Foto: Isac Nóbrega/PR

Alimentando-se mutuamente, petismo e bolsonarismo podem conduzir o País à desgastante luta dos extremos. O poder conferido a um servirá de repasto ao outro. Sem uma alternativa moderada e pacificadora, seremos conduzidos a uma efervescência política paralisante

 

Truculenta e intransigente, a chamada extrema direita, alinhada em torno da figura mítica do presidente Jair Bolsonaro, pode provocar a volta ao poder de seu reverso, o PT. Tristemente irônico, pois sem as mazelas econômicas e morais legadas pelo petismo, muito provavelmente o capitão-mor não estaria hoje governando o País.

Eleito com a ajuda do PT, Bolsonaro pode retribuir o apoio

Mais desalentador ainda seria o advento de uma gangorra, onde ora estaríamos à mercê do autoritarismo furtivo de um, ora sob a égide do autoritarismo escancarado do outro. Sectários, cada um tem a convicção que é o único que libertará o povo – do ateísmo comunista ou do capitalismo estadunidense.

Atualmente, assemelham-se pela dissimulada luta anticorrupção. Defendem-na desde que procuradores não bulam seus calcanhares; que deixem de lado milicianos, empreiteiros amigos, blogueiros, tesoureiros e familiares. Num casamento de ocasião, bolsonaristas e petistas aliam-se na sanha por defenestrar a Lava-Jato, a primeira operação na história brasiliana que prendeu corruptos brancos, ricos e poderosos.

Sobrou o PT. Fazer o quê?

Não dá pra saber se o capitão-mor vai reprisar sua surpreendente performance que, em 2018, conduziu-o ao píncaro do poder político patrício. Até aqui, Bolsonaro adotou o governo da minoria, o zigue-zague econômico, o desprezo pelo meio ambiente, a indiferença com a crise sanitária, a diplomacia de colisão, o confronto e o ódio como método político.

Apesar da ficha corrida, sua derrocada não está no horizonte. Primeiro, por que a porção que o sustenta no Palácio do Planalto é expressiva e recalcitrante.

Segundo, por que presidentes com razoável habilidade política e cofres abertos tendem a se reeleger. Outro fator é a inexistência de um adversário à altura. Por fim, há o medo da volta do PT ao poder.

Luiz Inácio Lula da Silva é, ainda, o único líder de massas com estatura para enfrentar Bolsonaro. Ocorre que, no momento, ele balança entre a liberdade consentida e a volta ao cárcere.

Nesse torvelinho em que se transformou o Brasil desde as manifestações de 2013, o PT, partido decisivo na formatação do Brasil do século XXI, mantêm-se impávido. Assim, na falta de coisa melhor, contraditoriamente volta a ser aventado como alternativa para destronar o presidente amigo de milícias, generais, policiais militares insurretos e terraplanistas.

Surgem, então, apelos para que se perdoe o maior partido da chamada esquerda. A matemática de um ex-banqueiro calcula que os eleitores descontentes com o bolsonarismo somem 70%. Em breve, brotará o pensamento conformista: se a única maneira de derrotar a direita obscurantista é ceder outra vez as rédeas do País ao Partido dos Trabalhadores, fazer o quê?

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Moderado desconhecido

Intimidade com o poder não lhe falta, como seu flerte com as elites. Mas, para reatar o namoro, terá que contar, em primeiro lugar, com a inabilidade econômica do hodierno mandatário.

Liberal de ocasião, ele, até aqui, confia no ministro da Economia, Paulo Guedes, para reverter o desastroso quadro econômico que brotará dos destroços da pandemia do coronavírus. Como nenhum país no mundo sabe a receita, trata-se apenas de vaticínio especular como estará o Brasil daqui a dois anos, quando as eleições presidenciais estarão nas ruas – e nas redes antissociais.

Outro fator determinante será a inexistência de outro candidato viável, capaz de enfrentar o capitão-mor. Um político moderado, como foi Fernando Henrique Cardoso, poderia aglutinar parte expressiva dos, hoje, 70% que supostamente se opõem a Bolsonaro, e tirar o Brasil de uma perniciosa gangorra entre extremistas.

Em busca do moderado desconhecido

Não há sinal, porém, do moderado desconhecido. A chamada esquerda esperneia contra a hegemonia do PT, mas, na hora H, deve voltar a orbitar em torno dele. Além disso, o brasileiro gosta de salvadores da pátria.

Arrependido? Que nada

Três fatores justificariam evitar, não a volta da chamada esquerda ao poder, mas a do PT. O primeiro é a certeza da legenda de que nada fez de errado.

O PT nasceu sob o marketing da bandeira da ética. No poder, enxovalhou-a. Diante de provas e fatos, a expiação verbal seria a penitência mínima. Suas lideranças, porém, acreditam que os desvios e o engodo foram justificados ou inexistentes.

Algumas por que se lambuzaram com os fartos caraminguás que brotaram dos erários – como fartamente demonstrado pelo Mensalão e pela Lava-Jato. Outros – estes são mais perigosos – porque acreditam que a causa operária e campesina é um fim que justifica os meios. Defender ditaduras (Cuba, Venezuela), aliar-se a regimes autoritários, homofóbicos e misóginos apenas porque combatem Israel, elevar neocompanheiros a campeões nacionais são táticas políticas.

Este comportamento escora-se na tendência à hegemonia, inabilitando outros pensadores que com ele não comunguem seus dogmas. Em outros termos, o pensamento único.

O terceiro fator, talvez mais deletério que os anteriores, é a entronização do radicalismo extremo no Brasil. Os extremos se alimentam mutuamente. A volta do PT ao poder significaria o recrudescimento do bolsonarismo. O pingue-pongue entre ambos tornaria indefinidos os rumos do País, paralisando a economia.

Mesmo se tivesse feito a elementar genuflexão e confessado sua traição às causas que ostentou, não seria possível ter o PT como partido confiável em uma eventual volta ao poder. Sem arrependimento pelos malefícios que causou ao Brasil (desencanto com a política, depressão econômica, desemprego recorde, corrupção e a eleição de Jair Bolsonaro), na volta, o PT poderá repetir toda sua malfadada receita. Impenitente, debocharia dos que acreditam que o partido mudou.