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Economia

Por que o Bitcoin não poderia ser moeda nacional do Brasil

A tentativa de El Salvador provavelmente não daria certo por aqui

Bitcoin
O Brasil não vive, no momento, um contexto em que faria sentido adotar qualquer criptomoeda (Foto: Magnific)

A experiência do presidente Nayib Bukele, de El Salvador, em incluir o bitcoin como uma das moedas nacionais além do dólar acabou não dando certo.

Em 2021, o país foi o primeiro do mundo a adotar o bitcoin. Porém, cinco anos depois, o dólar voltou a ser a única moeda oficial de El Salvador e a aceitação do bitcoin passou a ser facultativa. e a promessa de construir uma cidade futurista, abastecida pela energia geotérmica de um vulcão e dedicada à mineração da criptomoeda, nunca saiu do papel.

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Alguns fatores motivaram esse resultado: baixa adesão da população, desconfiança, diagnóstico equivocado sobre baratear o envio de dinheiro do exterior, pouca inclusão financeira e até mesmo a volatilidade do próprio bitcoin.

Na prática, a adoção popular foi pequena e o país voltou atrás no ano passado, com a aceitação da moeda sendo agora opcional. Para Luca Girardi, analista de investimentos da Nomad, o Brasil não vive, no momento, um contexto em que faria sentido adotar qualquer criptomoeda ou moeda fiduciária externa como moeda nacional.

Em geral, criptomoedas são eficientes em transações transfronteiriças por reduzirem impostos ou intermediários ou em usos mais extremos. Pensando numa óptica de preservação de valor (e não puramente transacional), também são usadas em situações de hiperinflação ou governos ditatoriais.

"A ideia aqui é outra: se expor a uma moeda menos volátil que a nacional ou fugir da censura ou do confisco de um governo", afirma Girardi.

A tentativa em El Salvador

Quando Bukele anunciou a proposta, ele possuía maioria de seu partido na Assembleia Legislativa. O projeto visava trazer prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira a El Salvador.

Segundo o governo, o bitcoin reduziria os custos do envio de dinheiro por salvadorenhos que vivem no exterior, uma fonte de recursos que representa quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, a criptomoeda facilitaria o acesso de trabalhadores informais sem conta bancária ao sistema financeiro e atrairia investimentos estrangeiros.

O governo salvadorenho criou um fundo de US$ 150 milhões (R$ 748 milhões) para estimular a iniciativa e ofereceu US$ 30 (R$ 150) a cada cidadão que instalasse a carteira digital Chivo no celular.

Modelo não faz sentido no Brasil

O especialista da Nomad explica que um país adotar uma criptomoeda como moeda nacional, abrindo mão completamente de uma moeda fiduciária só poderia fazer sentido em um cenário de hiperinflação, em uma tentativa de frear a alta dos preços, perdendo completamente seu poder de política monetária, de maneira semelhante como a adoção de uma moeda fiduciária externa como moeda nacional.

Vale ressaltar, entretanto, que as criptos tradicionais possuem volatilidade elevada, o que as torna menos viáveis nesse cenário do que uma moeda fiduciária forte, como o dólar ou o euro.

Uma das características básicas de uma moeda é a de ser a unidade de conta de uma economia. Se ela varia 5% em um dia, essa característica se enfraquece, com problemas relevantes surgindo, como os custos com remarcações frequentes de preços.

Para Girardi, o Brasil não vive, portanto, um contexto em que faria sentido adotar qualquer criptomoeda ou moeda fiduciária externa como moeda nacional.

"Primeiramente por não viver uma situação de hiperinflação e perda de credibilidade monetária, mas também pelas desvantagens de abrir mão de ditar sua política monetária: controlar a taxa de juros de sua economia e a emissão de moeda", afirma.

Alguns motivos para um efeito mal sucedido do bitcoin no Brasil seriam semelhantes aos de El Salvador, como a potencial baixa adesão da população, a desconfiança e, principalmente, a volatilidade do ativo que diminui a sua atratividade como moeda de transação.

"Esse cenário poderia inclusive ser agravado no país, dado que, ao contrário de El Salvador, o Brasil tem uma população já bastante bancarizada por meio do Pix, tem baixa dependência de remessas de nativos que vivem no exterior e, principalmente, possui uma moeda e um Banco Central com confiança interna e externa", avalia.

Criptomoedas são as moedas nacionais do futuro?

“Criptomoedas” em seu sentido preciso, ou seja, moedas que possuem uma blockchain própria, como o Bitcoin e o Ethereum — excluindo ativos tokenizados, como stablecoins, ouro e demais tokens —, dificilmente serão a primeira opção para substituir moedas fiduciárias no futuro.

Isso se deve ao fato de suas desvantagens em geral superarem as suas vantagens, não só para o utilizador, mas como para o país que a adotaria.

Volatilidade é o principal fator que dificulta a sua adoção pela população, segundo o analista da Nomad.

Caso isso mude no futuro, se aproximando da de ativos como o ouro (que ainda assim possuem uma volatilidade bem superior à de moedas fiduciárias), um fator não mudaria: a desvantagem institucional para o país, ao abrir mão completamente de sua política monetária. 

"Mesmo em situações nas quais a credibilidade institucional nacional esteja muito baixa e o cenário seja de hiperinflação, criptomoedas só seriam a primeira opção se fossem a principal moeda transacional global, o que me parece distante", pondera Girardi.

Por outro lado, ao considerar tokens, especialmente as stablecoins e o ouro tokenizado, o cenário é mais plausível.

"Uma stablecoin é uma moeda fiduciária existente transportada para o mundo digital, com lastro, possuindo os benefícios de ambos os universos: a rapidez, custo baixo e autocustódia dos criptoativos somados à confiança de uma moeda fiduciária, com baixa volatilidade", explica. 

Isso inclusive já está sendo usado globalmente, com iniciativas como na China, com o e-CNY, emitido pelo banco central do país para ser usado em transações eletrônicas, mantendo então a paridade com a moeda oficial e o controle monetário do Estado.

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