Debate de presidenciáveis realizado pela Rede Globo, em 2018. Foto: Reprodução

A dois meses do início dos debates eleitorais, os dois candidatos favoritos na disputa presidencial indicam que preferem evitar a exposição. Tanto Lula como Bolsonaro deram indícios de que o tradicional encontro entre os principais nomes na disputa pode ser esvaziado com a ausência dos líderes nas pesquisas. Bolsonaro afirmou que só pretende participar de debates num eventual segundo turno. Lula também declarou não estar disposto a comparecer aos mais de 10 debates organizados pelas emissoras de televisão e sugeriu que só participa se o número for reduzido e o formato adaptado, de forma que todas as emissoras
utilizem um só canal de transmissão.

Os debates costumam ser uma espécie de oportunidade para os candidatos se apresentarem ao eleitorado, discutirem ideias e, também, desgastar os rivais. Por isso, o primeiro colocado nas pesquisas costuma optar por não comparecer. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso se ausentou dos debates e venceu em primeiro turno. Em 2006, Lula buscava a reeleição e seguiu a mesma estratégia. A justificativa do petista foi de que ele não se renderia a uma “ação premeditada e articulada” dos adversários de transformar o debate em arena de “grosserias e agressões”. Em todos os casos o objetivo foi o mesmo: evitar ser a vidraça da vez.

Embora não lidere as intenções de voto, Bolsonaro reconhece que se for para os debates vai se tornar o principal alvo de todos. Isso porque para os demais concorrentes é mais fácil, em tese, alcançar o segundo colocado nas pesquisas, posto que ocupa atualmente. Além disso, o presidente sabe que sua gestão na pandemia e a atual crise econômica devem ser exploradas de forma negativa, o que pode lhe custar votos, especialmente entre
os eleitores que ainda pretende conquistar. “No segundo turno eu vou participar. No primeiro turno, a gente pensa, porque se eu for, os dez candidatos vão querer dar pancada em mim e não vou ter tempo para responder”, declarou Bolsonaro. Ele ainda sugeriu que as perguntas sejam combinadas, o que nunca aconteceu na história dos debates. Em um segundo momento, Bolsonaro recuou e disse que pode, sim, comparecer caso o principal adversário também confirme presença. “Eu fecho agora, se Lula for eu vou junto com ele.”

Não se sabe ainda se Lula e Bolsonaro terão, de fato, algum resultado com a estratégia do não comparecimento, se for essa a escolha de ambos os candidatos. Mas sabe-se quem perde com isso. Numa disputa eleitoral antecipada, marcada por críticas vazias, discussões inapropriadas e pouco conteúdo que interesse à sociedade, o eleitor, sem dúvida, é o maior prejudicado.

Autor

  • Editora-chefe na Arko Advice, desde fevereiro de 2022. Antes, atuou como repórter de política na CNN Brasil. Foi correspondente internacional em Nova Iorque pela Record TV. Atua em redação há 18 anos.