Foto: Governo de São Paulo

Menos ódio, menos confronto malsão, menos extremismo. Depois de anos sendo conduzidos por extremos que se odeiam, há uma tentativa de volver à moderação, que não significa resignação, mas respeito à tremenda diversidade ideológica que jaz sobre solo brasiliano

 

Encerrado mais um ciclo de eleições municipais, um trio vitorioso decidiu apostar no diálogo e rechaçar o ódio à política. Bruno Covas e Eduardo Paes, novos prefeitos de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente, e ACM Neto, prefeito de Salvador, apostam na política tradicional contrapondo-se à sua negação brandida com sucesso nos últimos anos.

“É possível fazer política sem ódio”, proclamou Covas, defendendo a moderação. “O resultado desse radicalismo [na política] não fez bem a nenhum de nós”, concordou Paes, ao celebrar a vitória da política tradicional. “Não vamos embarcar em nenhuma opção dos extremos”, antecipou ACM Neto, sobre as eleições presidenciais de 2022.

O trio – que não parece estar sozinho nesta tentativa de colocar água na fervura do confronto lesivo em que se transformou a política – não citou nomes. Os extremos mais evidentes hoje são o bolsonarismo, do lado da chamada direita, e o petismo, do lado da chamada esquerda. Ambos retroalimentam-se. Como num greNal, dependem um do outro para existir. “É babaquice, bobagem a gente estar nessa coisa de direita, esquerda, centro”, concluiu ACM, também presidente nacional do DEM, sobre a conceituação predominante na ciência política e no jornalismo dividindo todos em lados e sublados, o que não reflete esses tempos multifacetados pós-Guerra Fria.

Nós e eles

O presidente Jair Bolsonaro é a expressão mais evidente deste extremismo. O capitão-mor alimenta permanentemente o ódio, a intolerância e a divisão do mundo entre nós e eles. Seu discurso vem da convicção messiânica de que ele e seus sequazes estão sempre certos e sabem o caminho da salvação do povo.

O nós e eles encontra guarida do lado do rival preferido. Embora a chamada esquerda tenha uma tendência ao messianismo, o petismo elevou esta característica ao paroxismo, excluindo todos que pensem diferente da cartilha partidária. Uns vão salvar o povo do socialismo satânico; outros vão evitar que os trabalhadores sejam sugados pelo capitalismo opressor.

Razão e emoção

Este embate, no entanto, não é predominante quando se escolhe vereadores e prefeitos. Eleições municipais não são vaticínio às eleições gerais. Na escolha dos edis, o eleitor busca conquistas visíveis e palpáveis. Quando o assunto é o destino da nação, o que envolve mudanças mais acentuadas no destino do cidadão, a escolha ganha outros ares.

Se um candidato diz que vai tapar buracos e reduzir o IPTU o entendimento é instantâneo. Quando a promessa remete a mais empregos e um novo padrão de desenvolvimento econômico (mais estatizante ou mais privatista) a compreensão fica mais fluida, menos objetiva. Nos dois pleitos, a emoção é componente que se mistura à razão. Porém, nas eleições gerais o envolvimento emocional tende a ser maior e mais radicalizado.

Bolsonaro e o PT de Lula perderam patrimônio político nas eleições de 2020, mas é cedo para inferir o poder de fogo de ambos em 2022. Uma esquerda competitiva em 2022 pode impulsionar a unidade da chamada direita, mesmo que seja em torno do capitão-mor. O inverso é verdadeiro. Bolsonaro forte em 2022 pode conduzir à união das chamadas esquerdas – mesmo que no segundo turno, como sói acontecer neste campo. Na ausência do candidato ideal, o eleitor atua para derrotar o inimigo – componente importante na surpreendente eleição de Bolsonaro, em 2018, quando valia tudo para derrotar a saturação com o PT, há 14 anos no poder.

Tradição e síntese

Em política, sabe-se, uma eleição começa no dia seguinte ao término da anterior. Covas, Paes e ACM Neto podem ter produzido frases de efeito, demagógicas. Mas talvez tenham sinalizado que chega de PT, chega de Bolsonaro. A hora é da moderação, que implica ouvir e, sobretudo, não ter certezas e convicções a respeito de tudo. E, mesmo quando se tem certeza, política numa democracia é a síntese, o entendimento possível.

Para isto a política tradicional é mais calejada. Se estamos doentes, queremos um médico experiente. Se vamos construir, buscamos o engenheiro que já ergueu casas que permanecem de pé. Por que na política, determinante sobre as demais áreas, rejeitamos o profissional? Política não é para amadores ou os que estão de passagem. Ela é importante demais para ser entregue a quem a rejeita.

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Jornalista. Graduou-se na UFRGS. Trabalhou no Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Diário Catarinense. Acompanha política no Congresso Nacional e Palácio do Planalto desde 1988. Assessorou protagonistas da política brasileira, todos aqui representados pelo ex-governador de Sergipe, Marcelo Déda.