O ex-comandante da Força Aérea Brasileira, Carlos Almeida Baptista Júnior, disse que se recusou a apoiar a tentativa de golpe articulada por aliados de Jair Bolsonaro após as eleições de 2022.
Autor do livro “Eu disse não! Uma Trincheira Antigolpista”, ele conta os bastidores de alguém que resistiu às investidas das forças de comando militares para a tentativa de ruptura institucional.
A sua análise compreende o período entre abril de 2021 e janeiro de 2023, momentos difíceis de convivência entre os militares e o então presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Almeida avaliou que, se denunciasse o presidente por conta das reuniões sobre o golpe, sofreria consequências “por muitos anos” e que a melhor estratégia seria ganhar tempo para evitar a explosão. Assim, a decisão foi manter a calma e evitar uma ruptura institucional.
Quando Almeida ainda era tenente-brigadeiro, presenciou diretamente as investidas para engajar os militares em um golpe de Estado, movimento que culminou nas invasões de 8 de janeiro, logo após o resultado das eleições que derrotou o ex-presidente.
Pressões e bastidores militares
Em entrevista à Veja, disse que viveu um momento de pressão de pessoas próximas a Jair Bolsonaro para apoiar a tentativa de golpe de Estado, que impediria a posse do presidente Lula.
No entendimento de Baptista, Bolsonaro não foi o responsável por politizar as Forças Armadas. Quando Valdemar Costa Neto tentou associar que a culpa de quase tudo que deu errado era dos militares, o tenente disse a Bolsonaro que ele devia agir para impedir a fala do presidente do PL. Bolsonaro respondeu, no entanto, que “não conseguia controlar o que os outros faziam”.
A avaliação de Carlos é que cada presidente leva para o seu governo figuras que agreguem à sua governança: os sindicalistas, no caso de Lula, e os acadêmicos, no de Fernando Henrique Cardoso. Bolsonaro optou por levar para o seu governo os militares — pessoas de sua confiança.
“Não acho um erro os militares terem participado do Executivo, pessoalmente; porém, considero que a presença de quem usa farda foi exagerada”, ressaltou.
Almeida foi um dos responsáveis por relatar ao Supremo Tribunal Federal (STF) as figuras que fizeram parte desse movimento, o que resultou em suas prisões. No entanto, o militar disse que o seu posicionamento teve um custo para a democracia, além de causar ataques pessoais e também à sua família. Ele disse que recebeu o apelido de “melancia” — no meio militar, o termo é empregado para quem usa uniforme verde por fora, mas, no interior, é vermelho (“comunista por dentro”).
Braga Netto e militares da reserva fizeram uma campanha de difamação contra Almeida. Antes, Netto era um grande amigo na avaliação do ex-tenente.
Almeida também relata que precisa sair, em algumas ocasiões, escoltado, temendo sofrer algum atentado contra a sua vida.
A tentativa de golpe não era unânime nas Forças Armadas
Almeida explica que a falta de unanimidade nas Forças Armadas foi crucial para impedi-la.
“O povo não quer uma ditadura. Nós conhecemos os problemas e carências da nossa sociedade e uma parcela pode ter a impressão de que um atalho autoritário é o melhor caminho para transformar o país, mas não há atalhos na democracia”, disse em entrevista.
Freire Gomes, ex-comandante do Exército, negou ter dado voz de prisão a Bolsonaro durante as reuniões da trama golpista em 2022. Na ocasião, Baptista Júnior disse à Polícia Federal que o aviso ocorreu, mas o próprio Freire Gomes depois afirmou que não foi exatamente isso, embora o tenha alertado.
O tenente segue o entendimento de que os militares se preocupam com a perda de credibilidade após o 8 de janeiro — especialmente quem está na ativa —, mas há uma dificuldade de a instituição comunicar que eles não apoiam “o rompimento da democracia”.
8 de janeiro e a anistia
Sobre a discussão da anistia de apoiadores de Bolsonaro que foram mobilizados a depredar o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto — e, consequentemente, foram presos —, Almeida entende que as pessoas que estavam na Praça dos Três Poderes não tinham como dar um golpe de Estado e que essa participação foi movida por um apelo psicológico.
O julgamento dos réus na trama teve “penas muito altas” porque o Supremo considerou os crimes de forma cumulativa. Na avaliação do ex-comandante, a tentativa de golpe de Estado e a abolição do Estado Democrático de Direito deveriam ter sido tratadas como um único delito.
De acordo com a decisão do STF, foram 31 réus, com 29 condenações e duas absolvições. As penas variaram de quase dois anos até 27 anos e três meses de prisão.
O “núcleo 1” envolveu Bolsonaro e seus principais ministros, como Braga Netto, Anderson Torres e Augusto Heleno, todos condenados a longas penas em regime fechado, enquanto militares e agentes, no “núcleo 3”, foram responsabilizados por planejar as ações, incluindo atentados contra Lula e Alckmin.
A condenação no núcleo 3
Entre os réus militares e policiais da trama golpista, as penas variaram de quase dois anos até 24 anos de prisão. O tenente-coronel Hélio Ferreira Lima recebeu a maior condenação desse grupo, com 24 anos em regime fechado.
“As penas [das pessoas mobilizadas para o ato] foram excessivas em relação ao que cometeram; deveriam ser anistiadas ou, no mínimo, ter as sentenças revistas. Houve excessos no processo, não se pode ultrapassar os limites do Estado Democrático de Direito e colocar todo mundo no mesmo pacote”, disse Carlos Almeida.
Estima-se que a perda patrimonial e artística, devido aos danos às obras doadas ao acervo histórico dos Palácios Presidenciais e do Congresso Nacional, seja algo próximo de R$ 21 milhões.
O perfil de Carlos Almeida
O ex-tenente-brigadeiro afirma ter dificuldade em se definir ideologicamente. Ele recorda que, em 2002, votou em Lula contra Serra, mas, em 2018, escolheu Bolsonaro por ser contra a reeleição. Em 2022, voltou a apoiar Bolsonaro por considerar “casuística” a decisão judicial que libertou Lula.
Ele vê desequilíbrio em ambos os lados, especialmente em relações diplomáticas: preocupa-se com posturas radicais, assim como com o fato de o presidente Lula se envolver em atritos com os Estados Unidos.
Carlos defende uma reforma no Supremo Tribunal Federal com a criação de mandatos fixos para os ministros, afirmando que essa limitação de tempo traria “oxigenação ao Tribunal”, além de vir acompanhada de um código de ética capaz de enfrentar o “conflito de interesses e o apadrinhamento”.
Na sua avaliação, os militares resistem a votar no Partido dos Trabalhadores por causa do seu próprio perfil, que é mais alinhado ao conservadorismo e mais tradicional do que o restante da sociedade.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

