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Economia

O Brasil perdeu o sabor?

A saída da General Mills, dona da Häagen-Dazs, evidencia um cenário complicado do investimento estrangeiro no país

Brasil
A General Mills não é a única empresa a fazer o movimento de evasão do mercado brasileiro (Foto: Magnific)

Os sorvetes Häagen-Dazs não serão mais distribuídos no Brasil , devido a um plano de reformulação de portfólio da General Mills, anunciado em março de 2026. 

A marca de sobremesas geladas chegou ao Brasil em 1997, prometendo sorvete importado para uma classe média que descobria o consumo estrangeiro. Quase 30 anos depois, a marca simplesmente vai deixar de existir nas prateleiras brasileiras. 

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A empresa americana anunciou em março a venda de outras marcas locais, como Yoki e Kitano, ao grupo 3corações por R$ 800 milhões. Essa operação, no entanto, ainda depende da aprovação de órgãos reguladores. 

Essa reestruturação, de acordo com a companhia, deve contribuir para melhorar as margens de lucro e concentrar esforços em negócios mais estratégicos, como sorvetes premium, comida mexicana, snacks e alimentos para pets.

A General Mills não é a única empresa a fazer o movimento de evasão do mercado brasileiro. Nos últimos anos, uma lista nada pequena de multinacionais reduziu operações ou saiu completamente do Brasil: Ford, Mercedes-Benz, Sony, Roche, Nikon, Haribo, Forever 21, Fnac, Topshop, Walmart, entre outras.

Apesar de cada uma ter sua justificativa, especialmente quando observada por setor, esse "êxodo" forma um padrão interessante sobre o comportamento do investimento estrangeiro no Brasil.

Um problema, três camadas

A indústria tem feito importantes mudanças nos últimos anos. A saída parcial da Ford (Camaçari e Taubaté, 2021), Mercedes-Benz (Iracemápolis, 2020) — mantendo produção de caminhões e ônibus —, Sony (Manaus, 2020-2021) e Roche (Jacarepaguá, fábrica encerrada entre 2019 e 2024) — mantendo operação comercial — são alguns exemplos de um cenário maior.

Nesses casos, as empresas fecham a fábrica, mas raramente abandonam o mercado, passando a atender o Brasil por importação. Quando anunciou o fechamento das fábricas em Camaçari e Taubaté, a Ford citou capacidade ociosa, queda nas vendas e anos de prejuízo, além do ambiente econômico agravado pela pandemia. A Mercedes, por sua vez, falou em situação econômica do país somada à reestruturação de sua rede global de produção. A Sony mencionou "o ambiente de mercado" e as "perspectivas para os negócios".

O que a situação mostra é queproduzir localmente deixou de compensar frente ao custo de importar, mesmo com tarifas.

O segundo grupo que mais se retirou do país foi o do varejo físico: Forever 21 (2022), Fnac (2018) e Topshop (2016) foram motivadas pela escala e competição.  A americana Forever 21 apontou custos elevados, baixa escala e a pressão do varejo asiático de fast fashion, o mesmo adversário que hoje aperta marcas tradicionais diante do avanço de plataformas como Shein e Shopee — que foi contido temporariamente com a "taxa das blusinhas".

A rede de livrarias e produtos eletrônicos Fnac nunca chegou ao tamanho crítico que precisava para ser relevante no mercado de consumo brasileiro, enquanto a Topshop não deu explicação oficial, mas analistas avaliaram que aluguéis pesados e desempenho fraco nas quatro lojas que chegou a ter foram incentivos para a saída.

O terceiro grupo, o mais recente, é o de bens de consumo com a linguagem mais evasiva de todas, a "reformulação de portfólio global". Häagen-Dazs e Haribo, fábrica de doces que encerrou a única produção fora da Europa em 2026, são exemplos desse fenômeno. Apesar de não haver prejuízo declarado, os executivos reavaliam a decisão de matriz sobre onde alocar capital dentro de um portfólio mundial.

A Haribo, por exemplo, falou em "competitividade" e "fatores externos que afetaram o ambiente de negócios". Uma hipótese é de que o Brasil deixou de estar entre as prioridades quando comparado a outros mercados.

Os fatores que pesam na conta das empresas estrangeiras no Brasil

Analisando e comparando os três grupos, quatro fatores aparecem repetidamente nas justificativas:

  • Câmbio e moeda fraca: corroem o retorno em dólar de qualquer investimento feito em reais, o que torna o Brasil estruturalmente menos atrativo frente a mercados com moeda mais estável;
  • Custo Brasil: tributação e burocracia é uma das maiores "pedras no sapato" das companhias, visto que encarecem tanto a produção quanto a simples operação comercial, da abertura ao fechamento de uma empresa;
  • Escala de demanda doméstica: o poder de compra e desejo de consumo dos brasileiros vem caindo — especialmente com um cenário de Selic a 14% ao ano e inflação alta. Nesse contexto, nem sempre justifica manter estrutura fabril dedicada, especialmente quando a matriz pode centralizar produção em polos mais baratos ou mais próximos de outros mercados relevantes;
  • Pressão de acionistas globais por margem: matrizes estão cada vez mais dispostas a cortar mercados "satélite" — grandes em população, mas não necessariamente rentáveis — para proteger o resultado consolidado.

Porém, seria equivocado afirmar que o investimento estrangeiro no Brasil está somente diminuindo. O mesmo período registrou movimento oposto em setores específicos, como energia, além de fusões e aquisições em infraestrutura.

Uma análise inicial mostra que a saída dessas operações se define mais como uma reconfiguração seletiva, especialmente de setores como manufatura leve, bens de consumo e varejo físico. Ao mesmo tempo, energia, commodities e infraestrutura seguem atraindo capital externo.

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