Banco Master e empresas relacionadas à Ambipar supostamente usaram empresas e estratégias semelhantes que causaram as crises nas empresas.
Uma investigação da Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero realizou, em janeiro deste ano, uma busca e apreensão na casa de Luciana Barca Nascimento, em São Paulo, apreendendo um iPhone e um MacBook identificados como patrimônio da empresa. Barca é diretora da Everest Empreendimentos e Participações, empresa que pertence a Tércio Borlenghi Jr., controlador da Ambipar — e ela própria é diretora-adjunta da Ambipar, onde trabalha há mais de dez anos.
Na ocasião, a Everest despertou suspeitas porque, tendo apenas R$ 15 mil de capital, emitiu R$ 700 milhões em debêntures em setembro de 2024, todas compradas pelo fundo Máxima, cujo cotista era o Banco Master.
Reportagem do Valor mostrou que, para os investigadores, isso ocorreu em "condições que indicam ausência de justificativa econômica", sugerindo que era somente um mecanismo para fazer o dinheiro do Master circular.
A PF ainda observa que esse é um padrão mais amplo: o Master teria usado empresas, fundos e securitizadoras para escoar recursos captados via CDBs com juros muito acima do mercado, direcionando-os a fundos e debêntures de baixa liquidez e com preços artificialmente inflados. O resultado dessas operações foi o rombo bilionário de ao menos R$ 50 bilhões no Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Barca disse à PF que nunca trabalhou de fato para a Everest e que assinava documentos "sem conhecimento real" do que fazia.
A conexão com a crise da Ambipar
Uma operação coordenada de compra de ações da Ambipar em 2024 envolvendo Tércio; Daniel Vorcaro, dono do Master; Maurício Quadrado, da Trustee DTVM; e o empresário e investidor Nelson Tanure inflou as ações da Ambipar e virou processo na CVM, que depois dispensou a empresa de fazer a oferta pública de ações (OPA).
Paralelamente, foi criado o FIDC Fênix, com empresas da Ambipar como cotistas e a Everest como cedente. Dessa forma, a operação concedia à Everest direitos creditórios contra a própria Ambipar. Foi nesse contexto que a Everest emitiu as debêntures de R$ 700 milhões, dando como garantia ao Master suas próprias ações e cotas do fundo Decarbon — este, era lastreado em títulos da Lormont, de Tanure, e da MDSV, de Quadrado.
Um ano depois, em setembro de 2025, a Ambipar entrou com medida cautelar para suspender o pagamento de dívidas e, depois, pediu recuperação judicial, com dívida de R$ 10,7 bilhões. Na época, alegou pressão de chamadas de margem de um contrato derivativos cambiais com o Deutsche Bank.
No entanto, o valor em débito (R$ 60 milhões) era muito menor que o caixa declarado (R$ 4,7 bilhões) semanas antes, o que alimentou suspeitas de que o dinheiro estava, na verdade, aplicado em papéis do Master.
Uma apresentação a bondholders mostrou que boa parte do caixa estava em aplicações de risco: R$ 1,2 bilhões em fundos ligados a CDBs que depois seriam trocados por pré-precatórios, R$ 809,6 milhões no FIDC Fênix que simplesmente sumiram, e mais recursos em papéis de bancos de segunda linha.
A recuperação judicial da Ambipar
A juíza Caroline Rossy Brandão Fonseca, da 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, aceitou o pedido de recuperação judicial da Ambipar em outubro de 2025. A decisão foi tomada dez dias após o pedido de blindagem contra credores ter sido apresentado pela multinacional com sede no Brasil.
A companhia afirmou à Justiça não ter como pagar R$ 10,7 bilhões em dívidas. O pedido de recuperação judicial também foi apresentado nos EUA, onde a empresa tem ações listadas na bolsa de valores.
O caos financeiro vivido pela Ambipar começou com a renúncia do então diretor financeiro João Daniel Piran de Arruda, em setembro do ano passado. Arruda deixou o cargo após a identificação de supostas ilegalidades em operações de swap cambial conduzidas por ele.
A descoberta dessas operações fizeram com que credores como o Deutsche Bank acionassem cláusulas de garantias inesperadas e de risco de cross-default (quando a inadimplência acelera o vencimento de outras obrigações). O Brasilianista mostrou que investidores de Certificados de Operações Estruturadas (COEs) ligados a títulos de dívida da Ambipar e Braskem perderam mais de 90% do valor aplicado em meio a crises das empresas.
O processo ainda não está encerrado, visto que depende da assinatura dos documentos definitivos, de aprovações internas, da assembleia geral de credores, da decisão judicial sobre o plano e de eventuais autorizações regulatórias.
BC quer ajudar na recuperação
O Brasilianista também mostrou que o Banco Central pediu para ingressar no processo de recuperação judicial da Ambipar como “amicus curiae” (ou amigo da corte).
Esse tipo de instrumento serve para que personagens importantes, ou com grande conhecimento técnico relevante, se apresentem para auxiliar o Judiciário em questões técnicas.
Para especialistas, trata-se de uma questão extremamente técnica, envolvendo contratos derivativos. A autarquia contesta uma liminar que travou garantias do Deutsche Bank nesses contratos.
A petição questiona as margens feitas pelo Deutsche Bank, que provocaram um desequilíbrio financeiro. Caso essas chamadas não fossem atendidas, haveria vencimento antecipado dos contratos e isso poderia provocar um efeito cascata sobre aproximadamente R$ 10,7 bilhões em obrigações financeiras.
O BC, portanto, quer colocar sua expertise à disposição da Justiça porque sabe que qualquer decisão sobre o assunto tem o potencial de impactar todo o mercado financeiro.
O Brasilianista procurou a Ambipar para pronunciamento, mas não teve retorno. O espaço segue aberto.
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