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Artigo por Marcelo Bechara Hobaika*, publicado originalmente no site do autor.

Foi um ano após o lançamento de “Garota de Ipanema” no Rio de Janeiro da Bossa Nova que Jorge Ben – ainda sem o “Jor”, reinventou o mais brasileiro dos ritmos, o samba.

O disco “Samba Esquema Novo” trouxe uma mistura elegante de gêneros musicais, do jazz ao rock, e se tornou um dos 20 mais importantes álbuns da música brasileira. Quem conhece sabe, suas faixas são um convite para dançar, algo diferente para uma época dominada pelo calmo balanço da bossa nova. Era novo, mas sem romper com o que o levou até ali.

O mais brasileiro dos ritmos é também o mais democrático. É do povo. Samba o negro, samba o branco, samba o rico e samba o pobre. Até quem não sabe cai no samba!

A democracia deveria seguir os mesmos passos ritmados e se reinventar. Mas insiste em perder o compasso, a desafinar, sobretudo no presente século.

A apuração dos resultados e as repercussões da disputa eleitoral norte-americana, acompanhada atentamente em todo o mundo, fez muitos brasileiros demonstrarem certo orgulho das urnas eletrônicas e sua apuração relâmpago praticada desde os anos 90.

Contudo, são países de culturas distintas e com diferenças marcantes em seus sistemas eleitorais. Assim, não me parece razoável comparar uma disputa binária entre um elefante vermelho e um burro azul num único verso.

O que me chama atenção é esse governo do povo, pelo povo e para o povo, onde a maioria dos votos absolutos dos eleitores não é capaz de eleger seu governante. Isso ocorreu no ano 2000 com George Bush, que saiu vencedor do voto no colégio eleitoral com 271 (um a mais que o número mágico), mas não recebeu a pluralidade do voto popular.

Naquele ano 2000 a eleição foi judicializada pelo então candidato e hoje ativista ambiental ganhador de um Oscar por seu documentário “Uma verdade inconveniente”, o ex vice-presidente Al Gore.

Em 2016 o “quem ganha não leva” ocorrera de novo com Hillary Clinton. A democrata ganharia de Trump com uma margem de quase 3 milhões de votos, mas perderia com folga no sistema de delegados que elegeu o republicano.

A controvérsia eleitoral parece se repetir esse ano e a Suprema Corte pode se tornar mais uma vez o órgão decisor de quem se sentará na cadeira mais poderosa do planeta, ainda que a margem de votos e delegados de Joe Biden seja confortável.

Visivelmente, a população americana parece mais polarizada. Se Biden teve o maior número de votos da história para presidente, Trump bateu o mesmo recorde para um segundo colocado. A derrota de Trump não implica na derrota do Trumpismo e Donald Trump Jr. é um nome na mesa para 2024. Por lá, família presidenciável é algo comum a exemplo dos Kennedy, Clinton e Bush.

No Brasil, se pararmos para pensar os últimos empossados não angariaram a maioria absoluta dos votos dos eleitores, mas dos votos válidos. Ao menos 80 milhões de eleitores brasileiros não elegeram seu presidente.

Mesmo existindo oficialmente vários partidos nos EUA, alguns defendem que mais partidos possam ter condições reais de disputar e vencer o pleito, já que muitos não tem capacidade de eleger nem conselheiros de condomínios. Por aqui, a sensação é oposta. São tantos partidos que eles se tornam menores que as pessoas que os representam.

Mas, regras são regras e desde que previamente conhecidas e aceitas devem ser respeitadas. No Brasil, nos EUA ou em qualquer democracia. Contudo, podem e devem ser aperfeiçoadas.

O olhar que quero explorar não é o do sistema político-partidário-eleitoral, mas o do cidadão comum. O sistema é o mesmo há décadas. Mas e o seu destinatário final, o contribuinte?

Passados 20 anos de um novo século/milênio com transformações tecnológicas inimagináveis, a crise de representatividade parece se agravar ainda mais. Isso porque há alguns anos o choque era entre governantes e governados ou “not in my name”. As divergências entre pessoas eram exacerbadas, mas em regra dentro da civilidade.

Hoje, governantes desafinam o coletivo e dividem seus governados. Aproveitam a situação de fermentas digitais de vociferação e se fortalecem com a polarização. Mesmo no modelo bipartidário americano, os extremos não alcançavam o mainstream.

E por mais que Biden defenda a união isso não será nada fácil. Antes de unir, deve conciliar. Nem mesmo uma pandemia foi capaz de dar uma trégua ao inimigo comum. O vírus assiste de camarote a disputa entre os com e os sem máscaras. Biden usa a metáfora da cura como instrumento de sensibilização da nação. Tenho para mim que o sucesso de sua administração dependerá da mais poderosa das ideologias: a do bolso cheio. Quando a vida progride financeiramente é mais fácil unir.

O cidadão que se julga empoderado pela falsa ideia de uma internet livre é de fato alvo fácil para manipulações, esteja onde estiver no espectro ideológico. Assim, fica mais simples rotular seu inimigo e saber se posicionar. Mas essa resposta simplista às transformações da sociedade parece destinada ao fracasso, pois aposta na guerra social que não possui uma única rima.

A complexidade multifacetada e multiconectada dos indivíduos de hoje, choques geracionais, aumento de expectativa de vida, efeitos da crise econômica desde 2008, incertezas sobre o futuro e uma pandemia como cereja do bolo exigirão medidas que não estão presentes em visões de mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis.

E por incrível que pareça não são rupturas que nos conduzirão à terra firme. Mas o resgate de valores que precisam ser atualizados à nova apresentação da sociedade. Os desafios no campo da educação, trabalho do futuro, ética na tecnologia, IA, privacidade, segurança e defesa não serão resolvidos com modelos de confronto, mas de consenso.

A diversidade e as minorias ganharam voz e eco na internet. As opções se expandiram exponencialmente tornando visões de mundo antes limitadas por condições preexistentes obrigadas a se deparar com certas realidades sem que estivessem prontas para isso.

Assim como o samba é popular, mas pode não agradar a maioria. Os interesses e as necessidades agora colocados a mesa, mesmo que não correspondam aos desejos da maioria não podem ser ignorados, tampouco impostos. A cadência e a harmonia precisam fluir no tempo necessário. E qual não é o maior ativo da política senão o tempo?

A democracia pressupõe um modelo baseado nos interesses legítimos da maioria. Mas quando nem mesmo a maioria se entende e minorias conseguem fazer barulho é preciso que estabeleçamos modelos mais eficazes de captura das vontades, bem como de deveres da coletividade. O único caminho aceitável é pela longa sinuosa estrada do diálogo.

O diálogo somente entre iguais e substituído pelas conexões degenera o intercambio de informações e ensurdece a todos. O ponto explorado pelo filósofo Sul-Coreano Byung-Chul Han é que a ausência de contrapontos e a comunicação somente visual e dos likes só tolera os mais iguais. “O igual não dói!”, e acabamos por nos julgar protegidos com o falso escudo da aproximação a ambientes fechados ignorando o mundo lá fora.

G. K. Chesterton, escritor inglês falecido em 1936, abordou de forma clara o simplismo binário progressistas x conservadores ainda válido no mundo contemporâneo digital. Para ele, o negócio dos progressistas é seguir cometendo erros, mesmo que eles próprios se arrependam depois de sua conduta. Já o negócio dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos, defendo-os como parte da sua tradição. Isso é chamado de equilíbrio, ou contrapesos mútuos, pela Constituição.

Para outro filósofo, nesse caso da Pop Art, Sr. Miyagi, “Nunca coloque a paixão antes dos seus princípios. Mesmo vencendo, você perde.” Em outra passagem de Karatê Kid, ensina o sensei: “O equilíbrio é fundamental. Se o equilíbrio é bom, o karatê é bom. Se o equilíbrio é ruim, melhor arrumar as coisas e ir para casa.”

Equilíbrio é o refrão que almejamos. Equilíbrio é o que mantem o balanço que sustenta o sistema de pé, é o que faz a música virar hino. É a estabilidade que dá segurança. Seja na vida ou na política um caminho estável é o que se busca.

Uma democracia estável e segura não é imutável, ao contrário, busca na compreensão das inquietações sociais os remédios institucionais, o tom maior que restaure o equilíbrio.

O que observamos é que os conflitos se acumulam, evoluem e as repostas simplistas e sectárias não resolvem.

Estão sobre um solo encharcado instável provocado por uma chuva sem fim. Só veremos a bonança após a tempestade se a colheita prosperar sem que uns não destruam as plantações alheias.

Já diria Jorge Benjor no icônico disco: “Chove chuva/Chove sem parar/ Pois eu vou fazer uma prece/ Pra Deus, nosso Senhor/ Pra a chuva parar/ De molhar o meu divino amor /Por favor, chuva ruim/ Não molhe mais/O meu amor assim”.

 

 

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Marcelo Bechara nasceu em Salvador. Formado em Direito pela Milton Campos em 2001, tem MBA pela FGV em Direito da Economia EN 2003 se especializou em Direito Digital. Foi Procurador-Geral da Anatel de 2010 a 2011, Conselheiro-Diretor da Anatel de 2011 a 2015, sendo Vice-Presidente da Anatel em 2015. Membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br por 9 anos entre 2006 e 2015 tendo participado da formulação do Marco Civil Da Internet. É membro do Conselho Superior da ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão para o biênio 2018-2020 e Membro do Conselho Nacional de Cinema desde 2018.