Foto: Geraldo Falcão/ Agência Petrobras

Mesmo que o conflito na Ucrânia acabe amanhã, o Brasil deve se preparar para um longo período de guerra cultural e comercial, com efeitos profundos nas relações internacionais e em nosso futuro. Para alguns especialistas, a invasão promovida pela Rússia no país vizinho retrocedeu à globalização em trinta anos, além de vulnerabilizar a capacidade do multilateralismo para medir e impedir conflitos. Tais repercussões, contudo, não se limitaram a fazer cambalear o multilateralismo. O jogo do comércio internacional será afetado pela produção reduzida ou inexistente de commodities na Ucrânia e pelos embargos aos produtos russos. Enquanto o conflito se desenvolve na Ucrânia, países estão preocupados em como garantir suas cadeias de suprimento e, até mesmo, como reforçar suas defesas caso a guerra chegue às nações da Comunidade Europeia. É uma situação inédita em décadas.

“O país não pode ficar na mão do acaso, tampouco mendigar favores para vencer dificuldades.”

Assim, o Brasil deve tomar decisões estratégicas em relação à nossa cadeia produtiva, que será afetada com a falta de fertilizantes e de combustíveis. Por outro lado, sem a oferta regular do trigo russo e ucraniano mundo afora, o preço da commodity vai subir, com potencial efeito em nossa inflação. Custa crer que o nosso agronegócio e as autoridades competentes nunca tenham se preocupado com estoques e fontes alternativas para casos emergenciais de conflito ou escassez. Tampouco com um plano que visasse à autossuficiência dos ingredientes para a produção de fertilizantes. Situação semelhante se dá com os combustíveis. O Brasil não desenvolveu uma capacidade de refino de petróleo satisfatória que pudesse acompanhar tanto a nossa produção quanto o nosso crescente consumo. Também não desenvolveu uma política de preços e de reservas de petróleo para tempos de crise.

O Brasil tem a característica de ser o responsável direto por mais de 90% dos próprios problemas. Porém, desde a pandemia, e agora com a invasão da Ucrânia, os problemas do mundo exterior nos afetaram significativamente e devem continuar a nos desestabilizar. Quando o Brasil pensou de forma estratégica, organizou um sistema financeiro robusto, empresas e iniciativas como a Embrapa, Embraer, Vale, Petrobras, entre muitas outras. Devemos retomar nossa capacidade de pensar estrategicamente. Precisamos examinar nossas fragilidades e trabalhar para compensá-las. Em vários campos: agricultura, combustíveis, defesa, logística etc. Infelizmente, não vemos o assunto na agenda eleitoral.

A China, por causa de sua política de segurança alimentar, possui reservas de grãos e de proteína animal para enfrentar eventualidades adversas. Agora, com a guerra, os chineses estão comprando da Rússia todos os ingredientes possíveis para a fabricação de fertilizantes. Eles poderão especular em um mundo desestabilizado. Assim como a China, precisamos ter uma política de segurança alimentar e de autossuficiência de combustíveis para que o país não fique à mercê dos acontecimentos. A lição que fica é que devemos olhar de forma estratégica para as nossas fragilidades e buscar saber como compensá-las. O Brasil, por sua dimensão populacional, não pode ficar na mão do acaso, tampouco mendigar favores para vencer dificuldades pontuais.

Autor

  • Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.