• A ideia do governo chinês é que o Yuan físico seja substituído pela moeda digital. Mas quem acha que os chineses estão apenas querendo proporcionar maior liberdade financeira aos seus consumidores, sem submetê-los a taxas e outras tarifas, está muito enganado
  • Por ser digital, o Yuan versão criptomoeda pode ser submetido a algo que o Yuan físico não permite: ser rastreado
  • A China deseja monitorar cada vez mais seus cidadãos para obter dados. O problema será se esse monitoramento atingir a facilidade e a liberdade de compra no país

Elas envolvem dois campos cruciais no embate: o financeiro e o tecnológico. Se por um lado, haveria maior liberdade do mercado através delas, por outro, elas representam uma tecnologia digital de alto nível – ainda que tenham suas falhas. Assim, as criptomoedas representam uma vantagem competitiva ao país que melhor saber usá-las.

Por isso, a China tem um projeto de lançar o Yuan digital, a criptomoeda estatal chinesa. A ideia do governo chinês é que o Yuan físico seja substituído pela moeda digital. Mas quem acha que os chineses estão apenas querendo proporcionar maior liberdade financeira aos seus consumidores, sem submetê-los a taxas e outras tarifas, está muito enganado.

Por ser digital, o Yuan versão criptomoeda pode ser submetido a algo que o Yuan físico não permite: ser rastreado.

A China deseja monitorar cada vez mais seus cidadãos para obter dados. Costumo dizer que eles são o petróleo do século XXI. Rastreando o movimento de cada transação financeira que acontece no seu país, entendendo o que o indivíduo compra, como ele gasta, como o que ele gasta, a China consegue vantagens competitivas em outras áreas que vão muito além da financeira e tecnológica. Os benefícios vão para a área de segurança, de inteligência, e, sobretudo, para a comercial.

Pense comigo: existem dois rivais comerciais no mundo. Um têm o total controle e conhecimento das ações de compra de seus indivíduos. O outro depende de pesquisas, levantamentos, dados de terceiros e suposições. É claro que o que recebe as informações diretamente da fonte sai na pole position. Isso possibilita políticas econômicas mais focadas em áreas que precisam ser turbinadas, pois os dados serão obtidos em tempo real, via automação de interpretação de dados.

Os críticos do projeto do Yuan digital afirmam que ele violará a privacidade dos cidadãos chineses. Bem, a noção de privacidade deles não é muito apropriada para os parâmetros ocidentais, mas o Yuan digital pode sim atingir a principal – e uma das únicas liberdades chinesas: a econômica, o que pode ser extremamente prejudicial ao país.

O pacto social na China entre o governo e os cidadãos se pauta no aspecto da liberdade econômica. A cúpula do Partido Comunista Chinês chegou à conclusão que o que levou a União Soviética à ruína não foi apenas a falta liberdade de expressão, mas a falta de liberdade econômica. Os soviéticos queriam consumir, comer um hambúrguer do McDonald’s, ter uma mochila da Nike, usar um tênis All Star, ter uma TV Samsung. Eles queriam muito mais possuir a chance de consumir o que quisessem do que propriamente ter voz perante o governo.

A China, esperta que só ela, percebeu isso e usou o exemplo soviético como o que NÃO poderia fazer. Assim, percebeu que os chineses também não faziam a mesma questão de participar ativamente da política do país do que a de comprar smartphones e roupas de marca.

Com isso, a China pode sim colocar tudo a perder caso tenha controle total das transações de seus cidadãos, mas também não é algo tão simples. Os chineses já estão acostumados a serem monitorados pelo governo.

O problema será se esse monitoramento atingir a facilidade e a liberdade de compra existentes na China. O governo precisa entender que o monitoramento das estripulias financeiras de seu povo deve ser feito de maneira passiva. Caso o governo resolva criar impedimentos nos gastos do Yuan digital, aí sim, toda a estrutura sócio-política do país corre o risco de ruir.

Para evitar impactos geopolíticos no Yuan digital, a China pensa em impor prazo de validade para suas moedas. À primeira vista, é interessante para se esquivar de possíveis crises mundiais, mas, em um olhar mais profundo, pode ser visto como um primeiro movimento regulatório sobre a liberdade econômica, o que pode incomodar profundamente a população. Uma das alternativas seria oferecer incentivos para que determinada quantidade financeira de cada indivíduo seja gasta dentro de um prazo, criando um fluxo constante de atividade econômica.

Esses incentivos podem envolver (como já vem sendo avaliado) isenções tributárias, cash-back e descontos em outros produtos de uma cadeia produtiva distinta. Naturalmente, isso facilitaria ainda mais para o governo chinês priorizar determinadas indústrias e setores de serviços em relação a outros, principalmente levando em consideração a aproximação desses segmentos ao partido.

Ainda assim, as criptomoedas parecem estar se tornando uma tendência mundial e é claro que as duas potências do mundo vão querer usá-las e abusá-las. Basta esperarmos para ver se elas realmente irão vingar ou se tornarão apenas uma promessa fracassada.

Este texto foi publicado, originalmente, no Estadão

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.