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América Latina ignora Haiti em meio à crise humanitária – Análise

Os esforços dos Estados Unidos e das Nações Unidas para convencer países como Brasil e Chile a se unirem à nova missão têm sido infrutíferos

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A crise em Haiti atingiu um novo ponto crítico em março deste ano, quando as duas maiores prisões do país foram esvaziadas por gangues armadas, libertando centenas de prisioneiros. Em meio ao caos, uma força multinacional liderada pelo Quênia está prestes a chegar ao país caribenho para tentar restaurar a ordem. No entanto, é notável a ausência de países latino-americanos nesta coalizão, apesar dos discursos frequentes sobre solidariedade regional.

crise humanitária

Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

A Missão Multinacional de Apoio à Segurança de Haiti contará com 2.500 policiais e soldados, sendo 1.000 provenientes do Quênia, além de tropas de Bangladesh, Benin, Chade, Jamaica, Bahamas e Barbados. O financiamento, estimado em 300 milhões de dólares, será majoritariamente custeado pelos Estados Unidos. Essa intervenção é amplamente desejada pelos haitianos, que enfrentam uma situação desesperadora: mais de 2.500 pessoas foram mortas ou feridas por gangues nos primeiros três meses deste ano, e mais de 360.000 foram deslocadas nos últimos três anos.

Este evento, por sua vez, reabre discussões sobre o legado deixado pela Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), que foi liderada pelo Exército Brasileiro ao longo de 13 anos. Inicialmente planejada para durar apenas seis meses, a Missão permaneceu no país de 2004 a 2017. Durante esse período, mais de 30 mil militares atuaram, destacando-se a abordagem brasileira de pacificação, que supostamente enfatizava questões sociais em detrimento de abordagens puramente militares.

Os esforços dos Estados Unidos e das Nações Unidas para convencer países como Brasil e Chile a se unirem à nova missão têm sido infrutíferos. Mesmo com a experiência significativa do Brasil em missões de paz em Haiti, como a liderança da MINUSTAH entre 2004 e 2017, há uma relutância em enviar tropas novamente. O temor de uma reação negativa interna e a sensação de que os esforços anteriores não foram devidamente reconhecidos internacionalmente são algumas das razões apontadas.

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Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Apenas Argentina e El Salvador tomaram medidas para contribuir com a situação haitiana. A Argentina apresentou um projeto de lei para enviar até 200 policiais e militares, que ainda aguarda aprovação no Congresso, enquanto El Salvador prometeu enviar helicópteros de evacuação médica. No entanto, a maioria dos países da América Latina continua indiferente ao apelo de ajuda.

A negligência da América Latina em relação à crise em Haiti não é apenas uma questão de solidariedade, mas também de autoproteção. Com as gangues tomando controle, o país pode se tornar um refúgio para grupos criminosos transnacionais, afetando a segurança de toda a região. A assistência a Haiti deveria ser uma prioridade estratégica e humanitária para seus vizinhos latino-americanos.

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