Exército da Ucrânia se movimenta no sul do país. Foto: Reuters

Passados agora cinco jornadas de combate, acreditamos ser útil fazer uma avaliação, ainda que muito incompleta a respeito dos eventos. A intenção é estimar o impulso atual e inferir os cenários dos próximos dias.

Duas surpresas estratégicas. A postura de liderança do presidente ucraniano que, ao invés de deixar o governo e abandonar o país, como proposto pelo Governo dos EUA, assumiu pessoalmente a responsabilidade de defender Kiev, elevou o moral da população e das tropas em combate. Essa percepção foi muito reforçada pelo ganho de atenção nas mídias sociais e na imprensa mundial. Poucos países, como Venezuela, Cuba e Nicarágua mantém atitudes favoráveis ao governo russo. Mesmo a China tem evitado tomar uma posição política definitiva, preferindo esperar para decidir. Chamou atenção a iniciativa do governo dos EUA de oferecer meios para a saída do presidente Zelenski de seu país, que foi negada de forma categórica.

Outra surpresa estratégica, ainda que mais ou menos esperada, foi a reação unificada dos países europeus contra a Federação Russa, incluindo países notórios pela neutralidade, como a Suíça. A decisão alemã de ampliar gastos militares foi outro sinal de mudança de postura. A reação de liderança do presidente Zelenski e a reação imediata europeia ampliaram o fervor patriótico ucraniano e afastaram a imagem de que o presidente ucraniano seria fraco.

Duas surpresas táticas:

A pouca velocidade do avanço russo, em decorrência da resistência ucraniana, e a interrupção do suprimento logístico, romperam, de certa forma, a crença de que as forças armadas russas seriam invencíveis. As imagens que se espalharam pelo mundo têm mostrado evidências de falhas de treinamento e problemas doutrinários, provavelmente pelo emprego de tropas pouco experientes ou excesso de confiança.

Na última sexta-feira, publicamos um artigo a respeito das possíveis razões da iniciativa russa de invadir militarmente o território ucraniano. No texto, defendemos a ideia de que o estado-maior geral das forças armadas da Federação Russa tomou a iniciativa militar com base em quatro fatores críticos associados ao conceito de impulso estratégico, criado pelo pensador militar francês André Beaufre (1965).

Naturalmente, não é possível acessar documentos classificados. Como alternativa, tomamos como base de análise informações públicas e abertas disponíveis na Internet e amplamente coletadas no teatro de operações e difundidas nas redes sociais ou sites especializados. Nesse sentido, foram aproveitamos, principalmente, dados e informações divulgados pelo observatório de doutrina do Exército, que reúne mais de cinquenta especialistas civis e militares – ativos e veteranos – o qual recomendamos fortemente como fonte de pesquisa.

Lembrando que o impulso estratégico (E) é razão direta de quatro fatores: forças materiais, forças morais, liberdade de ação e tempo, passamos a descrever os principais eventos e seu contexto:

Forças Materiais (F):

Apesar do emprego maciço de meios militares, a ofensiva foi feita ao longo de toda a fronteira russo-ucraniana e Ucrânia-Belarus, o que forçou as forças armadas ucranianas a se defender em pelo menos três frentes diferentes, mas, por outro, lado dificultou o esforço logístico russo.

O que se observa agora é a dificuldade de avanço das tropas russas que registraram perdas importantes e paralisação temporária da ofensiva que não conseguiu conquistar seus principais objetivos ainda. Destaca-se, nesse momento, indícios de envolvimento de tropas chechenas nos combates na Ucrânia e a possível participação de tropas de Belarus, nos próximos dias.

A chegada de armamento e equipamento vindos dos países vizinhos, sobretudo armas anticarro, particularmente, mísseis Javelin, tem reforçado a defesa ucraniana, sendo responsável pela destruição de dezenas de blindados russos. Imagens mostram também o que seria o sucesso do emprego de drones comprados da Turquia para atacar colunas de blindados russos. Estima-se que a Federação Russa já tenha empregado cerca de 40% dos seus meios militares.

De forma geral, a disponibilidade de meios militares não é o maior problema russo, no curto prazo, mas as baixas já são consideráveis e logo começaram a impactar a opinião pública. Se as perdas humanas russas forem metade do número que tem sido divulgado, já se trata do maior impacto desde a Guerra do Afeganistão.

Forças Morais (Y):

O apoio popular russo tem sido mantido com base em propaganda maciça favorável às “operações especiais” militares na Ucrânia. No entanto, mobilizações populares já foram registradas principalmente na capital Moscou. As forças de segurança russa têm atuado para evitar mais manifestações, mas elas devem voltar a ocorrer, sobretudo quando a percepção de impacto nas finanças pessoais ficar mais claro e corpos de soldados começarem a retornar ao país.

Observou-se que as tropas russas têm a orientação para evitar baixas civis, o que justifica a quantidade relativamente pequena de vítimas ucranianas. Esse fator leva em consideração a proximidade étnica entre russos e ucranianos, mas não consegue afastar a narrativa de que os russos são agressores e estão violando a soberania da ucraniana.

Um aspecto importante a ser observado é a censura de meios de comunicação que tem sido observada para impedir o acesso da população russa às notícias internacionais e participação de hackers tirando do ar importantes sites do governo russo. A narrativa de que se trata de uma “guerra justa” tende a ficar cada vez mais frágil, a medida em e que o tempo passa.

Liberdade de Ação (k):

Esse foi o fator que sofreu maior degradação, desde o início das operações. A resistência ucraniana, seguida do apoio imediato dos países vizinhos impactam a imagem internacional do governo russo, que tem sido visto como agressor. As sanções econômicas anunciadas no dia 27 já começaram a ter impacto, seja na população, seja nos apoiadores do governo. A narrativa predominante na opinião pública global é contrária à Rússia e a Ucrânia é apresentada como vítima de uma agressão desproporcional. Essa narrativa foi ampliada no Conselho de Segurança da ONU e na reunião extraordinária dos 193 membros da organização, no dia 28. O bloqueio do acesso do governo russo ao sistema SWIFT foi outra medida de amplo impacto. Estima-se que a indústria russa, particularmente a militar, será duramente atingida nos próximos meses. Até mesmo a percepção de fraqueza política dos governantes dos países da OTAN melhorou nos últimos dois dias.

Tempo (T):

A velocidade de avanço das tropas russas não foi capaz de proporcionar a conquista das principais cidades, conforme planejado. Há registros de atrasos no avanço das colunas militares, sobretudo por meio de ações de resistência. É provável que o avanço das tropas tenha sofrido um atraso de pelo menos 48 horas. É provável que isso gere impaciência e decisões equivocadas. Foram reportados eventos de descoordenação entre as unidades, com reflexo imediato na velocidade de avanço.

Conclusão:

O impulso estratégico demonstrado no primeiro dia perdeu, em grande medida, o impacto inicial. A narrativa principal russa – de que estaria fazendo uma “operação especial” para combater extremistas não teve o impacto desejado. Além disso, o centro de gravidade da operação que seria a conquista de Kiev e a deposição do governo ucraniano, parece estar ainda longe de ser obtido e, caso ocorra, terá um custo político e estratégico gigantesco que talvez a Rússia não tenha condições de suportar.

É provável que essa percepção tenha levado o governo russo a divulgar a informação estratégica de que havia subido o nível de alerta dos sistemas de armas nucleares. A escalada da crise foi muito mais rápida do que o esperado, muito provavelmente em razão da difusão imediata de imagens e narrativas contrárias aos russos na mídia ocidental e nas redes sociais.

Autor

  • Daniel Tavares é coronel (reserva) do Exército Brasileiro e analista militar da consultoria Arko Advice. É formado pela Academia Militar das Agulhas Negras e mestre em Ciências Militares com especialização em Política, Estratégia e Alta Administração pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e Escola Superior de Guerra. Foi oficial do Gabinete do Comandante do Exército e chefiou a Divisão de Inteligência do Centro de Inteligência do Exército, entre 2017 e 2019. Foi analista de informações do Joint Mission Analysis Center, da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (2014-2015) e comandou o 10º Batalhão de Infantaria Leve (Montanha), em Juiz de Fora, MG.