Ao tomar posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques tenta imprimir à sua gestão um tom diplomático que destoa de Jair Bolsonaro, presidente que o nomeou ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e de Alexandre de Moraes, seu antecessor na presidência do TSE.
Nos últimos meses, Nunes Marques se reuniu com lideranças partidárias, representantes de institutos de pesquisa, embaixadores, as cúpulas da Advocacia-Geral da União (AGU), da Controladoria-Geral da União (CGU), dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), além das Defensorias Públicas.
Os encontros com representantes de órgãos públicos e líderes partidários serviram para alinhar a atuação, junto à Corte eleitoral, no enfrentamento às Fake News, ao uso da Inteligência Artificial para confundir o eleitor e na penetração política do crime organizado.
As reuniões com os representantes de institutos de pesquisa ajudaram a distencionar a relação entre essas empresas e o TSE, após Nunes Marques ter suspendido um levantamento que apresentava aos entrevistados o áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o filme Dark Horse, que contará a história de Jair Bolsonaro.
As conversas também ajudaram Kassio Nunes Marques a soterrar as críticas pela nomeação da advogada Fabiana Severo como vice-diretora da Escola Judiciária Eleitoral, órgão responsável pela capacitação dos magistrados que julgam casos eleitorais. A escolha foi criticada porque a profissional é esposa do advogado Gustavo Severo, amigo do presidente do TSE.
Inimigo do sistema
Desde a campanha eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro adotou uma retórica abertamente antissistema, rotulando a classe política tradicional como corrupta e deslegitimando as instituições. Nas eleições de 2022, o então presidente da República questionou a segurança das urnas eletrônicas e acusou o TSE de favorecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa postura de Jair Bolsonaro há quatro anos fez com que a gestão de Alexandre de Moraes à frente do TSE fosse marcada pela gestão de crise e pelo enfrentamento ao bolsonarismo. Moraes entrou em rota de colisão com a militância bolsonarista e com órgãos do Executivo federal.
Naquele período, o TSE enfrentou problemas com o Ministério da Justiça, então chefiado por Anderson Torres, e com a direção da Polícia Rodoviária Federal (PRF), comandada à época por Silvinei Vasques. No dia da eleição, por exemplo, a PRF começou a parar ônibus no Nordeste e revistar os passageiros dos veículos.
Torres e Vasques vieram a ser condenados pelo STF por participação direta na trama golpista orquestrada após a derrota eleitoral do governo anterior — articulação que culminou nos atos antidemocráticos e na depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
O trunfo
Kassio Nunes Marques tem conseguido seguir com sua política diplomática porque já mostrou sua força dentro do Judiciário. O presidente do TSE emplacou Carlos Brandão, um de seus aliados, como ministro do Superior Tribunal de Justiça, além de outros protegidos em diferentes cargos pelos tribunais no Brasil.
Também pesa a favor de Nunes Marques o fato dele sempre ter se relacionado bem com os políticos, muitos deles integrantes do Centrão, como Ciro Nogueira, senador que ajudou o então juiz federal do Tribunal Regional Federal da 1ª Região a ser nomeado ministro do STF.
Até Lula construiu pontes com Kassio Nunes Marques. Desde que tomou posse como presidente, o petista buscou se aproximar do ministro do STF. O objetivo principal para estabelecer uma boa relação com Nunes Marques foi a ação sobre o número de cadeiras pertencentes ao governo federal nos conselhos de administração e contábil da Eletrobras.
Toda essa força política ajudou Nunes Marques a lidar com as críticas recebidas após a divulgação de que seu filho, Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, amealhou patrimônio de quase R$ 28 milhões em dois anos e recebeu pouco mais de R$ 280 mil de uma consultoria tributária que prestava serviços para o Banco Master e a JBS.
O ministro e seu filho não são investigados nem foram encontradas ilegalidades nas contas de Kevin. Porém, as informações foram divulgadas após as fraudes do Banco Master virem à tona e mostrarem a proximidade de alguns integrantes do STF com Daniel Vorcaro.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

