Câmara aprova MP que renova o programa de redução ou suspensão de salários 
Fachada do Congresso Nacional. Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

O Centrão e ex-integrantes do bloco como o MDB e o DEM estão divididos em relação ao governo. A fragmentação é visível, por exemplo, na CPI da Pandemia. O relator, Renan Calheiros, prócer do MDB, é notadamente um oposicionista do presidente Jair Bolsonaro. Já os senadores Fernando Bezerra e Eduardo Gomes, do mesmo partido, são os líderes do governo, respectivamente, no Senado e no Congresso. Na Câmara, o MDB tem em Baleia Rossi, presidente da sigla, um adversário de Bolsonaro.

No DEM, a divisão é semelhante. Marcos Rogério, senador por Rondônia, é um dos maiores defensores do governo na CPI. Já ACM Neto, presidente da sigla, alimenta um discurso de independência, ainda que em seus quadros haja uma importante ministra, Tereza Cristina. O DEM terá de decidir como e onde deve ser bolsonarista ou não.

No PSD, a situação começa a ficar mais clara. Um dos articuladores do governo, Fábio Faria, é do partido, mas está de saída, já que a legenda caminha para a independência. Como consequência, a sigla deverá, gradualmente, perder espaço no governo. PP, Republicanos e PL continuam firmes no barco bolsonarista. O PSL mantém um pé lá e outro cá nos botes da política.

À medida que a pré-campanha eleitoral for esquentando, o Centrão deverá se dividir ainda mais. Sem coligação para eleições legislativas, os partidos precisarão construir campanhas majoritárias fortes. Legendas como o PSD deverão lançar candidato presidencial independentemente da união do Centrão. Ou buscar alianças potencialmente vencedoras nos estados.

A força dos partidos reside no tamanho de suas bancadas. Assim, o que importa às legendas é ganhar espaço no Congresso e, a partir daí, negociar a relação com o governo. Fundos eleitorais e partidários estão relacionados ao tamanho das bancadas. O desempenho nas eleições legislativas é, portanto, um fator essencial. Mas não só isso.

Alguns partidos do Centrão veem a potencialidade da campanha “nem nem”: nem Bolsonaro nem Lula. O primeiro devido às mortes na pandemia; o segundo por causa das questões inconclusas da Lava-Jato e do ainda expressivo antipetismo. Nesse contexto, arriscar uma candidatura presidencial pode ser uma boa aposta — vai que dá certo. Partidos do Centrão e do centro político, como o PSDB, devem pensar seriamente em ter candidaturas visando a fortalecer as suas estruturas no Congresso.

Outro aspecto é que os caciques jogam nas fichas pretas e nas vermelhas do cassino eleitoral. Preocupam-se com a questão nacional, mas se orientam pela manutenção da hegemonia estadual. Daí existir histórica tendência de coligações majoritárias conflitantes. Tais circunstâncias vão levar os partidos do Centrão ao mar, em busca da pescaria de deputados e senadores. Voltarão ao porto — o Congresso — em 2023 com força para continuar a impor o regime semipresidencialista em vigor no Brasil.

Seja quem for o próximo presidente, negociar com o Centrão ou com pedaços dele será parte da construção da governabilidade porque, mesmo com o fim das coligações legislativas e as barreiras de desempenho, ainda teremos significativa fragmentação partidária.

Artigo anteriorLeilão do 5g ocorrerá em junho ou julho de 2021, afirma Fábio Faria
Próximo artigoAuxílio emergencial pode ser prorrogado até outubro
Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.