O negacionismo antivacina é uma das provas da crise Andrew Lichtenstein/Corbis/Getty Images

O mundo vive uma brutal crise de confiança. Abordei o tema, de forma parcial, na minha coluna passada, ao tratar do inevitável mal-estar na política. O tema é essencial para o desenvolvimento humano porque todo progresso econômico e social tem sido feito à base de confiança. Confiança hoje presente em coisas tão triviais como atravessar a rua com o sinal verde ou entrar em um elevador acreditando que ele funcionará.

A confiança vale também para um comerciante na Costa Rica que aceita o cartão de crédito de um turista japonês e para um brasileiroque utiliza um Uber em seu deslocamento na Europa. Todo o comércio da humanidade — quando ainda não existiam mecanismos de validação como ordens de pagamento, faturas, cartões de crédito, entre outros — expandiu-se com base na confiança mútua. Infelizmente, quando o mundo entra em “modo desconfiança”, tudo pode ficar muito difícil.

Desde os anos 60 a confiança nas instituições vem despencando. No livro O Fim do Poder, o escritor venezuelano Moises Naím aborda o fenômeno com precisão. Instituições como governo e religião perdem prestígio e a consequência disso é a desconfiança generalizada, inclusive em torno dos sistemas políticos. Com a perda do oligopólio da confiança exercido por essas instituições, outras assumem seus papéis. Na religião, o catolicismo perde espaço para os movimentos pentecostais. No sistema financeiro, transações ocorrem sem a intermediação de autoridades constituídas.

“Até mesmo para duvidar deve-se buscar o método, e não, simplesmente, desacreditar por desacreditar”

A emergência das redes sociais gerou a massificação das fake news, que, por sua vez, também desgastam o sentimento de confiança. A pandemia de Covid-19 somente agravou a situação de desconfiança que vem se disseminando nas últimas décadas. E o negacionismo antivacina é uma das provas da crise. Em todo o mundo existem parcelas da população que resistem à vacinação.

Provocados pelo deslocamento da confiança, dois fenômenos simultâneos complementam o quadro. O professor de filosofia Gabriel Ferreira, em artigo publicado em 2017 em O Estado de S. Paulo, apontou a situação com um título magistral para seu texto: “O declínio da expertise e a ascensão do bullshit”. Dizia ele: “O saber não é somente alvo de uma desconfiada indiferença, ele é agora odiosamente renegado em favor de uma equidade estúpida”. O bullshit, literalmente “esterco de gado”, é composto de fragmentos de verdades, mentiras sinceras e doses de delírio que trafegam por nossa realidade.

Obviamente, em tempos de modernidade, a dúvida é a regra, e assim deve ser. Nesse contexto, como disse o sociólogo britânico Anthony Giddens, tudo o que é conhecido assume a forma de hipóteses abertasà revisão. Mas até mesmo para duvidar deve-se buscar o método, e não, simplesmente, desacreditar por desacreditar.

Em um ambiente de crescente desconfiança, descrença na ciência e ampla circulação de bullshits, vamos levar gerações para reconstruir a credibilidade nas instituições, nos princípios e nos valores que asseguraram o avanço da civilização. Vivemos um ponto de inflexão que pode nos levavar ao autoritarismo da ignorância, se não reconstruirmos mecanismos de confiança e não voltarmos a acreditar na ciência.

 

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.