégia Comunicações Ltda. também recebeu recursos repassados diretamente pelo gabinete do parlamentar.
Os investigadores mapearam ainda relações com doações eleitorais. Luiza Tessari Rocha Dias, ligada ao núcleo da HD Cultural, doou R$ 70 mil para a campanha de Frias em 2022.
Rudyge Alex Scatolini Boldrini doou R$ 4 mil e prestou serviços de R$ 7.500,00 para a mesma campanha, passando posteriormente a ser contratado pelo Instituto Conhecer Brasil; os contratos somam pouco mais de R$ 105 mil.
A empresa GTREND, ligada ao ex-companheiro de Karina Gama, Wemerson Marinho da Gama, já havia prestado serviços ao gabinete do deputado.
Emendas e religião
A apuração da PF alcança ainda indicações de emendas de outros dois parlamentares federais do PL para a Academia Nacional de Cultura: a deputada Bia Kicis (DF), que destinou R$ 150 mil, e o deputado Marcos Pollon (MS), que indicou R$ 1 milhão.
Os repasses de dinheiro público visavam o projeto "Heróis Nacionais", voltado para o estado de São Paulo. A PF questiona as razões que levaram Kicis e Pollon a destinarem dinheiro a uma unidade federativa diferente daquelas que represetam.
Os recursos das emendas de Kicis e Pollon não foram repassados por óbices técnicos e normativos na celebração do termo de parceria.
A investigação mapeou também a atuação de Ademar de Sena Sampaio, sócio da UPCON Serviços Especializados Ltda. ao lado de Karina Gama. Sampaio atua como procurador da União Nacional das Igrejas e Pastores Evangélicos (UNIGREJAS) e do Instituto Viver-Brasil.
De acordo com a Polícia Federal, essa teia de relações interpessoais evidencia conexões entre os operadores das OSCs que receberam emendas indevidamente e estruturas de representação religiosa.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

