Pesquisas revelam desencanto com a política, não desinteresse


Duas pesquisas recentes sobre as eleições presidenciais, do Datafolha e da XP/Ipespe, reforçam o distanciamento dos eleitores em relação ao pleito de 7 de outubro. Os baixos índices no voto espontâneo e os altos percentuais de rejeição indicam, mais do que desinteresse, o desencanto com a política.

Alguns indicadores destas pesquisas apontam para esta conclusão. Apurados em junho, os levantamentos trazem impressões recentes dos eleitores.

A manifestação espontânea, sem a apresentação de um cartão com os nomes dos presidenciáveis, converge em ambas. A soma dos que não sabem, nulos e brancos totaliza 69% no Datafolha.

No Ipespe, este percentual é de 65%. Considerando o histórico das eleições de 2015 para cá, razoável concluir que pelo menos 90 milhões de eleitores não votariam em ninguém se o sufrágio fosse hoje – e se o voto não fosse obrigatório.

Grosso modo, consideradas as margens de erro de ambas (2 e 3,2 pontos percentuais), 7 em cada 10 eleitores não se interessam por nenhum candidato. Poderia ser apenas desconhecimento, mas não é o que parece.

Ao perguntar o grau de interesse nas eleições, o Ipespe levantou 68% de respostas positivas. 28% dos entrevistados estão muito interessados, 20%, mais ou menos, e 20%, um pouco.

Lógica do paternalismo

Outro dado expressivo do desencanto, e não do desconhecimento, veio na pergunta que afere o grau de convicção do eleitor. Tomemos os dois candidatos mais bem pontuados como exemplo.

Lula, conhecido por praticamente todos os brasileiros, soma 99% de manifestações. 60% não votariam nele, 11% poderiam votar & 28% certamente votariam.

Bolsonaro atinge índices igualmente reveladores do discernimento eleitoral. 52% não votariam nele, 12% poderiam votar & 20% certamente votariam.

Os índices de rejeição do Datafolha e do Ipespe, ao contrário de outros indicadores, diferem bastante.

O Datafolha indica que Lula é rejeitado por 36% dos eleitores, enquanto Bolsonaro, por 32%. No Ipespe, como se viu acima, os índices saltam para 60% (Lula) e 52% (Bolsonaro).

Na outra ponta, João Goulart Filho, João Amoêdo e Afif Domingos, com 10% cada, são os menos rejeitados, segundo o Datafolha. João Amoêdo (34%), Flávio Rocha (36%) e Guilherme Boulos (41%) têm o menor grau de rejeição, de acordo com o Ipespe.

Ora, se há rejeição há manifestação política.

Rejeitar a todos ou não ter preferência espontânea por nenhum nome é uma forma de participação política – diferente dos que sustentam que, quem não vota, não participa da política. Em boa parte dos países desenvolvidos, onde não há obrigatoriedade, metade da população não vota.

No Brasil, divulgam-se há muito teorias ramificadas da velha máxima-síntese “o brasileiro não sabe votar”. Trata-se de isentar o eleitor pelas atitudes dos eleitos. É a lógica do paternalismo: quando o mandatário é bom, mérito do eleitor; quando é mau, culpa do eleito.

Meliantes do erário

Assim como a rejeição tende a ser um indicador consistente, a manifestação espontânea contém ingrediente de convicção arraigada. Noves fora as bobagens perpetradas durante a campanha eleitoral, este contingente tende à fidelidade.

No Datafolha, Lula é escolhido espontaneamente por 10% e Bolsonaro, por 12%. Os entrevistados do Ipespe registraram 13% (Bolsonaro) e 12% (Lula).

Viradas e arrancadas fazem parte do calendário eleitoral brasiliano, como já evidenciado no Blog da Política Brasileira. Basta clicar aqui e ler artigo recente [http://blogdapoliticabrasileira.com.br/por-enquanto-espontanea-e-rejeicao-e-o-que-interessa-nas-pesquisas/].

Fato, leitor, que Donald Trump e Emmanuel Macron eram improváveis mandatários. Hoje, governam EUA e França, duas das maiores potências econômicas e bélicas do mundo.

A licenciosidade dos políticos, que se nivelam ao rés da moral da vida pública, aliada à esperteza geral da Nação, produziu o quadro que ora vivenciamos, de deterioração moral e econômica. Como vivemos há 33 anos numa democracia plena, somos o produto de nossos sufrágios.

Ou o eleitor se movimenta e muda o rumo dessa prosa depressiva, ou chancela mais do mesmo. Nesta segunda opção, persevera a alimentar os meliantes do erário que nos governam faz tempo.

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