Política

Independência dos Três Poderes: por que ela é essencial para a democracia brasileira?

A escolha dessa divisão é uma convenção histórica

Praça Três Poderes
Essa é a engrenagem que sustenta a democracia brasileira (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário é o alicerce funcional de qualquer democracia constitucional moderna. A formulação tripartite do poder vem do barão de Montesquieu, que a sistematizou na obra "O Espírito das Leis", de 1748, às vésperas da Revolução Francesa, a partir de uma intuição já presente em John Locke.

A lógica é simples: quem acumula poder demais, por tempo demais, tende a abusar dele. Por isso, é preciso dividir as funções do Estado e impor limites a quem governa, para evitar que o poder degenere em tirania.

Segundo o cientista político e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando, a divisão do poder em três instituições não é uma imposição da razão ou uma lei física do poder, mas uma convenção histórica que se consolidou porque corresponde às três funções mais lógicas do Estado moderno: criar normas gerais que regem a vida em sociedade (Legislativo), aplicar essas normas na administração cotidiana (Executivo) e julgar quem as ultrapassa (Judiciário).

O Brasil já teve, no período imperial, um quarto poder formal, o Poder Moderador, exercido pelo próprio Imperador, que hoje é incompatível com a lógica republicana, em que os poderes devem ser harmônicos entre si, ainda que com funções distintas.

O papel de cada um dos Três Poderes

Em geral, a função de cada um dos Três Poderes é a seguinte:

  • Legislativo — elabora as leis que regem a vida em sociedade;
  • Executivo — administra o Estado, executa o orçamento e cuida da governabilidade e da coisa pública;
  • Judiciário — julga os conflitos jurídicos, individuais, coletivos e constitucionais, e tem no Supremo Tribunal Federal o guardião da Constituição.

Essa tripartição não significa isolamento. Os três poderes não vivem em ilhas separadas por oceanos, mas são desenhados institucionalmente para se entrelaçar.

Como os Poderes se complementam?

De acordo com o especialista, a engenharia institucional que Montesquieu batizou de "poder freando o poder" é o que a ciência política chama de sistema de freios e contrapesos.

"Nenhum dos três poderes consegue agir de forma plena e definitiva sem, em algum momento, esbarrar no crivo dos outros dois", afirma Prando.

Na prática cotidiana da administração pública, essa interdependência aparece em situações como:

  • Uma medida provisória editada pelo Executivo perde validade se o Congresso não a converter em lei;
  • Uma lei aprovada pelo Congresso depende da sanção do presidente da República para ser promulgada — e pode ser vetada;
  • O Executivo propõe o Orçamento, mas depende da aprovação do Congresso para gastar;
  • Um veto presidencial pode ser derrubado pelo Congresso.

Um exemplo recente e emblemático dessa arquitetura envolve a própria composição do Judiciário: o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ocupa o topo da carreira do Poder Judiciário, mas quem o indica é o presidente da República, e quem aprova ou rejeita essa indicação, por meio de sabatina, é o Senado.

Foi esse mecanismo que produziu, em 2025, uma crise pública entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil). Enquanto o senador defendia a indicação do também senador Rodrigo Pacheco, Lula indicou o então advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, cujo nome acabou barrado pelo Senado. 

O caso marcou a primeira vez em mais de 130 anos que uma indicação do Executivo para o STF foi rejeitada. A relação entre os dois se recompôs depois, destravando pautas como o fim da escala 6x1 e a taxação das compras internacionais de baixo valor, a chamada "taxa das blusinhas".

É essa interdependência permanente — e não a ausência de atrito — que sustenta o equilíbrio republicano.

O que acontece em caso de conflito entre os Poderes?

Divergências entre Legislativo e Executivo — as mais comuns —, ou entre qualquer combinação dos Três Poderes, são constantes e esperadas dentro da lógica dos freios e contrapesos.

Para Prando, o problema surge quando o atrito extrapola os canais institucionais e passa a ameaçar a própria continuidade do jogo democrático.

"Nós vimos isso nesse tensionamento do jogo democrático, da vida democrática e do Estado democrático de Direito, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro afirmava que ele tinha o Exército e as Forças Armadas e queria, com isso, constranger especialmente o Poder Judiciário. [...] Então, a gente tem, efetivamente, que tomar muito cuidado porque, embora os Poderes tenham funções distintas, muitas vezes um ou outro dos Poderes, que é ultrapassar os limites, as barreiras legais e, com isso, acaba criando essas crises institucionais", avalia o cientista político.

Em momentos de crise aguda, o rito institucional é reunir os chefes dos Três Poderes — o presidente da República, o presidente do Congresso (que acumula a presidência do Senado) e o presidente do STF — para tentar reequilibrar a relação e sair do impasse.

No Brasil, os Três Poderes operam em equilíbrio?

Formalmente, o especialista avalia que sim. A Constituição garante independência e harmonia entre os Três Poderes. Na prática, o equilíbrio é mais um ponto de tensão permanente do que um estado de repouso alcançado.

Um fenômeno amplamente discutido pela ciência política e pela mídia é o protagonismo do Judiciário — em especial do STF —, cuja atuação em diversos casos tem se ampliado para além do que estabeleceria a Constituição, segundo críticos. Isso gera atrito: parlamentares acusam o STF de "legislar" onde não conseguiram aprovar leis, mas frequentemente são os próprios derrotados em votações no Congresso que judicializam suas pautas, provocando o Supremo a decidir. O equilíbrio, portanto, existe, mas é tênue e tenso, ou seja, funciona, mas não com a perfeição que muitos gostariam.

A democracia brasileira é plena?

O Brasil vive o período democrático mais longo e mais estável de sua história republicana: quase quatro décadas de eleições regulares, alternância de poder e uma Constituição em vigor desde 1988 — um cenário inédito frente aos ciclos anteriores de golpes e rupturas institucionais.

A arquitetura formal dos Três Poderes, com eleições periódicas para dois deles e um Judiciário independente, constitui a espinha dorsal dessa democracia.

Porém, Prando afirma que mesmo uma democracia formalmente plena exige cuidado permanente.

"Não existe democracia sem democratas. E democratas não podem fazer discurso de destruição das instituições e ataques aos Poderes da República. Então, a gente precisa muito pensar que não raro existem instituições que ranqueiam as democracias. E muitas vezes o Brasil acaba caindo nesses ranques por conta de violência política ou discurso do ódio", comenta.

Os três poderes representam a vontade do povo por vias distintas: dois deles pelo voto direto, e o Judiciário justamente por sua função contramajoritária, decidindo, quando necessário, contra a vontade da maioria — como ocorreria, por exemplo, se o Congresso aprovasse a pena de morte por pressão popular em um caso de crime violento, decisão que o STF barraria por contrariar a Constituição.

Com todos os seus problemas, a democracia continua sendo o regime em que a população escolhe, participa e cobra daqueles que elege.

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