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Política

O que “A carteira de meu tio” diz sobre a política brasileira 170 anos depois do lançamento?

Redes de proteção, confusão entre público e privado, e uso patrimonial de cargos e favores não ficaram só no Segundo Reinado

O que “A carteira de meu tio” diz sobre a política brasileira 170 anos depois do lançamento?

Com mais de um século e meio de distância, o cenário político do Brasil não foge muito da cultura política do Segundo Reinado (1840-1889), satirizada pela obra “A carteira de meu tio”, de Joaquim Manuel de Macedo.

Publicada em 1855, inicialmente em folhetim na Marmota Fluminense do editor Paula Brito, o livro permanece um espelho desconfortável: redes de proteção, confusão entre público e privado, e o uso patrimonial de cargos e favores — que seguem mais reconhecíveis do que se imagina.

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Macedo escreveu a narrativa como um “livro de viagem” pelo Rio de Janeiro, conduzida por um narrador-sobrinho que aspira à carreira política. A jornada é pretexto para observar partidos, chefes locais e um Estado capturado por interesses. É sátira, mas também diagnóstico de funcionamento institucional num país de representação frágil e elites coesas.

O alvo não são apenas personagens, mas também o arranjo político da Conciliação, que era a tentativa de pacificar disputas por meio de acordos de elites e repartição pragmática do poder. “A obra expõe, em tom mordaz, o sistema representativo e o comportamento dos homens públicos, destacando acomodações que garantem governabilidade à custa de princípios”, avalia o mestre em Ciência Política, Murillo de Aragão.

Figuras alegóricas como Paciência — representando a subordinação dos pobres — e Constante — que defende incondicionalmente o governo — dramatizam uma sociedade em que conveniências valem mais do que programas.

Reflexos 170 anos depois

Para Aragão, a crítica de Macedo não envelhece porque aponta um mecanismo político e não um escândalo específico.

A leitura contemporânea da obra mostra os indícios de como a política funciona como um negócio privado. “O clássico antecipa traços que hoje associamos ao presidencialismo de coalizão mal exercido: troca de apoios por posições, captura de orçamento e repartição do Estado como ‘carteira’ de cada grupo”, comenta.

Segundo ele, a metáfora central do livro — a carteira que abre portas e fidelidades — reaparece nas negociações por emendas, cargos e benesses que mantêm maiorias, mas rebaixam o debate programático.

A obra de Macedo mostra a capacidade de contornar regras formais por meio de arranjos informais como normalidade política. E isso não é surpreendente em 2025.

Reler pode mostrar as raízes políticas do Brasil

Revisitar “A carteira de meu tio” ajuda a separar sintoma de causa. Para o cientista político, o problema não é apenas corrupção episódica, mas uma cultura de acomodação que naturaliza favoritismos e confunde o que é público com o que é de facção.

“A atualidade do texto está em revelar que trocas, favores e ‘conciliações’ sem norte reformista produzem ciclos de estagnação política”, afirma .

O clássico de 1855 oferece um mapa dos incentivos que ainda moldam a vida pública, ideal para quem busca compreender os impasses políticos atuais do país.