Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

A sedimentação da polarização entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), combinada com a fraqueza da terceira via – o mais bem posicionado até o momento é o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que, na mais recente pesquisa Ipespe, atingiu apenas 8% das intenções de voto – tem gerado o seguinte questionamento: a eleição presidencial poderá ser definida já no primeiro turno? Embora este não seja o cenário-base, essa possibilidade não deve ser totalmente descartada, principalmente se a terceira via não decolar.

Conforme se observa na tabela a seguir, a polarização Lula x Bolsonaro é a mais forte desde as eleições presidenciais de 2006, quando o embate Lula x Alckmin concentrou mais de 90% dos votos válidos. Naquele pleito, Lula não se reelegeu em primeiro turno por apenas 1,56 ponto percentual.

No pleito deste ano, temos em comum com 2006 o fato de, neste momento, as alternativas fora da polarização terem baixa densidade eleitoral. Em 2006, por exemplo, Heloisa Helena (PSOL), que foi a terceira colocada, obteve uma votação muito próxima dos percentuais que Ciro possui hoje. Já nos pleitos seguintes – 2010, 2014 e 2018 –, tivemos candidaturas que conquistaram mais de 10% dos votos válidos e ficaram na terceira posição, ajudando a forçar o segundo turno. Esse foi o caso de Marina Silva em 2010 e 2014 e de Ciro em 2018. Como na reta final do primeiro turno é comum ocorrer um movimento em favor do voto útil, se até outubro as candidaturas da terceira via permanecerem enfraquecidas, e dado o cenário que o eleitor parece estar antecipando o segundo turno no primeiro ao declarar de forma antecipada sua intenção de voto em Lula ou Bolsonaro, cresce a possibilidade de a eleição se definir ainda no primeiro turno.

Outro aspecto importante – e que pode fortalecer essa tese do voto útil – é o fato de Lula e Bolsonaro serem, ao mesmo tempo, candidatos bastante rejeitados. Ou seja, dada a força da polarização, o índice de rejeição também será uma variável que entrará na conta do eleitor já no primeiro turno. Merece destaque a consolidação das intenções de voto em Lula e Jair Bolsonaro. Isso pode ser percebido quando observamos o histórico do voto espontâneo nos dois primeiros colocados desde 1989. A soma do voto espontâneo em Lula e Bolsonaro, de acordo com dados do Ipespe, representa mais que o dobro do captado pelo instituto Datafolha nas polarizações anteriores nesse mesmo período (ver
tabela a seguir): Collor x Lula (1989); FHC x Lula (1994 e 1998); Lula x Serra (2002); Lula x Alckmin (2006); Dilma x Serra (2010); Dilma x Aécio (2014); e Bolsonaro x Haddad (2018).

Apesar desses aspectos, vale ponderar que, em todas as eleições presidenciais realizadas desde 1989, apenas em 1994 e 1998 a disputa foi decidida em primeiro turno. Nessas duas disputas, o Plano Real acabou sendo decisivo para eleger e reeleger FHC (PSDB) em turno único. Nas demais disputas, sempre tivemos a
realização de segundo turno, até mesmo na eleição de 2010, quando o então presidente Lula tinha mais de 80% de avaliação positiva. Naquela eleição, nem isso foi suficiente para que sua candidata, Dilma Rousseff (PT), vencesse a disputa em primeiro turno.

Autor

  • Bacharel em Ciência Política pela Ulbra-RS. Analista político da Arko Advice Pesquisas e Consultor político e de Marketing Eleitoral formado pela Associação Brasileira dos Consultores Políticos (ABCOP). Possui MBA em Marketing Político, Comunicação e Planejamento Estratégico de Campanhas Eleitorais pela Universidade Cândido Mendes. Concluiu também os seguintes cursos de extensão: "A Nova Cartografia do Poder, a política brasileira da era digital" (PUC-SP); "WhatsApp em Campanhas Eleitorais (PUC-RJ)"; e "Mídias Sociais e Gestão Estratégica de Campanhas Políticas Digitais (PUC-RJ)".