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Geopolítica

O que esperar das operações dos EUA “em terra” contra o narcotráfico na América Latina?

O chefe do Pentágono anunciou planos para operações americanas nos territórios dos países latinos

O que esperar das operações dos EUA “em terra” contra o narcotráfico na América Latina?

O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, afirmou recentemente que os Estados Unidos planejam começar ataques em terra contra narcotraficantes na América Latina. Esse tipo de atividade já acontece em águas internacionais, mas agora a intenção seria seguir com ataques nos territórios dos países.

Hegseth disse ainda que essas organizações são um alvo onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano, comparando as procedências tomadas contra o Estado Islâmico ou a Al Qaeda.

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Esse projeto não é uma novidade. Os planos de operações antidrogas terrestres fazem part da estrutura de uma aliança de 19 países liderada pelo presidente americano, Donald Trump, mas poderão ser ampliados em qualquer país que operem grupos do narcotráfico.

Os ataques também não seriam inéditos. Já ocorreram algumas ações de Estados Unidos na América Latina, especialmente nas águas internacionais no Caribe. Já houve também a intervenção em Venezuela com a extração do presidente Nicolás Maduro — que está preso nos EUA desde janeiro deste ano.

Do ponto de vista de um interesse de ampliar a possibilidade de atuação efetiva de membros das Forças Armadas e de Seguridade dos EUA na América Latina, o professor Dr. Junior Ivan Bourscheid, do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (ILAESP) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), explica que a medida anunciada representa uma forte ameaça aos países latinos, especialmente em relação as suas soberanias diante o território e do próprio monopólio do uso legítimo da força dentro dos seus territórios.

Os efeitos de possíveis ataques americanos contra a América Latina

Segundo o especialista, os efeitos dessa operação vão depender de qual governo latino está alinhado às posturas do governo de Donald Trump.

“Aqui podemos mencionar a iniciativa a partir do próprio governo dos Estados Unidos de instituição do chamado Escudo das Américas, que reúne governos da América Latina alinhados com as posturas do governo de Trump e que trabalham muito com essas perspectivas de segurança e de securitização de outros temas, especialmente temas internos como uma securitização internacional com a possibilidade e a abertura de parcerias que na verdade representam a possibilidade de intervencionismo dos Estados Unidos nesses países”, comenta Bourscheid.

Por exemplo, a Argentina de Javier Milei, o Chile de José Antônio Kast, a Bolívia de Rodrigo Paz, a Colômbia de Abelardo de la Espriella, ou mesmo o Paraguai do Santiago Peña são governos muito alinhados com a perspectiva dos Estados Unidos nesse sentido. Dessa forma, se ocorrerem ações nesses países, do ponto de vista desses governos, provavelmente serão consideradas ações bem-vindas.

Por outro lado, governos como o Brasil e o México, Cuba, Nicaragua, Uruguai, Guiana e Suriname, não devem ver a medida com bons olhos. Esses países tendem a enxergar a operação como um ataque à soberania e gerar maiores discussões diplomáticas.

Países latinos não possuem a mesma força

O professor indica que, até o momento, as informações dos EUA indicam que as ações seriam pontuais, com forças restringidas e não uma grande invasão por terra.

Para ele, os efeitos de “resposta” dos países latinos iam depender muito do governo de cada uma dessas nações.

“Sabemos que quando comparamos a capacidade militar dos EUA com a capacidade militar dos países latino-americanos, em geral, é uma diferença muito grande. Poderíamos falar que por capacidade de recursos e tamanho de forças que obviamente Brasil, México, Argentina e Colômbia seriam países que poderiam ter uma capacidade um pouco maior de ‘resistência’ em relação a isso. Mas na Argentina se ocorrer alguma intervenção nesse sentido Javier Milei provavelmente vai estar muito tranquilo com relação a isso e vai respaldar do mesmo modo se acontecer na Colômbia”, comenta.

É o início de uma guerra?

O especialista expressa que indicar a situação como uma possibilidade de guerra — comercial ou militar — é uma afirmação apressada. Afinal, o Brasil já sofreu choques de embargos com os EUA e conseguiu reverter o cenário.

Outros embates aconteceram com as demais nações da América Latina e isso não significa que é o início de um conflito pesado com necessidade de retaliação.

“Todas essas ações elas estão sendo muito mais ações de governos pontuais do que aparentemente uma política de estado do ponto de vista de intervencionismo. Até historicamente o intervencionismo dos EUA na América Latina faz parte, mas ele não acontece apenas do ponto de vista militar, ele acontece com pressões políticas à possibilidade de intervenção em processos eleitorais, por exemplo, e acontece principalmente do ponto de vista econômico não só com esta questão das sanções, mas com a interferência de atores econômicos estadunidenses na Latam. Então tudo vai depender do governo que esteja no poder”, reforça.

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