Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado

Em meio ao surto de ‘fake news’, desconfiar é fundamental

Muitos pensam que as conquistas da democracia são elementos dados. Mas a liberdade, algumas vezes até outorgada em fatias, não está consolidada. Longe de ser perfeita e de estar finalizada como projeto, a democracia corre riscos diários.

No Brasil, os inimigos da liberdade estão em todos os cantos, incrustados em quase todos os aparelhos ideológicos e, obviamente, em suas expressões partidárias. Estão também na sociedade civil, onde são movidos pelos interesses supostamente associados ao bem comum, fantasiados de “melhores intenções”.

A sociedade contemporânea, como já disse o filósofo francês Jean-François Revel, move-se pela mentira. Se o autoritarismo imperial não precisava se justificar, na sociedade contemporânea as narrativas precisam ter fundamento para se manter. Daí a importância da máquina da comunicação para figuras como Lenin, Hitler, Stalin, Castro, Chávez, entre outros, que mentiam a granel.

Tendo a mentira como base, os inimigos da liberdade se organizam e se espalham pela nação. Quem são? Como atuam? Grosso modo, os principais inimigos da liberdade estão entranhados na sociedade e expressados em comportamentos políticos e culturais por meio das mídias, das redes sociais e nas narrativas políticas. São tantos que gastaríamos muitas páginas para descrevê-los. Vamos mencionar alguns.

O corporativismo, como a ação de defesa radical do interesse individual em detrimento do coletivo, é um dos mais poderosos inimigos da liberdade. Pelo simples fato de que submete a sociedade, pelo controle do Estado, aos seus interesses específicos. O filhotismo, na política e no Judiciário, também se revela um poderoso inimigo da liberdade, ao submeter o funcionamento da política e dos tribunais aos laços de família e à troca de favores.

O esquerdismo, doença infantil derivada do marxismo, é outro inimigo da liberdade que se infiltrou de forma profunda na formação da opinião no país. O esquerdismo impôs uma agenda, supostamente politicamente correta, que corrói a individualidade e busca tutelar a sociedade.

O autoritarismo, tema que abordei em outros textos, é uma herança colonial em que o poderoso esmaga o menor a partir do abuso de poder, do patrimonialismo e da corrupção. O autoritarismo moldou o Brasil, cujo Estado é mais poderoso que a sociedade, o que se revela diariamente nas relações com uma cidadania subalterna.

Como combater os inimigos da liberdade? Aldous Huxley, em 1958, apontava a superpopulação, lavagem cerebral, propaganda, burocracia e a tecnologia, entre outros, como potenciais adversários da liberdade. Porém, o maior adversário da liberdade é a falta de educação e de discernimento.

A defesa da liberdade começa por identificar quem a destrói e quais comportamentos adota. Quase sempre os inimigos apresentam narrativas populistas, “nacionaleiras”, paternalistas, intervencionistas e, até mesmo, politicamente corretas. Em meio à pandemia de fake news e interpretações distorcidas, desconfiar de quem muito promete é fundamental, tendo em mente o que disse o político irlandês do século XVIII, John Philpot Curran: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Texto publicado na Veja dia 19/02/2021

Artigo anteriorCâmara confirma prisão do deputado Daniel Silveira
Próximo artigo5G: Anatel vai agir caso riscos sejam detectados, diz presidente da agência
Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.