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A cadeira de Lira – Análise

A interpretação de lideranças é que Lira adotou o estilo mais bélico como um lembrete ao governo de que ainda tem nas mãos o poder de agenda

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Em meio a bravatas e ameaças, a crise desta semana entre o governo e o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), trouxe à superfície a campanha pela cadeira de presidente da Casa. No PT, certas alas fomentam o embate como forma de enfraquecer a influência de Lira na própria sucessão. Já outras, tentam apagar o incêndio e evitar que 2024 se torne um ano de derrotas para o presidente Lula (PT) no Congresso Nacional. A interpretação de lideranças é que Lira adotou o estilo mais bélico como um lembrete ao governo de que ainda tem nas mãos o poder de agenda, que desafios não passarão sem troco e que há potencial para endurecer ainda mais o jogo.

Lira

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

O embate deve gerar influência sobre a corrida sucessória. A avaliação de parlamentares ouvidos pela Arko é de que a crescente indisposição de Lira com o governo tem se transmitido para um dos candidatos mais próximos do atual presidente, o líder do União Brasil, Elmar Nascimento (BA). Embora tenha potencial para herdar o capital político de Lira, o parlamentar é muito criticado nos bastidores por seu estilo pessoal, que, em alguns momentos, se assemelha ao do atual mandatário. Quem se incomoda com as interpretações regimentais do atual presidente, que concentrou poder nas próprias mãos ao enfraquecer as comissões da Casa, vê as semelhanças no estilo dos dois como um indicativo ruim de continuidade. “O governo vai ter que decidir se vai querer uma coleira no pescoço”, disse à Arko uma liderança do Centrão sobre o eventual apadrinhamento de Elmar por Lira. Além disso, com Davi Alcolumbre (União) como favorito à presidência do Senado, o partido perde força na campanha pela presidência da outra Casa.

O governo continua considerando um cenário improvável o lançamento de um deputado do próprio PT, ideia que desperta traumas antigos, como o enfrentamento feito ao presidente da Câmara Eduardo Cunha que contribuiu para a queda da então presidente, Dilma Rousseff (PT), em 2016. Agora o Planalto busca um candidato com perfil mais pacificador e nomes como o de Marcos Pereira (Republicanos) e Antônio Brito (PSD) ganham tração. Ainda assim, são candidatos citados com ressalvas por certas alas de deputados. Pereira, pela ligação com a igreja evangélica neopentecostal, o que desagrada aos petistas mais ideológicos, mas também por já estar em campanha aberta pelo cargo, o que mobiliza mais fortemente a oposição a ele, inclusive de Lira. Já Brito recebe críticas da oposição por assumir posturas demasiadamente governistas. Críticas semelhantes às feitas a Isnaldo Bulhões (MDB-AL), que tem desempenhado um papel de articulador governista e por isso já é classificado por Lira como carta fora do baralho, segundo pessoas próximas. No mais, o fato de uma eventual eleição de Brito provocar impacto indireto na vida política do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que tem o presidente do PSD, Gilberto Kassab, como secretário estadual e padrinho político, também pode se transformar em ressalva dos lulistas. Isso porque Gilberto Kassab planeja promover Tarcísio e, em troca, pegar carona no crescimento do governador.

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 Tarcísio de Freitas –  Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

É inegável que Lira ainda exercerá enorme influência sobre a escolha de seu sucessor. Mas, nesse cenário confuso, em que o atual detentor do cargo não tem um candidato publicamente declarado e diversos deputados “correm por fora”, ainda há espaço para reviravoltas. Não seria de espantar se outros nomes pouco citados como possibilidades apresentassem um crescimento repentino nas apostas dos deputados. Um deles, surgido recentemente, é o de Hugo Motta, líder do Republicanos. Ele seria um nome do círculo próximo do próprio Lira e sofreria menos resistência por parte da esquerda do que Elmar Nascimento e Marcos Pereira.

Importância do pleito

Como a eleição para a presidência da Câmara ocorre a cada dois anos, o próximo presidente da Casa será o detentor do poder de agenda na Câmara nos dois últimos anos do governo Lula, o que possivelmente deve incluir o controle sobre matérias como a Reforma do Imposto de Renda. O eleito no começo de 2025 também será o dono da cadeira durante as eleições municipais de 2026, tendo potencial para destacar ou esconder as pautas do governo. Sem contar a negociação de emendas parlamentares, essenciais para o desempenho eleitoral dos parlamentares.

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