Publicidade
Política

Move Brasil deve garantir impacto no setor automotivo, mas terá expectativas frustradas

Programa de financiamento de veículos para taxistas e motoristas de aplicativo propõe benefícios de crédito

Move Brasil deve garantir impacto no setor automotivo, mas terá expectativas frustradas

O governo federal lançou nesta semana uma linha de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo conseguirem financiamentos para a compra de carros zero km. O Move Brasil distribuirá R$ 30 bilhões em créditos para carros até R$ 150 mil, com juros de 12,6% ao ano — abaixo da Selic, atualmente em 14,5% ao ano.

A proposta garante o benefício para carros selecionados, com tecnologia de propulsão de baixo carbono (flex, movidos a etanol, híbrido flex e elétricos), de montadoras habilitadas no programa e com o limite de valor respeitado.

Publicidade

Como os motoristas de aplicativo avaliam a medida?

Denis Moura, diretor executivo da Federação Brasileira de Motoristas de Aplicativos (FEMBRAPP), disse ao O Brasilianista que a associação está vendo com bons olhos o financiamento, indicando que acredita ser uma boa iniciativa do governo. No entanto, ele expressa que a medida pode não abranger uma grande parte da categoria que tem restrições nome.

“A gente vai saber melhor se a intenção do governo vai chegar de bom grado na ponta, ele vai atender melhor na ponta, quando a gente conseguir as primeiras respostas dos financiamentos. Mas, a princípio, a Federação está vendo com bons olhos, está achando uma boa iniciativa”, afirmou.

Ele explica que a falta de uma regulamentação que garanta maior segurança jurídica dificulta a situação financeira de vários motoristas. Para Moura, uma ajuda substancial seria a redução dos impostos, para além do financiamento.

“A carga tributária sobre o valor do veículo é muito alta. Então, se conseguisse reduzir os impostos para a compra do veículo e o financiamento, aí eu acredito que atingiria número bem maior de pessoas”, relatou.

O Brasilianista não conseguiu retorno das associações de taxistas sobre o tema, mas o espaço segue aberto.

Move Brasil corre risco de lidar com inadimplência

Milad Neto, diretor executivo da K.LUME Consultoria, destaca que o programa é programa interessante, mas, do outro lado, a iniciativa deixa com que as locadoras comprem esses veículos e, hoje, movimentam quase 50% das frotas.

“A gente corre o risco de ter problema de veículo, porque o brasileiro infelizmente não sabe comprar carro. Pensa que só a parcela do veículo, com dinheirinho extra pra botar a gasolina, dá certo. Mas tem IPVA, seguro, manutenção, a depreciação do veículo ao longo do tempo, multas, tem essa série de fatores que acabam onerando os custos”, afirma.

Segundo ele, de qualquer forma, a iniciativa propõe oferecer para alguém um item que, se não usar bem, corre o risco de ficar mais endividada ainda.

Fabio Braga sócio e Country Manager da MegaDealer Consultoria, o Move Brasil tem potencial real de estimular a demanda, mas seu alcance efetivo será menor do que os R$ 30 bilhões anunciados sugerem.

“O veículo serve de garantia, o que ajuda a conter o risco, mas a retomada de carros em caso de calote é um problema estrutural crônico no Brasil, com processos lentos e custosos para as financeiras. O cenário macro agrava esse quadro: juros básicos ainda elevados, famílias com comprometimento de renda historicamente alto e consumidores mais cautelosos na tomada de crédito de longo prazo. O programa nada contra essa maré sem trazer mecanismos suficientemente robustos de garantia para virar o jogo.
O resultado provável é uma corrida às concessionárias sem que essa demanda se converta em contratos efetivos — gerando ruído político e frustração antes mesmo de completar o primeiro semestre”, sustenta Braga.

O efeito sobre a cadeia automotiva é real, mas desigual e defasado

Sobre o aspecto da indústria, Milad Neto explica que os quatro primeiros meses do ano foram muito bons, principalmente março e abril, mas o programa pode impactar nas vendas de automóveis no Brasil. Para ele, não serão 200 mil unidades, mas de qualquer forma, com esse “colchão” que foi feito dentro do últimos meses, a expectativa anterior era de que o segundo semestre fosse ruim para o setor automotivo.

No curto prazo, três elos concentram o impacto: montadoras ganham demanda por modelos flex, etanol e elétricos elegíveis; concessionárias verão tráfego intenso, mas com conversão limitada pelo filtro de crédito; financeiras e bancos processarão volume alto de análises, com aprovação aquém das expectativas.

No entanto, Fábio Braga destaca que os demais elos — seguradoras, locadoras, fornecedores, distribuidores de combustível — sentirão o efeito de forma defasada e condicionada ao volume real de contratos fechados, não ao volume anunciado.

No médio prazo, se o programa funcionar na prática, o quadro muda: seguradoras se beneficiam da renovação da frota, locadoras sofrem pressão competitiva com motoristas migrando da locação para a propriedade do veículo, fornecedores e autopeças ganham com o aumento de produção e o etanol se fortalece pelo incentivo estrutural aos motores flex.

“O Move Brasil é um programa bem intencionado, ancorado num diagnóstico correto: frota envelhecida, trabalhador de plataforma sem acesso a crédito justo, indústria nacional precisando de demanda. Mas há uma contradição central que pode minar sua eficácia: ele foi desenhado para incluir exatamente quem o sistema financeiro tradicional historicamente exclui, sem criar os mecanismos de garantia necessários para viabilizar essa inclusão em escala”, avalia o especialista da MegaDealer.

Para atingir seu potencial, de acordo com Braga, o programa precisaria de um fundo garantidor robusto e específico, critérios de aprovação diferenciados para renda variável e monitoramento ativo da taxa de conversão entre elegibilidade aprovada e contrato efetivado. Sem isso, o Move Brasil corre o risco de se tornar mais um programa de boas intenções com execução aquém do anunciado — e o mercado automotivo, que aguarda um catalisador real de crescimento, pode sair frustrado mais uma vez.

O Brasilianista também está nas redes sociais. Confira!