A advogada Fernanda Klitzke (PT), candidata a segunda suplente de Décio Lima (PT) ao Senado por Santa Catarina, foi derrubada, chutada e atingida por disparos de bala de borracha durante uma ocorrência da Polícia Militar na noite de sábado (12), em Jaraguá do Sul, no Norte do estado.
A ação foi registrada por testemunhas e as imagens passaram a circular nas redes sociais durante o fim de semana.
Fernanda afirma que entrou na ocorrência como advogada para acompanhar uma abordagem policial e orientar as pessoas envolvidas.
A versão apresentada pela Polícia Militar é diferente. Segundo a corporação, os agentes haviam sido acionados por uma moradora para atender uma denúncia de perturbação do sossego e ameaça.
A PM sustenta ainda que houve resistência e interferência física de pessoas que estavam no local.
Três pessoas foram levadas à delegacia. Fernanda foi liberada posteriormente e procurou atendimento médico.
Os envolvidos também registraram boletins de ocorrência contra os policiais. A Polícia Militar informou que a Corregedoria-Geral da corporação investigará o emprego da força durante a abordagem.
Fernanda integra oficialmente a chapa de Décio Lima como segunda suplente. O registro da candidatura foi deferido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC) em agosto. Elaine Berger ocupa a primeira suplência.
Vídeo da abordagem
As gravações feitas no local mostram Fernanda entrando na ocorrência enquanto outra mulher é contida.
Em uma das imagens, uma policial segura a candidata pelo pescoço. Na sequência, outro agente se aproxima com uma arma de munição de impacto controlado.
Fernanda é atingida pelos disparos, cai no chão e recebe chutes durante a contenção.
O próprio boletim de ocorrência policial confirma que foram realizados disparos contra a candidata.
De acordo com o registro, um cabo efetuou inicialmente um tiro na direção de Fernanda e realizou novos disparos enquanto ordenava que ela parasse de resistir. A versão policial afirma ainda que a advogada tentou tomar a arma do agente.
Os vídeos divulgados não registram toda a ocorrência desde o início e, por isso, não permitem verificar isoladamente todas as afirmações feitas pelos policiais e pelas pessoas detidas.
Outro participante, o professor Everson Duarte Cazzaniga, também teria sido atingido por munição de borracha na região da virilha enquanto alertava os policiais de que Fernanda era advogada.
Som e ameaça
A ocorrência começou após uma reclamação envolvendo o volume do som de um veículo estacionado em frente a uma residência no bairro Água Verde.
Segundo o relato apresentado à Polícia Militar, uma moradora afirmou que o barulho havia provocado forte agitação no filho, que possui transtorno do espectro autista (TEA).
Ela disse ainda que pediu para o volume ser reduzido e teria sido ameaçada pelo homem responsável pelo veículo.
Uma das pessoas presentes na confraternização, Vera Lucia Freitas, apresentou outra cronologia.
Segundo ela, Tiago Luis de Azevedo Correa chegou ao encontro por volta das 18h30 com uma música que mencionava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tocando no carro.
Após uma vizinha pedir que o som fosse desligado, ele teria atendido à solicitação, estacionado o veículo e entrado na residência onde ocorria uma comemoração de aniversariantes do diretório local do PT.
A Polícia Militar chegou ao endereço cerca de duas horas e meia depois, segundo o relato de Vera. Os agentes localizaram o homem apontado pela moradora e iniciaram a abordagem.
No boletim registrado pelos policiais, Correa teria resistido às ordens, ofendido os militares e recebido voz de prisão.
A PM também registrou que ele teria chamado os policiais de “fascistas” e associado a abordagem à realização de uma reunião de apoiadores do PT.
Versão de Fernanda
Fernanda afirma que se apresentou aos agentes como advogada e tentou acompanhar a abordagem.
Testemunhas relatam que ela se aproximou com as mãos levantadas e pediu calma aos policiais.
“Levei bala de borracha, fui alvejada, levei mata-leão de outra mulher”, relatou Fernanda após a ocorrência.
A candidata sustenta que continuou sendo contida mesmo depois de informar sua condição profissional.
O registro feito pelos policiais apresenta outra versão. Segundo a PM, Fernanda e outra mulher teriam interferido fisicamente na condução de uma das pessoas detidas e segurado uma policial.
A corporação afirma que uma cabo sofreu lesão em um dedo e precisou de atendimento médico.
O boletim também atribui à candidata declarações de que os policiais “não sabiam com quem estavam mexendo” e de que seria “futura senadora”.
Testemunhas contestam essa descrição e afirmam que houve motivação política na atuação dos agentes.
Depois da passagem pela delegacia, Fernanda e Cazzaniga procuraram atendimento hospitalar. Também foi previsto exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML).
Corregedoria apura
A Polícia Militar informou que a atuação dos agentes será submetida aos mecanismos internos de fiscalização.
“Os fatos serão integralmente apurados pela Corregedoria-Geral”, informou a corporação ao anunciar a investigação sobre a ocorrência.
A PM não informou inicialmente se os policiais envolvidos seriam afastados enquanto a apuração estivesse em andamento.
A corporação também sustenta que o emprego da força ocorreu durante uma situação em que pessoas presentes interferiram na prisão realizada pelos agentes.
Segundo testemunha, os policiais que atenderam à ocorrência não usavam câmeras corporais.
OAB acompanha
A Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Jaraguá do Sul informou que acompanha o caso e presta apoio institucional a Fernanda por meio do sistema estadual de defesa das prerrogativas profissionais.
“Nenhuma divergência ou circunstância pode legitimar o desrespeito à lei”, afirmou a OAB de Jaraguá do Sul em nota.
A entidade defendeu que eventuais excessos sejam investigados individualmente e evitou antecipar conclusões sobre a responsabilidade da advogada ou dos agentes.
A OAB ressaltou que a apuração deverá respeitar ampla defesa, contraditório e devido processo legal.
PT reage
A presidência nacional do PT classificou o episódio como possível violência política e pediu que as circunstâncias sejam investigadas, inclusive para esclarecer se a filiação partidária e a candidatura de Fernanda tiveram relação com a forma como a abordagem foi conduzida.
“O PT não aceitará violência política e principalmente contra a mulher”, declarou Edinho Silva, presidente nacional da legenda.
Décio Lima também reagiu. O candidato ao Senado, cuja chapa tem Fernanda como segunda suplente, afirmou que as prerrogativas profissionais da advocacia precisam ser respeitadas e classificou as imagens como uma agressão ao direito de defesa.
Gelson Merisio (PSB), candidato ao governo catarinense pela mesma coligação, procurou o presidente do TRE-SC, desembargador Carlos Roberto da Silva, para solicitar providências e apuração do episódio.
O Tribunal Regional Eleitoral informou que acompanha os desdobramentos e defendeu a preservação dos direitos fundamentais durante o processo eleitoral.
Jorginho rebate
O governador de Santa Catarina e candidato à reeleição, Jorginho Mello (PL), apresentou uma interpretação oposta à do PT.
Em publicação nas redes sociais, o governador divulgou vídeos e áudios relacionados à mulher que acionou a Polícia Militar e acusou integrantes da esquerda de criarem uma situação contra a corporação.
“Esse modus operandi da esquerda não é novo”, declarou Jorginho Mello ao defender os policiais.
O governador também afirmou que houve agressão à polícia, desobediência e tentativa de transformar a ocorrência em um episódio político. O posicionamento foi divulgado antes da conclusão da investigação anunciada pela própria Polícia Militar.
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