Foto: Alan Santos/PR

É possível verificar que a América Latina ganha importância nas mesas estratégicas de Democratas e de Republicanos mais pelo grau de seus problemas do que pelas oportunidades que poderia oferecer. Mas um fator fez com que a região adquirisse uma nova importância durante a administração de Donald Trump: a influência e a presença chinesa por aqui. Isso levou o presidente americano a investir mais tempo com líderes locais, a mudar sua atitude em relação a organismos multilaterais, por exemplo indicando um novo presidente para o BID, e estimulando o órgão de financiamento do governo americano (DFC) a olhar mais para a região.

Já Joe Biden tem um histórico de atenção para a América Latina, apesar de ainda estar longe do ideal e da expectativa criada em diversos países. Em 2015, liderou a aprovação no Congresso de um pacote de US$ 750 milhões de dólares de estímulo econômico. Além disse, foi o emissário especial do presidente Barack Obama para o continente. A forma como cada um observa e tenderia a agir em relação à região ainda não está muito clara, mas já temos alguns indícios do que poderia vir a ser.

Imigração

Donald Trump

Políticas domésticas de restrição à entrada. Impedir ao máximo a implementação do DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals, programa que concede autorização temporária para morar, trabalhar e dirigir nos Estados Unidos a quem entrou no país como ilegal quando criança) e burocratizar processo de obtenção de vistos (aumentando requerimentos ou freando a velocidade, oferecendo menos vistos de residência). Conectar tema de imigração com segurança nacional.

Joe Biden

Implementação do DACA, manter regra atual de processo para obtenção de vistos, política de auxílio/estímulo econômico para países de origem de imigrantes ilegais. Conectar tema de imigração com direitos humanos. Biden prometeu em campanha um pacote de US$ 4 bilhões para países centro-americanos estimularem suas economias e desenvolverem mecanismos de prevenção de imigração ilegal.

Relação com a China

Donald Trump

Conter estratégia de dependência financeira chinesa (prioridade) e de dependência comercial (secundário). Realinhar bancos multilaterais (BID) como fornecedores pesados de crédito para suplantar busca por crédito chinês. Lobby bilateral com países alinhados para segurar expansão chinesa de investimentos em logística, tecnologia, recursos naturais e infra de energia. Enfatizar papel do DFC como alternativa bilateral de fornecimento de crédito.

Joe Biden

Equilibrar (nas áreas possíveis) estratégia de diminuição da dependência financeira chinesa (Biden deverá seguir uma linha similar à de Trump com BID e DFC) e estratégia de redução de dependência comercial (fechando mais acordos de comércio, em menor escala de volume, com mais países). Biden, por ser mais aberto ao multilateralismo, tentará alinhar países europeus que possam oferecer linhas de crédito por meio dos seus bancos de fomento. Biden seguirá uma linha mais submersa, com conversas não públicas entre seus embaixadores e governos locais.

Desenvolvimento econômico

Donald Trump

Após se colocar contra qualquer organização multilateral, Trump mudou sua estratégia. Viu o BID como um instrumento poderoso para conter o avanço chinês de financiamento na região. Passou a incluir o DFC nas delegações de alto nível. Os aportes ainda são modestos, mas poderiam aumentar à medida que a economia americana se recuperasse. O BID, via seu presidente Mauricio Carone, também vem demonstrando foco em países da América Central, oferecendo cargos importantes a representantes da área.

Joe Biden

Em 2015, liderou a aprovação de um pacote de US$ 750 milhões para a região. Já indicou a membros do staff que poderia estimular um pacote similar na primeira metade do seu governo. Acredita que os EUA perderam influência na região em comparação à China por falta de aporte financeiro e de estímulo ao desenvolvimento econômico. Seguiria usando o DFC como Trump iniciou há pouco tempo.

Biden teria um foco principal na América Central, por conta da questão da imigração, tentando unificar os dois temas e utilizando aportes financeiros como contrapartida para ações mais restritivas dos governos locais em prevenção aos fluxos de imigração ilegal.

Recursos naturais

Donald Trump

A equipe de Trump está cada vez mais preocupada com investimentos chineses em minas de minerais raros. O Chile é um alvo chinês por conta das minas de cobre e de lítio. Primordialmente, a tentativa seria demonstrar com mais ênfase ao governo chileno os problemas de longo prazo em gerar uma nova vertente de dependência comercial com a China. Outra possibilidade seria estimular mineradoras americanas.

Joe Biden

Tem uma postura ainda inconclusiva em relação a recursos naturais versus China. Enquanto Trump tenta estimular as estruturas locais a adaptarem suas regulações (como a criação de um CFIUS local) para inibir a expansão chinesa, Biden não deverá ir nessa linha e optará pela inclusão desses países em diálogos mais fluídos, constantes e multilaterais com os EUA e outros aliados.

Venezuela

Donald Trump

Seguirá com uma narrativa forte em relação à Venezuela, mas também permanecerá relutante em tomar qualquer ação mais concreta do que sanções contra o regime de Nicolás Maduro. O envolvimento prático do Brasil não avançou e a Colômbia também não se sente confortável em embarcar em uma aventura militar no vizinho.

Joe Biden

Membros de sua equipe acreditam que a deterioração econômica na Venezuela seguirá firme e isso tornará o governo ainda mais frágil do que já está. No entanto, isso não é o suficiente para gerar uma troca de governo. A tendência é alternar narrativas ocasionais com observações. Um dos fatores importantes é que, diferentemente de Trump, Biden não confia que Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, seja um líder capaz de trazer grande parte da população para seu lado.

Brasil

Donald Trump

Publicamente, Trump seguirá alinhado com Bolsonaro e Bolsonaro com Trump. Na prática, poderemos ver mais alguns acordos. Um acordo de livre comércio mais amplo dificilmente ocorrerá, por mais que Trump prometa. Num segundo mandato, Trump esperará uma postura mais firme do Brasil em relação à China, a começar pela disputa pelo 5G, com a inclusão da Huawei. À medida que a expectativa de Trump aumente, a pressão em Bolsonaro também. Caso o brasileiro tome uma postura contra a Huawei, ele dificilmente tomará alguma outra atitude mais robusta contra a China e seguirá tentando equilibrar os dois lados.

Joe Biden

A relação com o Brasil dependerá mais da postura inicial de Bolsonaro em relação à Biden do que vice-versa. O Brasil não está entre as dez prioridades globais americanas e seguirá assim com Biden. Caso Bolsonaro inicie a relação com gestos amigáveis, a tendência é que continue assim, mesmo sem os afagos públicos e elogios como ocorreu com o atual presidente americano.

No entanto, deputados do Partido Democrata tendem a ser mais agressivos com Bolsonaro (como já demonstrado), principalmente em questões ambientais. Biden, por ser mais participativo no seu partido do que Trump entre os Republicanos, poderá endossar críticas de Democratas contra o Brasil e isso exigirá habilidade diplomática e tranquilidade política para saber responder sem deteriorar as relações no nível presidencial.

Biden tem a intenção de preparar um pacote internacional de US$ 20 bilhões para a preservação da Amazônia, que certamente não cairá bem com Bolsonaro.

México

Donald Trump

A narrativa do muro não passou de uma narrativa, mas as ações de políticas de imigração continuarão em um segundo mandato. O presidente mexicano, Andrés López Obrador, evita ao máximo se envolver em política externa, já que seu objetivo número um é salvar a Pemex do default (possivelmente transformando o governo federal em sócio e aportando capital e subsidiando impostos).

Dentro da lógica de reordenação da cadeia de produção que hoje se encontra na China, o México (mesmo com um governo de esquerda) está no radar de Trump para receber empresas americanas que optem por sair da China, mas ainda não suportam os custos americanos. Por conta disso, Trump tem uma postura mais amigável com López Obrador do que com outros presidentes de esquerda da região.

Joe Biden

Poderá ver a necessidade financeira mexicana como uma oportunidade para aliar ações de financiamento (via DFC) como mecanismos que inibem a imigração ilegal. Provavelmente terá pouco impacto, já que isso foi tentado em outras oportunidades e o grau de institucionalidade no México é relativamente baixo para poder executar com eficiência políticas desse tipo. Tendo a transformação energética como uma bandeira, o México dificilmente entrará no radar inicial, já que a Pemex é um dos símbolos máximos de nacionalismo no país.

Argentina

Donald Trump

Com Maurício Macri, Trump envolveu a Argentina no radar americano novamente. No entanto, a vitória de Alberto Fernandez/Cristina Kirchner a afastou novamente. A principal preocupação americana em relação à Argentina é o volume de investimentos que a China faz no país. O BID possui inúmeros projetos com a Argentina e isso deverá continuar, no intuito de tentar diminuir um pouco a dependência financeira chinesa. Bem difícil, pois o volume de aporte chinês no país é muito superior ao que o BID poderia fazer ou estaria disposto a fazer.

Joe Biden

Diferente de Trump, Biden tentaria manter um diálogo mais fluído com Alberto Fernandez, mas é possível que isso se torne algo além de narrativas e demonstrações de atenção. A Argentina segue sendo importante para o setor privado americano, mas esse já funciona no piloto automático. O nível de credibilidade argentino com o atual governo é mínimo entre empresas americanas e dificilmente Biden faria algo pra tentar mudar isso.

Colômbia

Donald Trump

A Colômbia tem sido um parceiro histórico dos EUA no combate ao tráfico de drogas a às FARC. Nos últimos anos, esse vínculo diminuiu por conta do sucesso que o governo colombiano teve em relação às FARC. Parte da produção de drogas se mudou para a Venezuela, enquanto outra parte foi diluída em produtores menores na selva colombiana (tendo a cidade de Letícia como ponto de referência). Isso faz com que a Colômbia siga sendo importante para o governo Trump.

Além disso, a Colômbia é estrategicamente importante para operações de desestabilização do governo venezuelano, além de fonte de informações do que ocorre em Caracas, por conta de inúmeras fontes de alto nível que deixaram a Venezuela em direção à Colômbia.

Joe Biden

Não deixaria de ter uma atenção na importância da Colômbia no processo de combate ao tráfico de drogas, mas num nível mais público; não colocaria o país como ponto central na estratégia contra a Venezuela. Uma relação mais voltada para cooperação econômica (em cima das já existentes) tenderia a ser o foco principal.

Artigo publicado no Estadão dia 30/10/2020

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.