Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

No governo, há um gap de percepções entre o que Guedes entrega e o que se espera dele

Quando Jair Bolsonaro foi eleito Presidente, existia uma grande empolgação em torno do Ministro da Economia, Paulo Guedes, e da equipe econômica que estava sendo formada.

O liberalismo econômico, tanto desejado por empresários e investidores, aparentava estar chegando de forma contundente ao país. O investidor estrangeiro também se animou, principalmente quando identificou pilares no novo pensamento econômico que o convidavam a dirigir um fluxo de investimento mais robusto ao Brasil.

Por um lado, o investidor brasileiro mostrou-se ainda mais empolgado com a nova formação que iria dirigir a economia. O pragmatismo histórico de muitos investidores brasileiros se diluiu na certeza de que nada impediria a estabilidade fiscal, as reformas, a desburocratização e as privatizações – os tais pilares da área econômica.

O recente episódio do potencial uso de precatórios para bancar o Programa Renda Brasil foi uma das mais fortes chacoalhadas contra o muro da estabilidade fiscal. Mesmo que Guedes recentemente tenha se posicionado contra, o fato de a ideia flutuar pelos corredores do Palácio e do Ministério já é suficiente para que investidores coloquem, apreensivos, a mão na testa.

Bolsonaro vive sua melhor popularidade desde o início do governo. Já Guedes, sua pior. Isso quer dizer que Guedes errou? Não necessariamente, mas a reinvenção promovida pelo governo ao trocar o tom provocativo pelo silêncio, abraçar o centrão e melhorar o diálogo com o Congresso, também trouxe efeitos colaterais, já que ideias liberais dificilmente caem bem em governantes que almejam a reeleição, compreendam a ação e reação dos programas sociais e comecem a entender que melhorar o mesmo é mais proveitoso do que criar o novo.

A economia brasileira demonstra sinais de recuperação. Existem várias razões para analisar essa melhora: injeção de dinheiro público na economia, quarentena parcial e retomada da atividade econômica mais cedo. Enquanto países da região terão uma queda do PIB por volta de 10%, o Brasil se manterá ao redor de 5%.

Isso gera otimismo no investidor? Não. Pra quem vai investir é aquela pergunta: compra por que está barato ou espera mais um pouco? Nesse ponto, a política ainda tem um peso primordial.

Cenário externo
Com a China voltando a crescer a demanda por produtos de exportação brasileiros, o mercado deve se acelerar e a expectativa é de ver o real se valorizar.

Na prática, temos o real como a moeda que mais se desvalorizou no mundo, reformas que não andaram na velocidade prometida e privatizações que trazem mais efeitos para os produtores de memes do que para o mercado financeiro.

Assim, no governo, estabelece-se um gap de percepções entre o que Guedes entrega e o que se espera dele. Em consequência, ele está sendo moído em velocidade baixa mas constante. O que termina por estimular indagações sobre o seu futuro na capital federal.

Está claro que Guedes quer entregar uma economia liberal, fomentadora do capital privado e menos burocrática. Por outro lado, não existem sinais de que o Presidente queira exatamente isso.

Os dois se gostam e confiam um no outro, mas pensam de forma completamente diferente e isso não está sendo traduzido em políticas públicas. O mercado estrangeiro percebeu o impasse, pois sua paciência tende a ser mais curta: se, na sua percepção, o país não está pronto para receber dinheiro, o preço de vários bons investimentos nos EUA está bom e apresenta ótimas oportunidades.

A diferença de algumas semanas pra cá se fixa na percepção do mercado brasileiro. O investidor nacional começou a dar sinais de desconfiança e isso se reflete na bolsa. Não é que duvidam de Guedes: duvidam da arquitetura de soluções. O plano no papel pode ser atraente, porém se não é possível convencer os obreiros do Congresso a executar o que está delineado, nada vira realidade.

Como gerar recursos para financiar programas e manter, ao mesmo tempo, a aura liberalizante de Chicago e de responsabilidade fiscal? Eficiência é a palavra fácil e necessária, mas não existe eficiência sem planejamento árduo, cooperação e narrativas equilibradas e convincentes. Além de tudo, a eficiência é fruto da reorganização. Como reorganizar se no meio do vendaval, mesas, cadeiras e pessoas de confiança voam ao seu lado?

A lista de insatisfeitos extrapola o Planalto. O Congresso continua irritado com suas agendas. Setores empresariais permanecem agastados com a demora em receber auxílio e de ver um plano organizado para a retomada da dinâmica econômica.

Paradoxalmente, a popularidade retumbante de Bolsonaro se deve, em parte, às políticas de Guedes. Seu sucesso, entretanto, não tem sido suficiente para conter uma crescente impaciência do governo com a equipe econômica no sentido de viabilizar verbas para projetos e resolver questões como o Renda Brasil.

O investidor, brasileiro ou estrangeiro, quer estabilidade, monotonia e previsibilidade política. Em cima disso, para o dinheiro privado chegar e rodar, planos concretos com cronogramas mensuráveis não são acompanhamentos, são o prato principal.

Publicado no Estadão dia 2/10/2020