Nossos desafios não devem ser superados por vias radicais. | Foto: Beto Barata/Agência Senado

O fim do ano sugere fazer algumas reflexões sobre os acontecimentos e seus potenciais desdobramentos para o novo ano. A moderação, o equilíbrio e o consenso são fatores fundamentais para o desenvolvimento harmônico de uma nação. A revolta, o conflito e os protestos também são vetores de transformação, mas cobram um preço alto em vidas e direitos. O Brasil, em que pese nossos traços autoritários, optou pelo consensualismo. Avançamos quando houve consenso. Ainda que, no fim das contas, sejamos um país reformista de baixo impacto.

Em todos os momentos de horror na história política recente faltou um centro forte para mediar as tensões e evitar o transbordamento para circunstâncias violentas. Os grandes regimes de exceção do século passado nasceram na fragilidade da racionalidade e do bom senso. O caso clássico está na Alemanha nazista: nacionalistas e comunistas inviabilizaram a social-democracia e deixaram caminho aberto ao nazismo. É sabido que os polos mais radicais — da direita e da esquerda — da política brasileira, mesmo com adereços democráticos, namoram com soluções autoritárias. O curso da pregação dos radicais decorre da omissão de moderados que preferem o silêncio ou da cumplicidade dos que compactuam com o radicalismo.

No Brasil, a pandemia de Covid-19 acirrou uma polarização disruptiva instalada desde o caos político do governo Rousseff. A polarização, por si, não é ruim. Ruins são as consequências da falta de racionalidade, da ausência de moderação e da indisposição para o diálogo. Nas eleições do ano que vem, o erro capital será o de aceitar que não existe alternativa ao confronto exacerbado. Temos de evitar que a radicalização extremada prevaleça em uma espécie de guerra do fim do mundo.

Como arbitrar e evitar a radicalização do confronto? O primeiro passo é reconhecer princípios que estão em nossa Constituição, entre eles os da democracia, da liberdade de expressão e da busca pelo desenvolvimento social e econômico. Tais princípios implicam tolerância, negociação, respeito e generosidade. Serão os brasileiros que acreditam nesses valores que devem propor soluções que harmonizem as disputas. Partindo do princípio de que a virtude está no meio.

O Reino Unido transitou do absolutismo para uma democracia parlamentarista em movimentos reformistas. Já a Revolução Francesa avançou para retroceder e viver crises sucessivas no âmbito institucional por causa de seguidas rupturas. O progresso harmônico está no centro, na ponderação, na conciliação. Esse é o caminho de sucesso de uma nação que busca o desenvolvimento humano como meta. As soluções radicais interessam a quem deseja o poder pelo poder, ainda que as narrativas sejam cobertas de boas intenções.

Em 2022, o Brasil deve buscar o meio, o centro. Seja diluindo o radicalismo dos extremos polarizados, seja propondo uma alternativa genuinamente moderada. E a moderação não significa conformismo. Pelo contrário, a moderação está na cautela metodológica para construir as reformas de que o país necessita. O inconformismo deve estar em nossa agenda reformista. Nossos desafios não devem ser superados por vias radicais. O meio se aplica tanto à prudência e ao equilíbrio quanto aos modos adequados de se atingir os propósitos.

Publicado em VEJA de 22 de dezembro de 2021, edição nº 2769


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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.