Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

A entrada do Centrão no governo do presidente Jair Bolsonaro não deverá render no Senado os mesmos resultados vislumbrados na Câmara. Isso porque há diferenças marcantes entre as duas Casas que inviabilizam a reprodução dos efeitos do fenômeno
entre os senadores. Há, inclusive, quem negue haver um Centrão no Senado.

A dinâmica da Câmara e o perfil de representação fragmentada da Casa favorece o modo de atuação desse bloco partidário – composto por Progressistas, PL, PSD, Republicanos, PTB e Solidariedade –, que representa cerca de 1/3 dos deputados. A ação em conjunto de tais partidos tem o objetivo de formar um grupo numeroso com poder de agenda e barganha.

No Senado, esse bloco partidário, que soma 22 senadores, não encontra ambiente propício para reproduzir o mesmo movimento. Diferentemente da Câmara, onde os líderes partidários são protagonistas e o chamado “baixo clero” é mero coadjuvante, cada senador possui peso na composição da Casa. Isso estimula os senadores sem cargo de liderança a exercer postura independente, o que também dificulta uma
atuação coordenada em bloco.

Contribui ainda para não haver um alinhamento automático o fato de o governo ter privilegiado a Câmara nas nomeações de cargos na administração. O único senador agraciado foi Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do Progressistas e líder da
bancada. Nogueira emplacou seu ex-chefe de gabinete para a presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Tais nomeações não subordinam os senadores desses partidos. Um caso que reflete bem essa situação é a recente indicação do deputado federal Fábio Faria (PSD-RN) para o Ministério das Comunicações. O líder do PSD no Senado, Otto Alencar (BA), declarou que manterá postura crítica ao governo: “Eu não tenho nenhuma relação com este governo. Sou completamente independente, faço oposição responsável.”

Entretanto, a fidelidade do Centrão do Senado não preocupa Bolsonaro. Seu foco na Câmara tem duas razões de ser: impedir a aprovação de um eventual pedido de impeachment e se contrapor ao presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), seu desafeto.