(São Paulo - SP, 24/02/2022) Presidente da República, Jair Bolsonaro durante entrega simbólica do Cartão Auxílio Brasil. Foto: Isac Nóbrega/PR

O governo tentou inúmeras medidas para combater a alta dos preços. Por exemplo, reduzindo impostos e até zerando alguns, mas os efeitos no bolso do consumidor e na avaliação do presidente da República não foram os esperados. Por isso, voltou ao debate a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 01/22, que, há quatro meses, recebeu o apelido de “Kamikaze” e chegou a ser desdenhada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, tamanho o impacto que provocaria nas contas públicas.

Pois foi essa medida a cartada do governo na reta final dos trabalhos no Legislativo, provando, mais uma vez, que na política tudo é nuvem. A mudança, nesse caso, foi apenas de opinião, já que a proposta manteve, em sua espinha dorsal, a autorização para o governo despender mais de R$ 41 bilhões em programas sociais sem precisar respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ressuscitada, a PEC foi defendida com unhas e dentes pelos aliados do governo e obteve aval até de Guedes.

Ampliar auxílios e criar novos benefícios em caráter emergencial foi a solução factível para atender à população mais afetada pela inflação. Mas a urgência da medida também embute um fator crucial a ser mensurado: o impacto eleitoral sobre a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) à reeleição. Sentir esse efeito é importante para a candidatura do mandatário porque os mais beneficiados pelas medidas representam a fatia do eleitorado que recebe até dois salários mínimos. E 56% dos eleitores desse grupo, segundo as pesquisas, preferem o ex-presidente Lula (PT), principal adversário de Bolsonaro, que conta com a preferência de apenas 20%.

Mas o timing da proposta coloca em dúvida se haverá, de fato, o retorno político esperado. Se promulgada até o recesso parlamentar, a implementação dos benefícios só começará em agosto, a 60 dias do pleito. Ou seja, até a data do primeiro turno (2 de outubro), poderão ser depositadas apenas três das seis parcelas do Voucher Caminhoneiro, do Auxílio Taxista, do Auxílio Brasil turbinado e do Vale-Gás com valor dobrado.

É inegável que as medidas têm força para ajudar qualquer candidato eleitoralmente. Mas vale lembrar que o eleitor que Bolsonaro busca conquistar hoje tem na inflação o seu principal pesadelo, o que pode atrapalhar uma percepção mais imediata dessas benfeitorias. Em resumo, a questão é se os eleitores vão digerir tais benesses a tempo de elas gerarem um efeito nas urnas a favor de Bolsonaro.

Autor

  • Editora-chefe na Arko Advice, desde fevereiro de 2022. Antes, atuou como repórter de política na CNN Brasil. Foi correspondente internacional em Nova Iorque pela Record TV. Atua em redação há 18 anos.