Em entrevista à CNN,Murillo de Aragão, cientista político e CEO da consultoria de risco Arko Advice, afirmou que a tentativa de violação da tornozeleira eletrônica por Jair Bolsonaro (PL) representa um claro divisor de águas dentro do processo judicial que levou à sua prisão preventiva.
Segundo ele, o episódio cria um “antes” e um “depois” da ruptura do equipamento, mudando radicalmente a leitura sobre a necessidade da medida adotada pelo ministro Alexandre de Moraes.
De acordo com Aragão, até então havia, sim, espaço para questionamentos quanto a um eventual excesso na decretação da prisão preventiva, mas a confissão do ex-presidente, que admitiu ter usado um ferro de solda para mexer no equipamento, altera totalmente este cenário.
Confissão reforça tese de risco de fuga
Ao assumir a tentativa de violar a tornozeleira, Bolsonaro fortaleceu a narrativa de que haveria risco de fuga, argumento que também foi associado a outros fatores, como a convocação de uma vigília em frente ao condomínio do ex-presidente, organizada por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Segundo ele, a decisão de Moraes passou a ser vista não de forma isolada, mas como resposta a um conjunto de episódios que, unidos, justificariam a medida mais dura. “O ministro Alexandre de Moraes linka o fato com outros episódios, como a vigília convocada por Flávio Bolsonaro e o risco de fuga”, explicou.
Episódio abala confiança até entre apoiadores
Para o cientista político, o episódio vai além das implicações jurídicas e passa a gerar um desgaste dentro do próprio campo bolsonarista às vésperas da eleição 2026, abrindo espaço para dúvidas sobre liderança, discernimento e confiabilidade, inclusive entre apoiadores mais fiéis.
Aragão também chama atenção para o reflexo político do episódio. Segundo ele, embora a direita precise do eleitorado bolsonarista nas próximas eleições, o caso pode acentuar uma fragmentação interna que já existe, sobretudo na ala mais moderada do centro-direita.
Fragmentação na Direita
Ele entende que a a divisão da direita já uma realidade e observa ainda que nomes, como o do governador Tarcísio de Freitas, seguem sendo especulados no cenário nacional, intensificando essa racha que já se manifesta por meio de diversos pré-candidatos.
Mas o ponto-chave, segundo Aragão, está no eleitorado de centro, aquele que não se identifica plenamente nem com a direita e nem com a esquerda, e que se mostra decisivo nas disputas eleitorais.
“Esse foi o eleitor que derrotou o PT em 2018 e que derrotou o Bolsonaro em 2022. Esses são os que decidem”, acrescentou.
Reflexos no Congresso e avanço do PL da Dosimetria
Na avaliação de Murilo, a situação também aumenta a pressão sobre o Congresso, especialmente em torno do chamado PL da Dosimetria, que pode ganhar mais destaque nas próximas semanas.
Paralelamente, alas mais alinhadas ao bolsonarismo podem intensificar a obstrução parlamentar, afetando votações importantes para o governo, como seus orçamentos.
A família Bolsonaro
A possibilidade de uma candidatura presidencial de Michelle Bolsonaro continua em voga, já que a ex-primeira-dama mantém um ativo relevante, especialmente diante do eleitorado evangélico e feminino.
Porém, para Murillo, o seu capital político segue sendo construído em outra direção. “O governo teme uma chapa Tarcísio e Michelle, ele acha que vai ser muito forte. Agora, está em aberto”, avalia Aragão.
Para Aragão, o episódio da tornozeleira pode alterar completamente o tabuleiro político, abrindo espaço para articulações antes vistas como secundárias.

