Foto: Rodrigo Capote/Bloomberg/Getty Images

A convalescença da Covid-19 será longa e repleta de incertezas

Aqui mesmo, em janeiro passado, eu constatava que a Covid-19 (que ainda não tinha esse nome) seria um enorme desafio para a sociedade. Dadas as suas proporções catastróficas, a pandemia provocou mudanças que ainda não estão consolidadas. Agora, às portas de um novo ano, volto ao tema a partir de algumas considerações que devem ser feitas.

A primeira refere-se ao curtíssimo prazo: a incerteza quanto a passarmos ou não por uma segunda onda de contaminação, o que já se desenha na Europa e nos Estados Unidos. Também teremos esse tipo de fenômeno no Brasil? A mera expectativa já é um problema. Uma segunda onda quebraria o ímpeto da retomada econômica, ao demandar políticas de amparo social e socorro para setores que já estão claudicantes.

A segunda consideração é que a questão da saúde pública está longe de ser resolvida, já que não temos vacinas contra a Covid-19. Enquanto não existirem, de verdade, imunizantes disponíveis para largos contingentes da população, a questão permanecerá com repercussões políticas, econômicas e sociais.

Vamos imaginar que em meados do primeiro semestre de 2021 as vacinas comecem a ser oferecidas. O efeito psicológico será imediato e extraordinário, mas o efeito prático na vida das pessoas precisará de certo tempo até que o número de imunizados contra o novo coronavírus seja robusto.

A terceira consideração também se relaciona às vacinas. Serão elas recorrentes, como as utilizadas contra a gripe, ou serão aplicadas apenas uma vez? Os que já tiveram a doença estão imunizados ou não? Essas são interrogações que, para ser respondidas, influenciarão decisões de políticas públicas e econômicas. Em 2021, o grande desafio será a vacinação em massa com um produto farmacêutico que ainda não sabemos qual será.

A quarta consideração é que — com ou sem vacina — o mundo não voltará ao “normal” de antes. O trabalho remoto prosseguirá. As entregas de produtos e serviços também. Os megaeventos e o turismo continuarão afetados por anos seguidos. No Brasil, a economia informal será atingida, pressionando as políticas públicas. As repercussões serão profundas na vida de todos.

O que exatamente preocupa no caso brasileiro? Três aspectos se destacam. O primeiro é a politização do debate sobre a eficácia das vacinas e sobre a sua obrigatoriedade ou não, o que influi negativamente no esforço necessário para enfrentar o problema. O segundo aspecto envolve a incerteza quanto ao caminho a ser adotado para sair da armadilha fiscal do auxílio emergencial. Entre as expectativas políticas e fiscais, o governo ainda trafega em uma pinguela. O que fazer? E como fazer sem destruir, ainda mais, a credibilidade fiscal do país? O terceiro aspecto refere-se à ausência de um conjunto de políticas econômicas que alavanque a retomada. Sem uma abordagem estruturada, a retomada pode ser demorada.

Estamos preparados para a longa convalescença da Covid-19 aqui no Brasil? Acho que não. Tudo indica que os efeitos da pandemia prosseguirão para além de 2021 e chegarão, no mínimo, a 2022, ano da sucessão presidencial. Continuaremos a ter um cenário complexo e desafiador.

Texto publicado na Veja dia 20/11/2020

Artigo anteriorRússia bate recorde de novas infecções com 24.318 casos em 24 horas
Próximo artigoCristiano Noronha: Movimentações de olho em 2022
Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.