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Entrevistas

Quão eficiente são as pesquisas eleitorais?

Especialista explica como você deve encarar os resultados divulgados pelos institutos

Pesquisa eleitoral
Entenda o processo para a construção de uma pesquisa eleitoral (Foto: Magnific)

Em ano de eleições, é muito comum as pesquisas eleitorais aparecerem nos noticiários e conforme o calendário se aproxima da data de primeiro turno, também aumenta a quantidade e frequência desses levantamentos. 

Mas afinal, o que essas pesquisas realmente dizem aos eleitores? Para entender o processo de produção e como analisar uma pesquisa eleitoralO Brasilianista conversou com exclusividade com o consultor Rodolfo Arantes, que é professor na pós-graduação da Fundação Getulio Vargas e da Faculdade Santo Antônio, em disciplinas voltadas à gestão, comunicação e estratégia. 

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Como uma pesquisa estima o voto de milhões de eleitores entrevistando só algumas centenas ou milhares de pessoas?

O ponto central não é quantidade, mas representatividade. Quando a amostra é montada com cuidado respeitando idade, sexo, escolaridade, renda e região ela funciona como um retrato reduzido do eleitorado. É isso que permite que algumas milhares de entrevistas falem por milhões. O tamanho do estado não muda essa lógica: o que importa é a qualidade da seleção, não o número total de eleitores.

Como são escolhidas as cidades, os bairros ou as regiões das entrevistas?

O processo segue uma lógica simples: cada município participa na proporção do peso que tem no eleitorado. Os maiores entram mais, os menores entram menos. Depois desse sorteio, os institutos vão a setores do IBGE ou a pontos de coleta já conhecidos. Ali, os entrevistadores seguem cotas de perfil para evitar que o resultado reflita apenas quem estava disponível no momento.

O que significa uma margem de erro de dois pontos percentuais?

A margem de erro é o intervalo dentro do qual o resultado real deve estar. Se um candidato aparece com 40% e a margem é de dois pontos, o valor provável fica entre 38% e 42%. Quando dois candidatos estão muito próximos, menos que o dobro da margem, não há como afirmar quem lidera. É o que chamamos de empate técnico, que não é empate literal, mas limitação estatística.

O que significa um nível de confiança de 95%?

O nível de confiança se refere ao método, não ao número específico. Com 95% de confiança, significa que, se a pesquisa fosse repetida 100 vezes, em cerca de 95 delas o intervalo incluiria o valor real. Nas demais, ficaria fora por acaso. É uma medida de robustez do procedimento, não uma garantia absoluta sobre o resultado divulgado.

A forma de perguntar influencia a resposta? A ordem dos candidatos importa?

Influencia, sim. A forma como o entrevistado recebe a informação altera a maneira como ele responde. Listas longas tendem a favorecer quem aparece primeiro, especialmente entre indecisos, por isso a ordem dos nomes costuma ser alternada. Além disso, perguntas espontâneas e estimuladas medem coisas diferentes: a primeira mede lembrança; a segunda, preferência quando todas as opções estão à vista.

Por que pesquisas de institutos diferentes, feitas quase ao mesmo tempo, divergem?

Porque cada instituto trabalha com escolhas metodológicas próprias. Há pesquisas presenciais, telefônicas, online; amostras maiores ou menores; critérios distintos de ponderação; datas de campo que não coincidem exatamente. Essas diferenças não tornam uma pesquisa certa e outra errada. São maneiras distintas de observar o mesmo eleitorado.

Como comparar pesquisas de institutos diferentes sem errar na interpretação?

O primeiro passo é olhar a ficha técnica. Registro no TSE, data da coleta, número de entrevistas, margem de erro e tipo de pergunta fazem diferença. E, para entender tendência, o mais seguro é acompanhar a série histórica de um mesmo instituto. Comparar institutos diferentes como se fossem equivalentes costuma levar a conclusões precipitadas.

Por que o resultado de uma pesquisa pode diferir do que sai da urna?

Porque intenção de voto não é voto confirmado. Uma parte dos eleitores decide na reta final ou na própria cabine. Há também quem não declare sua preferência ao entrevistador, fenômeno que já produziu surpresas recentes. Além disso, eventos de última hora podem alterar o cenário entre a coleta e a votação.

O que a história das pesquisas no Brasil mostra sobre seus acertos e erros? Dá para confiar?

O histórico mostra que, nas eleições presidenciais, pesquisas feitas perto da votação acertam o vencedor desde 1989. O que varia é a margem e, em alguns anos, varia bastante. Houve subestimações e movimentos tardios que surpreenderam. A conclusão equilibrada é: pesquisas são boas para indicar direção e favoritismo, mas não para cravar números exatos, especialmente em disputas apertadas.

Afinal, pesquisa eleitoral prevê o futuro ou é só uma fotografia do presente?

Pesquisa registra o momento. Ela mede a intenção de voto no dia da coleta, não o que acontecerá na urna. Por isso os institutos falam em “retrato do momento”. É uma ferramenta útil para acompanhar tendências, mas não substitui o comportamento real do eleitor no dia da eleição.

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