Somente em 2025, a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos já se mostrou em diversas ocasiões, especialmente no caso das tarifas de 50% sobre as importações brasileiras e também nas mudanças para brasileiros solicitarem vistos americanos. Mas nem sempre foi assim. Os países já tiveram uma relação mais estreita — há cerca de 150 anos.
Murillo de Aragão, mestre em Ciência Política, afirmou que as nações eram mais próximas há quase um século e meio. Uma visita de Dom Pedro II aos EUA em 1876 foi essencial para entender a dimensão da popularidade do ex-imperador em outros países da América.
Os EUA conquistaram sua independência da Inglaterra em 1776, instaurando uma república nas antigas 13 colônias. O Brasil demorou um pouco mais — exatos 46 anos — para sair do domínio de Portugal, mas manteve a monarquia por mais 67 anos. Ainda assim, na visão dos estadunidenses, Dom Pedro II combinava a “tradição monárquica com práticas políticas modernas”.
Dom Pedro II para presidente dos EUA
Em 1876, o imperador Dom Pedro II visitou o país para participar da Exposição Internacional do Centenário da Independência, na Filadélfia.
Segundo o Murillo de Aragão, o monarca brasileiro cruzou milhares de quilômetros em trem, sendo saudado em cada parada por multidões que queriam vê-lo de perto. “Sua disposição em conversar com cidadãos comuns, visitar escolas e até assistir a um culto mórmon em Salt Lake City fez dele uma figura fascinante para os americanos”, afirmou.
Além disso, relatos da imprensa humanizavam o imperador e aumentavam sua popularidade, em contraponto às críticas do então presidente americano Ulysses S. Grant, que estava envolvido em escândalos de corrupção.
Na Filadélfia, o brasileiro foi o primeiro chefe de Estado a experimentar o telefone de Alexander Graham Bell, reagindo com a frase “Meu Deus, isto fala!”, e viu no elevador de Elisha Otis o prenúncio de edifícios mais altos, pressentindo o futuro das grandes cidades.
Chocados com as habilidades do monarca em falar inglês, alguns sugeriram até mesmo, em tom de brincadeira, que Dom Pedro II poderia se candidatar à Casa Branca.
Aragão afirma que a viagem projetou uma imagem positiva do Brasil. “Jornalistas americanos destacavam que, no Império, havia uma liberdade de imprensa rara para a época, com caricaturas e críticas circulando livremente contra o próprio soberano”, disse.
Por outro lado, brasileiros com ideias republicanas exilados formularam uma tentativa de assassinado ao imperador. O motim foi descoberto antes de se concretizar e passou despercebido em meio à viagem.
Brasil na mira do Trump
Ao longo da história da diplomacia entre Brasil e EUA, é possível observar que a relação se alterna entre aproximações calorosas e desentendimentos estratégicos, especialmente durante os períodos da Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria.
Ainda assim, o contraste da viagem de Dom Pedro II — um monarca que foi aclamado em uma celebração da república e democracia — com a atualidade é evidente. Hoje, os dois países vivem uma relação tensa, marcada por divergências em comércio, meio ambiente e política externa.
“Se no século XIX o Brasil exibia ao mundo um imperador culto, curioso e respeitado, hoje a agenda bilateral se vê contaminada por atritos e desconfianças”, afirma Aragão.
Um exemplo é justamente a relação atual entre os governos Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Donald Trump, nos EUA. Medidas como o tarifaço, justificada principalmente pela desconfiança do atual presidente americano ao Sistema Judiciário e acordos comerciais brasileiros, estão implicando em respostas jamais antes vistas na diplomacia entre os países.
Como o próprio jornal americano The New York Times afirmou, ninguém está desafiando as tarifas de Trump como o presidente do Brasil.
Na visão do especialista, cultura, ciência, educação e inovação podem voltar a ser pontes para aproximar Brasil e Estados Unidos. “Talvez a lição de Dom Pedro II seja a de que, mesmo em tempos de crise, é possível usar a diplomacia como palco para a admiração e o diálogo. Afinal, se um imperador brasileiro pôde ser saudado como presidenciável em Washington, não deve ser impossível recuperar o espírito de cooperação e respeito mútuo entre as duas maiores democracias do continente”, finaliza Murillo de Aragão.

