A possível invasão russa ao território ucraniano traria enormes consequências não só para os países envolvidos, como também para a Europa e outros territórios. Somos inclinados naturalmente a observar de cara os impactos militares, no entanto, existe toda uma série de impactos e eventos que poderiam se desencadear caso a invasão de fato ocorra.

A Ucrânia tem uma importância vital para a Europa e para diversos países no mundo por conta de sua produção de trigo e de outros grãos. Em 2020 exportou mais de 18 milhões de toneladas de trigo para inúmeros países. Além de China e União Europeia, dois clientes importantes da produção de trigo ucraniana, há outros países onde o impacto no desabastecimento traria consequências ainda mais impactantes, dadas as dificuldades que enfrentam.

Aproximadamente 43% do trigo ucraniano tem a Líbia como destino, enquanto 22% são destinados ao Iêmen. São dois países com graves problemas de instabilidade interna. O Iêmen, por exemplo, vive uma guerra civil intensa onde, por meio de proxies, Irã, Arabia Saudita e Emirados Árabes Unidos disputam influência em um país devastado. 28% do trigo consumido na Malásia e na Indonésia também são oriundos da Ucrânia. Bangladesh, 21%, e Líbano, 35%, também são dois Estados dependentes.

Levando em consideração que Líbia, Iêmen e Líbano estão em momentos complicados na busca por estabilidade política e institucional, um desabastecimento seria desastroso, impedindo qualquer esforço de recuperação, mesmo mínimo que fosse. Além disso, esses três países são focos de instabilidades que extrapolam suas fronteiras, trazendo mais riscos para a geopolítica global. O Líbano é lar do Hezbollah, principal “posto avançado” das operações iranianas contra Israel, em um momento onde o programa nuclear iraniano chegou a um marco nunca antes atingido. O Iêmen estressa as relações entre Irã e Arabia Saudita, enquanto uma crise alimentar na Líbia poderia levar milhares de refugiados a tentar, mais uma vez, a perigosa travessia através do Mediterrâneo até a Europa.

Uma invasão russa começaria pelo leste da Ucrânia, justamente onde se encontram as principais plantações de trigo e milho. Dificilmente uma operação militar envolvendo embate com as tropas ucranianas não afetaria a infraestrutura de funcionamento e escoamento dessas produções. O primeiro impacto seria um forte aumento no preço do milho e um maior ainda no preço do trigo, gerando um efeito dominó e colocando mais pressão na produção de outros países, como Brasil e Argentina. A União Europeia e a China disputariam a produção desses países, fazendo com que o preço de qualquer produto à base de trigo viesse a aumentar nos dias subsequentes a uma invasão.

Uma crise alimentar no Iêmen colocaria mais pressão no Irã e na Arábia Saudita, podendo elevar o grau do combate no país. No Líbano, uma crise nesse sentido enfraqueceria um governo já fraco, abrindo espaço para demandas e pressões maiores por parte do Hezbollah, gerando um mar de incertezas em Israel e consequentemente diminuindo sua paciência em relação ao Irã. Na Líbia, a ausência de trigo poderia levar a uma nova onda de migrações em direção à Europa.

Como nem só de pão vive o homem, o impacto de um aumento no preço do combustível aceleraria outras crises em focos do planeta que já estão em condições pra lá de precárias.


Autor

  • Jornalista brasiliense formado pela Universidade de Brasília (UnB). Tem passagem como repórter pelo Correio Braziliense, Rádio CBN e Brasil61.com. No site O Brasilianista cobre economia e política.