Eduardo Fayet, que se apresenta em seu perfil no LinkedIn como vice-presidente Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), entidade da qual foi presidente do conselho deliberativo, é acusado de ter assediado moralmente mulheres que trabalham ou trabalharam na Abrig.
O Brasilianista conversou com vítimas dos comportamentos de Fayet e testemunhas que presenciaram atos que consideraram exagerados. Os nomes não serão divulgados para preservar os denunciantes.
Eduardo Fayet nega todas as acusações com veemência. Diz que nunca "ter praticado assédio, humilhado profissionais". (Leia a íntegra da manifestação no fim desta reportagem)
A Abrig diz que não recebeu denúncias formais, que "não tolera qualquer forma de assédio, discriminação ou desrespeito e reafirma seu compromisso com um ambiente de trabalho ético, seguro e respeitoso". (Leia a íntegra da manifestação no fim desta reportagem)
Problema familiar
Um dos casos citados por testemunhas ouvidas por O Brasilianista envolveu um problema familiar vivido por uma funcionária da Abrig. Um dos parentes dessa vítima adoeceu durante uma campanha de marketing da instituição que representa os lobistas.
Ao longo da execução do projeto, essa funcionária teve que se afastar, pois seu parente faleceu. Em meio a esse turbilhão emocional, enquanto estava afastada do trabalho, a mulher teria sido cobrada aos gritos por Fayet para entregar resultados.
A cobrança, segundo as pessoas ouvidas, teria sido motivada por um atraso nos prazos dos serviços solicitados à comunicação da Abrig. Uma das fontes afirmou que Fayet disse aos berros que problemas familiares não são problema dele e que, se estivesse em um cargo oficial da Abrig, provavelmente já teria sido tirado do cargo por culpa da demora dos funcionários.
"Vocês são incompetentes", teria dito Fayet à equipe de comunicação, segundo uma testemunha que presenciou o fato.
Pressões

As testemunhas e vítimas ouvidas afirmaram que as pressões de Fayet eram mais rotineiras com a equipe de comunicação da Abrig. Segundo essas fontes, o lobista costumava repetir o questionamento retórico "vou ter que te ensinar a fazer o seu trabalho" quando estava insatisfeito.
Um desses momentos teria acontecido no fim de 2024 ao longo da preparação do Prêmio Marco Maciel, que homanegeia os melhores lobistas do ano e pessoas que apoiam a área de Relações Governamentais e Institucionais.
De acordo com uma vítima, Fayet queria o evento com o máximo possível de jornalistas. Quando viu que 13 profissionais de imprensa tinham comparecido, virou as costas às pessoas ligadas à mídia e cobrou mais empenho da comunicação.
Mas essa cobrança, segundo as fontes ouvidas, não foi amena, assim como em outras ocasiões em que Fayet teria feito questão de aparecer na imprensa. Entre fevereiro e março de 2025, o lobista, após ter concedido uma entrevista ao portal Poder360, passou a cobrar a comunicação aos gritos.
A cobrança, segundo fontes, teria sido motivada pela suposta demora das funcionárias em fazer cortes de trechos das falas de Fayet que seriam publicados nas redes sociais da Abrig.
"Não conseguia mais trabalhar com o Fayet", disse à reportagem uma das mulheres que viveu esse episódio, complementando que as cobranças eram ainda piores quando o lobista tomava cafés com jornalistas e esses profissionais não publicavam nada sobre ele.
Burnout
Uma das vítimas ouvidas por O Brasilianista afirmou ter sido diagnosticada com Burnout enquanto trabalhava com Fayet. Ela afirmou que não lembra o que fez ao longo de dois dias seguidos devido à exaustão.
Segundo essa vítima, Fayet foi o motivo dela ter trocado de trabalho. "Aquele lugar me adoecia", diz a mulher, relatando ainda que chegou a ter crises de ansiedade antes de reuniões com o lobista.
A vítima relatou ainda uma reunião em que Fayet foi ríspido com uma funcionária da Abrig ao cobrar a entrega de projetos. Após esse episódio, diz a fonte, essa mulher deixou de participar de conversas com o lobista, que teria classificado-a de "mimizenta" num encontro posterior, justamente por sua ausência.
Os comentários feitos nessa reunião, segundo as fontes ouvidas, teriam sido registrados pela palataforma de transcrição usada nos encontros profissionais da Abrig, mas teriam sido apagados a mando de Fayet.
Uma mulher que trabalhou na Abrig em diversos cargos ao longo de mais de 5 anos relatou ter abandonado a labuta na entidade por causa de Fayet, porque "foi muito traumático tudo o que vivemos com ele", complementando que outras mulheres pediram demissão pelo mesmo motivo.
Essa vítima afirmou ainda que ela e outras mulheres não denunciaram Fayet por medo de retaliação e de culpabilização após a apresentação da denúncia. Outra ex-funcionária da Abrig afirmou que deixou o emprego por causa do lobista, após perceber como ele tratava seus então colegas.
Uma testemunha, que trabalhou na Abrig há anos, classificou a conduta de Fayet como péssima. "Era uma pessoa que não tinha trato. O ambiente que ele implantava era muito ruim. Insalubre. Os gritos eram sempre destinados a mulheres subordinadas a ele. Com os homens, o tratamento era sempre bom", disse.
Após esses episódios, a comunicação da Abrig passou a ser feita por dois homens. Segundo as vítimas e testemunhas ouvidas, o modelo que vigora até hoje isso ajudou a melhorar o ambiente dentro da Abrig.
Aparência
A maioria das vítimas afirmou à reportagem que Fayet, num primeiro momento, parece ser uma pessoa de fácil trato. Porém, todas dizem que o convívio diário destrói essa imagem, tanto que relataram que ao menos duas profissionais se demitiram da Abrig por causa do lobista.
Um dos motivos para essa mudança de visão, segundo testemunhas, são comentários feitos por Fayet sobre o corpo de algumas mulheres. As pessoas ouvidas pela reportagem afirmaram que o lobista já classificou mulheres como "bonita", "gostosa", "inteira".
As fontes afirmam que esses comentários, mais alguns convites feitos por Fayet a mulheres, para reuniões em cafés nos arredores da Abrig, levantaram suspeitas em funcionários da associação dos lobistas.
"Isso não era comum de acontecer na empresa, e as mulheres se sentiam desconfortáveis", afirmou uma das fontes, dizendo também que nenhum outro integrante da gestão da Abrig fazia esses tipos de convite.
Todas as pessoas ouvidas foram questionadas se presenciaram ou foram vítimas de eventual assédio sexual praticado por Fayet. A resposta foi unânime: não.
Cansaço
Dentre os relatos ouvidos pela reportagem há menções a jornadas extenuantes exigidas por Fayet. Segundo uma ex-funcionária da Abrig, o lobista fazia cobranças "fora do normal, inclusive depois do horário de trabalho".
De acordo com essa vítima, Fayet exigia as entregas das tarefas independente do horário, inclusive de madrugada. Ainda segundo essa fonte, ele organizava reuniões depois das 21h com o argumento: "Preciso disso para hoje".
Essa exigência fazia com que os trabalhadores ficassem na associação dos lobistas até entregarem o que tinha sido solicitado por Fayet, afirmam as pessoas ouvidas por O Brasilianista.
Mesmo com essas reuniões até tarde da noite, segundo vítimas e testemunhas, era obrigatória a presença dos trabalhadores nas primeiras horas do horário comercial do dia subsequente.
Outro lado
Eduardo Fayet foi procurado pela reportagem para esclarecer os fatos às 8h30 de 14 de outubro deste ano. Respondeu 4h e 6min depois, pedindo que o prazo inicial de 24h para manifestação fosse prorrogado até a sexta-feira (16). Foi prontamente atendido.
O lobista enviou sua manifestação por e-mail às 20h36 de 16 de outubro, negando todas as acusações citadas nesta reportagem. No texto enviado à reportagem, também fez "uma advertência jurídica expressa".
Segundo Fayet, "a liberdade de imprensa convive com a proteção constitucional da honra e da imagem e com o direito de resposta" e a "gravidade dessas imputações exige rigor na apuração, preservação do contexto e distinção clara entre alegações e fatos efetivamente verificados".
Leia a íntegra da manifestação de Eduardo Fayet:
As acusações que me foram encaminhadas são falsas. Nego expressamente ter praticado assédio, humilhado profissionais ou utilizado minha posição na Abrig para constranger mulheres.
Também são falsas as afirmações sobre comentários sexualizados e sobre uma suposta ordem minha para apagar registros de reunião. São imputações graves, que atingem minha honra e minha trajetória profissional.
Por essa razão, respondo de forma direta aos comportamentos que me foram atribuídos. Não submeti mulheres ou homens a gritos, intimidação ou tratamento humilhante na Abrig ou em eventos.
Nego ter dirigido a uma funcionária, aos berros, a frase reproduzida em sua mensagem. Rejeito a descrição de que minha atuação profissional tenha sido marcada por hostilidade ou desqualificação pessoal.
Não exigi que profissionais afastadas por questões pessoais trabalhassem durante seus afastamentos, nem utilizei situações de vulnerabilidade para pressioná-las. A narrativa apresentada a esse respeito não corresponde à minha conduta.
Quanto aos cafés fora da sede, rejeito a insinuação de finalidade imprópria. Não utilizei convites para constranger colaboradoras, obter aproximação íntima ou condicionar relações profissionais a interesses pessoais.
A referência ao local de uma conversa não esclarece seu contexto e não demonstra, por si, o comportamento abusivo que se pretende atribuir a ela.
Nego, igualmente, ter feito os comentários sexualizados sobre o corpo de mulheres mencionados em sua mensagem. Essas afirmações não correspondem a comportamentos que tenha praticado. Também nego as exigências de trabalho fora do expediente descritas na apuração.
Não determinei a sequência de jornadas apresentada nas perguntas, com reuniões encerradas depois das 22h e imposição de comparecimento cedo no dia seguinte. Referências a horários, contatos ou reuniões precisam retratar as circunstâncias efetivas e o conteúdo das determinações que me são atribuídas.
Relatos de ansiedade, esgotamento e outros problemas de saúde merecem respeito e tratamento responsável. Contesto a afirmação de que tenha provocado esses quadros por meio das condutas descritas, assim como rejeito que desligamentos sejam apresentados como consequência de práticas de assédio que não cometi.
A acusação de supressão de registros exige uma resposta igualmente inequívoca: não solicitei, determinei ou orientei que menções a acusações de assédio fossem apagadas dos registros de reunião. A imputação de que teria ordenado esse apagamento é falsa.
Respeito o trabalho da imprensa e a seriedade com que relatos de assédio devem ser tratados. Essa seriedade exige precisão também em relação à pessoa acusada.
Registro, por fim, uma advertência jurídica expressa. A liberdade de imprensa convive com a proteção constitucional da honra e da imagem e com o direito de resposta, nos termos dos arts. 5º, V e X, e 220, § 1º, da Constituição Federal.
A gravidade dessas imputações exige rigor na apuração, preservação do contexto e distinção clara entre alegações e fatos efetivamente verificados. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento das ADIs 6.792 e 7.055, assentou que a responsabilização civil da imprensa, em matérias sobre pessoas públicas ou assuntos de interesse social, pressupõe dolo ou culpa grave.
Publicar conscientemente informação falsa ou atuar com evidente negligência profissional na apuração pode gerar o dever de reparar os danos causados, à luz dos arts. 186, 187 e 927 do Código Civil, conforme os parâmetros fixados pelo STF.
A reprodução de relatos de terceiros não afasta, por si, o dever de cuidado jornalístico. Se houver divulgação ofensiva em desacordo com esses parâmetros, adotarei as medidas cabíveis para a reparação dos danos demonstrados.
Exercerei também, presentes os requisitos legais, o direito de resposta ou retificação, gratuito e proporcional ao agravo, previsto na Lei nº 13.188/2015. Solicito que minha manifestação seja considerada na apuração e retratada com fidelidade, especialmente quanto à negativa expressa das condutas atribuídas.
Na esfera penal, a falsa imputação de fato determinado definido como crime e a atribuição de fato ofensivo à reputação serão avaliadas à luz dos arts. 138 e 139 do Código Penal, relativos à calúnia e à difamação.
Demonstrados os elementos legais de cada conduta, inclusive o propósito de ofender, adotarei as medidas penais cabíveis. A defesa da minha honra será exercida com firmeza, pelos instrumentos previstos em lei. Quanto mais grave a imputação, maior o dever de rigor na apuração e de fidelidade na publicação.
A Abrig também se manifestou. Disse que o que "Fayet não integra a Diretoria da Abrig e não exerce qualquer cargo, função de gestão ou de representação institucional na entidade".
Ainda de acordo com a entidade que representa os lobistas, "não cabe à Abrig responder em nome de terceiros, devendo tais questionamentos ser endereçados diretamente ao interessado".
Leia a íntegra da nota enviada pela Abrig:
A Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), em atenção aos questionamentos encaminhados pela imprensa, esclarece:
1. O senhor Eduardo Fayet não integra a Diretoria da Abrig e não exerce qualquer cargo, função de gestão ou de representação institucional na entidade.
2. As perguntas encaminhadas foram dirigidas pessoalmente ao senhor Eduardo Fayet e tratam de condutas a ele atribuídas. Não cabe à Abrig responder em nome de terceiros, devendo tais questionamentos ser endereçados diretamente ao interessado.
3. A Abrig não tolera qualquer forma de assédio, discriminação ou desrespeito e reafirma seu compromisso com um ambiente de trabalho ético, seguro e respeitoso.
4. Não há registro, nos canais institucionais da entidade, de denúncia formal relacionada aos fatos mencionados, inclusive no período em que o senhor Eduardo Fayet integrou a Diretoria. Esses canais permanecem abertos, e qualquer relato recebido será tratado com seriedade, sigilo e proteção às pessoas envolvidas.
A Abrig permanece à disposição para prestar os esclarecimentos que lhe digam respeito.

